Livraria Amadeu
Quem buquina louco é - Rúbia Piancastelli e Pedro Moreira Gomides
Esta máxima resume a convicção de Eduardo Brito de Azevedo, um livreiro que passa a maior parte do seu tempo entre os cerca de 20 mil volumes que compõem o acervo do seu sebo, a Livraria Alfarrábio, hoje localizada no sétimo andar do Edifício Dantés, na avenida Amazonas.
Buquinar é o ato de procurar livros em sebo, atividade que consome tanto os que colecionam livros como aqueles que os comerciam, deles obtendo o pão de cada dia. Segundo Eduardo, todos os sebistas, livreiros e amantes de tomos amarelados pelo tempo são "loucos", categoria à qual ele passou a pertencer no instante em que decidiu abandonar a carreira de advogado para dedicar-se profissionalmente aos alfarrábios %u2013 termo que designa tanto livros velhos e de pouca significância como aqueles que, justamente por terem sido editados há muito tempo, tornaram-se valiosos.
Há 30 anos, a história da Alfarrábio, iniciada pelas mãos do livreiro e professor de história Renato de Assumpção e Silva, ligou-se às buquinações do alfarrabista Eduardo Brito de Azevedo, à época um novato no métier livresco da Belo Horizonte do final dos anos 1970. Seus primeiros passos foram dados com a sua primeira loja, localizada no Edifício Arcângelo Maletta, mas o dia a dia nas galerias do célebre prédio da avenida Augusto de Lima era muito caótico para o jovem livreiro: "O Maletta é quase um mercado persa, muito bagunçado pra mim. Agüentei o quanto pude, o prédio era muito barulhento e decadente". Assim, foi com alívio que Seu Eduardo mudou-se para a Rua Tamóios, endereço inicial da Livraria Alfarrábio, após comprar a loja das mãos de Renato. Foi lá, no topo de uma escadaria que desaguava em prateleiras e fileiras de volumes espalhados pelos cantos, que aprimorou a arte de escolher livros usados, guiando-se tanto pelo estado de conservação quanto pela distinção e utilidade do conteúdo das obras, e foi edificando um sebo que previlegiava as ciências humanas e literatura.
O Apreço não tem preço
Nascido no Rio de Janeiro pela segurança e comodidade do acompanhamento de um avô médico, Eduardo considera-se mineiro de Campo do Meio, cidade ao sul de Minas onde a família residia antes de se mudar para o interior de São Paulo.
Sob influência intelectual dos pais, quando ainda criança, o livreiro cultivava seu apreço pelas obras literárias que habitavam as estantes da fazenda da família, especialmente os volumes de Monteiro Lobato. Pouco depois, a dedicação voltou-se à biblioteca dos padres franciscanos em São João del Rey, no internato para onde se mudou aos onze anos e do qual guarda, como ele mesmo diz, %u201Csaudosa memória%u201D.
Além de estudar, Eduardo foi encarregado pelos volumes infantis e religiosos devido ao notório cuidado que tinha com as obras %u2013 cuidado esse que futuramente seria a base para seu negócio. %u201CSó percebi tardiamente que essa tendência já existia, pois não acredito em predestinação, e sim na responsabilidade que cultivei e a tendência de gostar, por exemplo, de ler e de cuidar dos livros%u201D, confessa o buquinista.
Eduardo ainda se lembra do grande armário de portas de vidro que lhe rendia horas de arrumação, e do contato com os alunos que faziam suas leituras à noite, antes de dormir, momento em que fazia o controle dos livros e aplicava uma %u201Ccobrança simbólica pelo empréstimo%u201D, conta com um sorriso no canto do lábio. %u201CLembro-me ainda de levar o dinheirinho recolhido para o frade, e de seu reconhecimento pela minha responsabilidade%u201D.
Decorador de bibliotecas
O livro raro é um elemento-chave do folclore buquinista. À medida que o acervo da Alfarrábio cresceu, perólas bibliográficas foram surgindo e deixando suas marcas. Porém, nem todos entendem o valor de uma raridade.
