Sagrada Família
A OLIMPÍADA DOS MENINOS E MENINAS - Antônio de Pádua Galvão
Estamos na temporada das competições e brincadeiras, nas Olimpíadas dos Meninos e Meninas da geração, que desfrutou nos bairros de Belo Horizonte e cidades do interior as áreas verdes, terrenos abertos e os lotes. Esta é a geração dos anos da contracultura na década 60 e 70.
Nesta época a primeira modalidade esportiva era levantar cedo, tomar um café ligeiro e correr como um maratonista para a sede das competições. O magnífico espaço de jogos e lazer para a meninada. Aquele adorável lugar de alegria, de desafio e luta. Que tenho certeza, cada um de nós guarda na memória com carinho. O inesquecível lote vago, o terreno baldio e aberto. Sem cerca, sem vigia, sem pai e sem mãe para a glória do esporte e brincadeira geral da criançada.
Corríamos para as brincadeiras e jogos de modo vibrantes e orgulhosos. Nesta correria matinal o importante é demarcar o campo, preparar para os jogos. O sagrado espaço da meninada: o campinho de futebol. O solo dos craques, dos guerreiros e das conquistas.
Chegar cedo já inaugurava nossa entrada triunfal na sede da arena dos bravos. Lá estava aquele majestoso, ágora da nossa alegria, o lote com aquele fiapo de gramado, com a área central e a do goleiro carequinha. Aquela terra batida e empoeirada. Para suplícios de nossas mães ao final das competições com as roupas sujas e as feridas das batalhas. A grande arena, nosso parque de desporto e lazer: o terreno aberto, onde íamos nos esconder entre o seus capim alto, a matinha, subir nas goiabeiras, jaboticabeiras, romãs, abacateiros.
Este campinho era o lugar dos craques, chamados pelezinhos. Eu fui uns destes apaixonados pela bola e com talento para deixar sentados meus adversários. Minha lembrança afetiva me revela orgulho de ter sido um craque da pelada. Não esqueço a labuta inglória dos chamados perebas, que passam horas brigando com a bola, saiam exaustos, sangrando de ter chutado o chão, e sujo de tomar dribles e caírem e rolarem na poeira vermelha. Senti-me muitas vezes o pelezinha branco. Tive o respeito dos adversários e a admiração dos amigos de infância.
Neste território praticamos a honra e o contentamento de sermos crianças. Foi lá que aprendemos a escalar a vida, compartilhar esforço, brigar com lealdade e perder com dignidade.
Neste ambiente que as mais encantadoras formas de brincar me foi revelada, e me tornei iniciado. Ali aprendemos a jogar alem da clássica pelada. Os outros mistérios das brincadeiras e competições. Quem não se lembra dos jogos de bolinha de gude, bente-altas, a finca, ioiô, tampão ou bafão, rouba bandeira, esconde e esconde, garrafão, pegador, queimada, soltar papagaio, pare a bola, futebol de botão, totó, purrinha, par ou impar, quebra cabeça, pega ladrão, bodoque, espingarda de chumbinho, três marias, pêra, uva ou maça, passa anel, amarelinha, batalha naval, botar fogo no buraco do formigueiro, pegar tanajura e fazer farofa, nunca comi, achava horrível.
Vamos recordar juntos: Soltar papagaio que maravilha. Grude, papel de seda, taquara de bambu, linha com cerol, hoje proibida, e o vento caprichoso. Dezenas de linha esticada prontinha para corta e tirar do céu o papagaio mais bonito, para ficar o mais forte e agressivo.
Bola de pano e meia, três gravetos formando uma pirâmide, uma lata amassada quatro meninos jogando com as mãos e os pés. E um chute no peito do pé, lança a bola para cima do telhado da casa da Dona Glória ou Magda. Assim era a Bente-altas.
Um buraco na terra e a bolinha vai deslizando no chão e fica na boquinha, enquanto outra cai e entra para a alegria do jogador, que vai clicando e rapando todas as outras. O emocionante Jogo de bolinha de gude, com seu brilho de vidro, algumas bem coloridas e preferidas da garotada.
O bodoque era para o menino guerreiro, de boa mira. Alem de atingir as lâmpadas dos postes, as latas velhas, os vidros dos vizinhos, em algumas brigas atingiam os corpos dos meninos. Era um símbolo de poder e ameaça.
Agora o mais ameaçador era a espingarda de chumbinho. Meu maior remorso. Matei um pardal para fazer uma espécie de churrasquinho com o inofensivo passarinho. Olha que só matei um e ainda fico remoendo este deslize de menino.
A finca era jogo dos tempos de chuva, quando o terreno molhado facilitava para fixar a ponta de ferro. Precisão e força. Fazia um traçado e risco no solo desenhando o mapa da vitória.
A figurinha dos super heróis ou de jogadores de futebol era disputada com intensidade através do jogo do tapão. Montinho de figurinhas uma em cima da outra: Tostão, Gerson, Péle, Piazza, Dirceu Lopes e uma forte tapão virava todas, estava feita a alegria. Saia sorridente com todas para finalizar o preenchimento da coleção do álbum de figurinha.
A contagem iniciava um, dois, três, até vinte, e todos se escondiam no lote, na moita, atrás dos muros, carros e o pegador ia atrás para caçar os escondidos. Ao poucos Iam sendo descoberto e pego. Até que um mais ligeiro conseguia libertar todos, chegando no pique e dizendo um, dois três salvo todo mundo. Assim era esta alegria de brincar de pique-esconde.
Agora o mais bacana era brincar com as meninas. Elas lá com suas brincadeiras de casinha, e vez por outro fazia comida de verdade, para assombro nosso. Brinquei de médico e fiz alguns pequenos exames de febre e olhar nos olhos. Havia muito temor olhando estas lindas meninas. O ponto alto era a brincadeira de pêra, uva e maçã. Que maravilha aquele instante, eu ali ansioso suplicando por aquele beijo de uva ou seria da maça. Faz tanto tempo que meus lábios recordam vagamente este instante de êxtase.
Afinal assim era a vida da inocência. Morador de Belo Horizonte, vivendo nos Bairros Floresta na Rua Sapucaí, Santa Tereza na Rua Dores do Indaiá e Sagrada Família na Rua Caldeira Brant e Itajubá. Estudante do Barão de Macaúbas e Colégio Estadual Sagrada Família, o famoso Sagradinha.
Eu e meus amigos de infância - Marquinho, Cacá, Erminho, Mario Lucio, Rogério, Cassimiro, Mônica, Stela, Tarcisio, Elias, Ana, Alice, Naira, Solange, Glaucia e muitos. Afinal onde estarão? E perdoe-me se os nomes escapam. Todos nós meninos e meninas olimpicamente felizes com nossas competições, jogos de força e afeto. Afinal todos nós queríamos apenas brincar no lote misterioso, no pedaço do terreno de nossa fraternidade e na arena de nossa gloriosa meninice.