Seu Eduardo se recorda, por exemplo, de que certa vez recebeu, em perfeito estado, um volume de poesias em francês de Frederico II, o terceiro rei prussiano, "homem cultíssimo e amigo de Voltaire", acrescenta o livreiro. Ao receber o telefonema de um rapaz com a necessidade de um livro diferenciado para presentear uma pessoa cujo filho chamava-se, coincidentemente, Frederico, sugeriu o volume raro. Após indas e vindas, o comprador observou, pelas mãos e detalhamentos de Eduardo, a relíquia que custava cerca de R$500,00. O moço, vendo um livro antigo com suas devidas marcas de tempo, escrito em língua estrangeira, decepcionou-se: "Seu Eduardo, eu queria um livro que fizesse vista!", exclamou. O livreiro confessa que quase perdeu a paciência: "Não fui grosseiro, mas mostrei logo outros livros que faziam vista". Determinado a dar um destino mais adequado aos poemas do rei alemão, o dono da Alfarrábio ligou para o bibliófilo José Alcino Bicalho, "um distinto e pequenino senhor, com mais de noventa anos, cujas pernas ficam balançando na cadeira", que comprou o livro e tão prontamente assinou seu cheque e nomeou como destinatário a Biblioteca Pública da cidade.
Muitos são os clientes que não se importam com o conteúdo ou com o valor histórico das obras. Exemplo paradigmático é um casal de jovens emergentes que foi à Alfarrábio e, objetivos, explicaram o que desejavam: "Olha, acabamos de montar nosso apartamento e queremos decorar a biblioteca %u2013 tem que ser livro de couro". Irritado, Seu Eduardo costuma entregar estes "pepinos" às mãos dos "meninos", ou seja, dos funcionários Heverton Martins Leonardo, vestibulando que completa um ano de casa e coleciona cinco tentativas para ingressar no curso de Medicina, e Alair Geraldo de Oliveira, estudante que, há poucos meses, passou de cliente para ajudante, recebendo o seu salário em moeda especial: livros. Seu Eduardo ainda se lembra do resultado da compra do casal, que adquiriu vários livros: "Um deles era cheio de fotografias. Aí o moço disse: 'eh, esse até que dá para ler!', acredita?".
São episódios como esses que inspiram o livreiro a cogitar novos ramos profissionais ligados ao livro. "Se tivesse paciência, ia montar uma empresa de assessor para decoração de biblioteca", ironiza, detalhando seus conselhos: "Olha, você leva tal livro, e esse autor é o bambambam. Já essa capa aqui vai combinar com seu sofá, seu quarto..."
Felizmente, Seu Eduardo também recebe clientes pouco interessados em montar bibliotecas de fachada para suas festas pomposas. Pela Alfarrábio, que há dois anos abandonou a Tamóios para ocupar um espaço no vizinho Dantés, também circulam pessoas dispostas a reconhecerem o ofício e homenagearem o livreiro. Um cliente especial, certa vez, encomendou livros do Rio de Janeiro, os quais foram recebidos por Seu Eduardo: "Quando os livros chegaram na Alfarrábio, um outro cliente, professor da Universidade Federal que estava na loja, começou a olhar para o pacote recém-chegado e falou: 'Uai, esse livro é a cara do Eduardo!' Quem encomendou estava lá e falou na hora: 'Não seja por isso, esse livro já é dele!'. E me deu, na hora, um livro sobre os buquinistas no cais do Sena, edição francesa do século XIX, bacana demais".
Ameaça virtual
Ziguezagueando pelas estantes da nova loja, distribuídas por três salas, Seu Eduardo passa por seções dedicadas a temas diversos como religião, mitologia, sociologia, filosofia, economia, pedagogia, psicologia e psicanálise, teatro, música e cinema, comunicação, ciências exatas e biológicas, assuntos do Brasil etc. Oriundo de um mundo onde a concretude do papel não era superada por abstrações digitais, e que o valor impresso da cultura e da história era superior à massiva informação das eras televisivas e digital, Seu Eduardo sente na pele o efeito da Internet no comércio de livros: "A situação dos livros é gravíssima. Há mais editoras no Brasil do que livrarias, o que é um absurdo. Pois as editoras vendem onde? Na Internet". O livreiro também lamenta o êxodo das livrarias rumo aos shoppings %u2013 "público de shopping é leitor de Paulo Coelho e livro de auto-ajuda" %u2013 e a difundida prática de copiar livros nas universidades. Marchando ao contrário da argumentação por muitos utilizada para justificar o uso do xerox, Seu Eduardo afirma que os livros são caros no Brasil justamente porque não se lê muito no país. De acordo com ele, além de um ensino qualificado no páis, faltam iniciativas como as antológicas coleções "Os Pensadores" e "Imortais da literatura", feitas pela editora Abril na década de 70. "Acredito numa tentativa de fazer coisas boas a um preço bom, numa tiragem grande, o que exigiria coragem das editoras, pois a aposta é alta".
Se Eduardo Brito de Azevedo já não crê na sede por leitura do brasileiro, sabe bem que ainda mais seleto é o público interessado nas raridades que aparecem na Alfarrábio. As obras completas do poeta Jorge de Lima, em edição da editora Getúlio Costa, organizada por Otto Maria Carpeaux, estão à espera de um comprador, assim como o volume Perspectivas marítimas da Polônia, de 1938, recém-chegado ao sebo ("os nazistas podem ter estudado esse livro antes de atacar os vizinhos poloneses!", cogita Seu Eduardo) e uma edição do Novo Testamento traduzida para o guarani. Mas, ignorâncias à parte, é bom saber que existem loucos buquinistas fazendo circularem delícias bibliográficas por esse universo de alfarrábios belo-horizontinos.
O tucanense que abastece mineiros - Rúbia Piancastelli e Pedro Moreira Gomides
Tucano é uma cidadezinha de cinqüenta mil habitantes encravada no nordeste baiano, a 252 quilômetros de Salvador. É uma região em que a aridez do sertão não dá tréguas: faz vir as secas, dificulta o trabalho na roça e acaba endurecendo as pessoas. Mas isso não impede muitos tucanenses de transpor as fronteiras baianas e ir buscar, para além dos confins nordestinos, caminhos diversos. É o caso de Pedro Uildon Santos Pereira, que aos 15 anos de idade desceu o estado da Bahia, fixou-se em São Paulo por um tempo e veio parar nas montanhas das Gerais. Na região central da capital belo-horizontina, Pedro deu continuidade ao ofício aprendido na metrópole paulista: aqui, ele é um dos que, com o acervo generoso de seu sebo, o Horizonte, bem localizado no número 172 da Rua Guajajaras, próximo à Escola de Direto da UFMG, alimenta as prateleiras de todos os que ainda recorrem a este amigo silencioso e fiel %u2013 o livro.
Em 1983, desejando caminhos mais amplos do que os do sertão baiano, o tucanense Pedro vislumbrou meios para uma vida mais digna na São Paulo, onde moravam os tios. Lá, mais interessado em pavimentar um caminho profissional do que em enfrentar a convocação para os serviços militares, o jovem baiano viu na Livraria Brandão-Sebo, que define como a "maior livraria de livros usados do Brasil", o porto seguro que o livraria dos quartéis. Acolhido pelo sebo de portentoso acervo, Pedro foi introduzido aos segredos da arte de vender e comprar livros, consolidando, ao longo de 12 anos, não somente seus conhecimentos alfarrábicos, mas a relação sentimental com os livros, fundamental para que se tenha sucesso na área. Além disso, não tardou para que o jovem livreiro entendesse que os sebos são, mais que estabelecimentos comerciais, um ambiente propício para o aprendizado. "Uma escola mesmo", nas palavras de Pedro, que sempre aprendeu com professores, médicos, jornalistas, advogados e estudantes que, na hora de comprar, passavam ao livreiro a cultura adquirida através dos livros. A Brandão era, assim, a sua escola: "aprendi, lá, a lidar com livros e a ser livreiro de verdade. Hoje, não me considero um amador em minha profissão, me considero entre os melhores do Brasil".
Talvez possuído pela persistência daqueles que esperam pela chuva tardia, tolerando as asperezas do sertão, o livreiro Pedro, ainda que bem estabelecido em São Paulo, na Brandão, queria mais: "Eu era tudo lá, menos dono. Ajudei muito a loja com as vendas, mas não era um negócio meu". E foi assim que, em 1997, Pedro Uildon Santos Pereira, sabedor de que a capital mineira oferecia um ambiente razoável para que ele desse início ao seu próprio negócio, abandonou a metrópole paulista e foi para Minas: "Eu não tinha condições financeiras de abrir nada lá [em São Paulo], apesar de o mercado ser melhor. Aqui, com um décimo do valor eu conseguiria abrir uma loja".
Estrangeiro tucanense nas montanhas
Não foi fácil estabelecer-se em Belo Horizonte. Pedro não conhecia mineiro algum que lhe pagasse um café: "Eu me sentia como um estrangeiro em meu próprio país". O ano era 1997 e, segundo ele, o mercado de sebos e livrarias evoluiu desde então: "Os livros eram muito maltratados e as livrarias, em sua maioria, muito desorganizadas. O livro tinha pouco valor de mercado". O investimento em qualificação e organização foi o metódo que Pedro empregou para entrar na cena alfarrábica de Belo Horizonte: "A gente procura atender da melhor forma possível, atende ao cliente indicando obras de grande valia e com conteúdo".
Há 11 anos e meio, ao abrir a Livraria e Sebo Horizonte, hoje contando com cerca de 50 mil títulos distribuídos por dois andares repletos de estantes, Pedro possuía 3.500 livros para dar início ao negócio. Um início tímido, mas que logo ganharia impulso: "Ainda me lembro do dia que comprei 20 cartolinas na livraria Leitura e escrevi: compro e vendo livros". Tentativa simples e eficaz. Ao ver os anúncios de Pedro, o senhor Sandoval de Abreu Sader, corretor de seguros, fez ao livreiro uma oferta: "Disse que teria um negócio de mil livros para me propor. Eu não tinha dinheiro, mas tinha que comprá-los, era minha oportunidade. Fechamos o negócio e comemoramos com pizzas e vinho, numa época em que eu comia só pão por causa das dificuldades financeiras", lembra Pedro.
Dado o pontapé, outras oportunidades surgiram: "Compramos a biblioteca do Desembargador Lincoln Rocha e do filho dele, Lincoln Rocha Jr., com mais de oito mil volumes; a do presidente da Antártica em Minas, Sr. Hermógenes Teixeira Ladeira, com um acervo de arte e direito ímpar; a do Sr. Souza Leal Neto, pernambucano que reside em BH, com mais de seis mil volumes. Todos eles estão ainda vivos, mas mudaram de negócio ou quiseram enxugar um pouco o espaço".
A divulgação, nos primórdios da loja, era feita via anúncios: na rua, em cartazes, nos jornais e em catálogos telefônicos: "Eram investidos R$4 ou R$5 mil reais nesses anúncios, tudo pra mostrar que havia uma livraria em BH capaz de comprar uma biblioteca". Mas, às vezes, a sorte cruzava o caminho de Pedro, trazendo-lhe oportunidades que não se davam com o intermédio da propaganda. Foi assim ao comprar a biblioteca de cinco mil volumes do Dr. Fernando Antônio, distinto juiz, dono, junto com a mulher, D. Vanessa, da Britânica Imobiliária, que inicialmente alugava o ponto na Rua Guajajaras para o inquilino baiano. "Ofereci R$35 mil, depois de pesquisar muito sobre as obras. D. Vanessa me exigiu R$25 mil. Me disse que ela não precisava nem saber do restante, era para mim", conta Pedro, que até diz hoje colher frutos da bondade de D. Vanessa.
Quem vem do sertão não tem medo de nada
Essa ampliação do acervo e a conseqüente consolidação do ponto de Pedro, filho do sertão tucanense em uma terra que não era a sua, só foi possível após lutas não apenas ligadas às dificuldades oferecidas pelo comércio de livros. Além de complicações burocráticas envolvendo a conquista do ponto nobre da Guajajaras, o livreiro Pedro teve que aprender a ser dono de um estabelecimento após 12 anos atuando como funcionário da Brandão, em São Paulo. Diz ele que não havia medo, "mesmo porque quem vem do sertão não tem medo de nada, só da seca, mas é muito diferente passar para este outro lugar". O tempo, no entanto, o ensinou a ocupar esse lugar. Hoje, passando o dia na Horizonte, onde conta com o apoio da funcionária Cleane Fernandes Britis, que há dois anos o auxilia nas compras e vendas, o baiano, já impregnado pela mineiridade, domina seu ofício: "Faço esse trabalho há 24 anos, praticamente todos os dias, sei o que tem aqui e sei o que não tem".
É com essa segurança que Pedro Uildon Santos Pereira vai driblando a Internet e a televisão, que assustam os vendedores mais antigos, mas tornaram-se aliados do livreiro baiano. "Como não existe tabela oficial no Brasil para os livros, o preço está na oferta e procura. Com a Internet há a possibilidade de comparar os preços, o que torna a pesquisa mais fácil, além de conquistarmos um novo cliente, o virtual%u201D, conta Pedro. Com o sistema informatizado, Pedro não tem medo da Internet, vende até para fora do país, pois acredita que, apesar do aumento da concorrência e do sumiço de alguns %u201Cclientes de balcão%u201D, a contrapartida foi uma expansão das possibilidades, pois os perfis de compradores variam muito.
Abastecendo as bibliotecas de Belo Horizonte e de todo o país, Pedro mantém sua garra baiana e apreço pela organização e valor dos livros em seu sebo, onde, como gosta de dizer, %u201Cvocê encontra um pouco de tudo %u2013 e se não encontrar eu acho para você%u201C.
O reino de papel e palavra da Rua Tamoios - Pedro Moreira Gomides
Amadeu Rossi Cocco tem 91 anos. O corpo já se amiudou com a idade e perdeu a agilidade que levava o livreiro de um canto a outro sempre a procurar o volume requisitado pelos clientes de seu sebo, mas as mãos mantêm a vivacidade de outrora, parecem se acender quando pegam um dos 60 mil tomos que ele mantém na matriz de sua loja, na Rua Tamoios, 748. E se seu corpo já não flana, dinâmico, pelas estantes da livraria. A mente, intacta, passeia pela história com a lucidez de um jovem adulto, relembrando casos, precisando datas, alimentando os muitos ouvintes que buscam sua palavra. É um pedaço vivo de história que todo dia encontra-se na matriz da Tamoios das duas às seis da tarde. Senta-se, de quando em quando, no banquinho à porta do sebo, de frente para o balcão que separa o freguês do microcosmo celulósico guardado na loja estreita e comprida. Sabe que a cidade é outra, estranha os carros que às vezes param de frente à loja, com seus sons incrivelmente potentes e a música alta, com batidas rítmicas rápidas e estrondosas. Se um cliente entra no estabelecimento, Seu Amadeu, prestativo e atencioso, logo o atende, mas se há barulheira na rua, espera que ela se vá para melhor atender o freguês.
O curioso na loja do Seu Amadeu é que, em meio aos milhares de livros, há um cofre de ferro, visivelmente antiqüíssimo, cheio de lascas e manchas, mas sólido e imponente. Fica nos fundos do sebo, levemente ocultado por uma estante. A história é que o livreiro, dono do primeiro sebo de Belo Horizonte, estava à caça de preciosidades na biblioteca de algum doutor que ou havia falecido ou queria mudar de casa. Ao chegar lá, o dono do acervo logo apontou os dedos para um bloco de ferro e disse: "quer levá? Pó levá!". Seu Amadeu voltou até sua casa, lá deixou os livros que havia comprado e foi à chamada "Ponte do Sapo", uma pontezinha na Rua Paraíso onde, nos anos 1940 e 1950, se arranjava facilmente caminhonetes e transportadores. Com o apoio de seis homens, transportou o pesado objeto para seu sebo.
Dentro do cofre, documentos preciosos são guardados pelo livreiro. Na sua carteira do Ministério do Trabalho, emitida em 1934, as folhas, amareladas e bolorentas, mantêm-se milagrosamente juntas, permitindo a leitura das ocupações de Amadeu antes da fundação de seu próprio negócio. "Comecei a trabalhar no dia 24 de fevereiro de 1932. Era na Livraria Morais, do Sr. Antônio Pinto Morais. Fiquei dois anos sem registro nenhum. Salário era só na confiança". Saindo em 1935 da Morais, ele ainda passaria pela Rex, aprimoraria os saberes do ofício na Livraria Alemã, de Paulo Bluhm, e trabalharia na livraria Roberto Costa, depois chamada Cultura Brasileira, onde conheceu e traçou laços amistosos com Pedro Paulo Moreira, outra figura que, anos depois, no comando da Livraria Itatiaia, faria a alegria de vários bibliófilos de Belo Horizonte. Após anos trabalhando em livrarias muito bem conceituadas, surgiu-lhe a idéia de abrir um sebo. "Em cada livraria que trabalhei, conhecia os fregueses, os quais sempre me falavam: 'tenho tanto livro velho em casa e ninguém quer comprar!'. Aí montei o primeiro sebo da cidade, comprando livros usados e revendendo''. Assim, em 1948, inaugurou-se a Livraria Amadeu, que então ocupou o n° 238 da Tamoios, ao lado do legendário Hotel Normandy.
Livros milagrosos
Nas suas inúmeras visitas a bibliotecas particulares, Seu Amadeu acabava ganhando ou comprando preciosidades que não eram feitas de papel. Além do cofre, a geladeira que sua mãe utilizou por anos também foi um presente inesperado. Seu Amadeu se lembra de que estava "sendo judiado por uma gripe danada", quando recebeu a ligação de um famoso médico da cidade, já nos %u2018finalmentes%u2019 de sua mudança: "Amadeu, vem cá que tô com um montão de livros pra você!". Mas a gripe e a prostração o impediam. "Que nada!", replicou o doutor, "vem pra cá que te dou uns remédios e você fica logo bom!". Convencido, Amadeu foi à casa do médico, na Serra, cansado e febril. "Quando cheguei lá, era livro espalhado por toda a casa", conta o livreiro, "e logo comecei a arrumar os volumes por tamanho, para melhor poder empacotá-los". Feito isto, o médico disse a Amadeu: "essa geladeira aqui, ó, você leva também!". Enorme, pesada e barulhenta, "daquelas que ainda tinham o motor na parte de cima", a geladeira era mais um serviço para a turma da "Ponte do Sapo". Mas, antes de mais nada, Seu Amadeu tinha que voltar com os livros para a casa, no bairro Santa Efigênia, onde até hoje mora. "Na época não havia táxi. A gente pegava carona e acertava um preço com o motorista", conta Amadeu. Mas naquele dia, não encontrando ninguém disposto a descer a Serra, ele teve que se contentar com o "lotação". "Pegar ônibus, pra mim, era um suplício, por causa da roleta, que me impedia de passar com os pacotes enormes de livros". No veículo, ainda driblando as dificuldades oferecidas pela roleta, Amadeu ouve: "Bom encontrar o senhor aqui! Pedi aqueles livros na sua livraria, mas até agora não tive resposta do senhor!" Surpreso, o livreiro exclamou: "Ó! Coincidência, pois dois dos livros que o senhor encomendou eu tenho aqui na leva que acabei de comprar!" E, assim, Seu Amadeu se desfez de dois volumes, fazendo a venda dentro do "lotação" que o conduzia até o Santa Efigênia.
"Ao chegar em casa, tomei uma sopinha especial que minha mãe fez e caí na cama. Acordei sem gripe nenhuma. Carreguei tantos livros que consegui 'suar' a gripe pra fora!", narra Amadeu, para quem o livro funciona até mesmo como um bom curandeiro.
Freguesia peculiar
Dentro do universo feito de papel e palavra impressa que é a loja 748 da Tamoios não falta, até hoje, um variado espectro de clientes: bibliófilos inveterados, intelectuais, estudantes, curiosos de plantão e domésticas e dondocas à procura de um livro de Sidney Sheldon. Mas à memória de Amadeu Cocco não foge um casal que, certa vez, após horas examinando a babélica amostra bibliográfica da loja, passou a separar volumes e mais volumes, pedindo ao senhor Amadeu a bondade de separá-los em uma caixa. Dois pacotes foram cuidadosamente arranjados pelo livreiro. Guardados os livros, o casal disse que pagaria no dia seguinte, dado o volume da compra. O vendedor anotou nomes e um telefone de contato. Passados dois dias, nada de nenhum dos dois surgirem para coletar os livros e pagar pela vultosa compra. O livreiro, preocupado, liga para o número deixado pelos possíveis compradores. Uma mulher, com aquele automatismo das secretárias, atende ao telefone dizendo o nome de uma instituição. Não compreendendo o que a mulher havia dito, Seu Amadeu pede a gentileza de repetir, ao que a senhora, já com precoce impaciência, responde: "é do manicômio, senhor!" Gargalhando, ele esclarece a situação aos funcionários da livraria: "eram fugitivos de uma casa de saúde mental".
Pilhagem saudável
Ao longo da história da Livraria Amadeu não faltaram espertinhos e espertões que gostavam de furtar livros. "Você acredita? Houve um tempo em que pessoas gostavam de roubar livros!" Seu Amadeu vê os pequenos crimes que presenciou em seu estabelecimento como pequenezas diante do que "hoje acontece por aí". Além do mais, como uma das histórias do livreiro mostra, havia, em alguns casos, arrependimento em relação ao furto cometido. Seu Amadeu se lembra de um estudante, "a carinha meio chupada, o jeito acanhado, meio temeroso", que, certa vez, procurava por um livro de mecânica geral no sebo. O dono, sabedor da posição exata dos milhares de volumes, mostrou-lhe o livro, o qual estudante passou a folhear com vagar. Passado um minuto após seu Amadeu voltar as atenções para outro cliente, viu que o menino %u2013 e o livro %u2013 haviam sumido. No dia seguinte, um senhor, cinqüentão, procura pelo mesmo exemplar. "Não temos, senhor, acabou", responde um dos funcionários da livraria, lamentando o roubo da véspera. O senhor, então, num átimo, perguntou a Seu Amadeu o preço do livro, deu o dinheiro a ele e foi se apressando em sair: "Assim que chegar, Seu Amadeu, o senhor liga; sem pressa, sem pressa". Vendo um pai que queria reparar o erro do filho, o livreiro aceitou, sorridente, o dinheiro.
Muitas eram as técnicas para a secreta pilhagem dos tomos. Alguns, "especialmente aqueles que adoravam roubar romances de faroeste", usavam um blusão largo, sob o qual havia um cordão para, ao apertar a blusa, bloquear a passagem do ar, em luta contra o frio belo-horizontino das décadas passadas. Seu Amadeu percebia a rápida mudança anatômica dos "biblioladrões": "Uai, sô, cê ficou gordo, hein? Comendo muito?". O livreiro, ágil, desfazia o cordão do blusão, e os livros caíam aos montes.
Outros, mais ingênuos, simplesmente punham o livro sob o paletó. Amadeu não deixava de intervir com humor: "Não sabia que o senhor tinha peito de pombo!" e batia os dedos na capa do livro ocultado.
"Minha Luta"
Amadeu aplicava a mesma esperteza usada para flagrar os furtos em suas lojas no contato com os agentes do Departamento de Ordem Pública e Social, o famigerado aparelho repressivo do Estado Novo de Getúlio Vargas. No comecinho dos anos 40, Paulo Bluhm, da Livraria Alemã, que ficava na Rua da Bahia, ao abrir uma filial na Avenida Amazonas, pediu que Amadeu fosse gerenciá-la. Eram tempos bons, a livraria "era uma beleza, vendiam até canetas Montblanc, chiques à beça, o freguês podia gravar o nome nela". À época, Amadeu encerrava os labores no Rei do Talharim, boteco onde não só degustava iguarias italianas como também saboreava "uma pinguinha e um chope". Foi quando a tradução de "Minha Luta" havia chegado às lojas. E a Livraria Alemã, ao ousar rechear a vitrine com a autobiografia hitlerista, acertou em cheio: as edições foram vendidas aos montes. Certa vez, um cliente entrou na loja e quis comprar todos os exemplares do polêmico livro. Logo em seguida, Seu Amadeu recebe uma carteirada%u2019 na cara: "Na verdade, vou comprar coisa nenhuma, vamos apreender os livros" Era um fiscal do Dops. Sorridente, o fiel funcionário da Livraria Alemã deposita seis volumes do livro sobre o balcão. "Só isso?", o fiscal perguntou, furioso. "O resto foi vendido", replicou Amadeu, com um sorriso no canto da boca.
Cerca de dez anos depois, quando já possuía seu próprio estabelecimento na R. Tamoios, fiscais passaram pela loja de seu Amadeu. Fazendo-se de bobos, perguntaram despretensiosamente se ele tinha a autobiografia hitlerista. O dono da loja, cauteloso, replicou: "Tem não. O livro tá proibido, muito difícil de encontrar". Os homens então se desfaziam do disfarce e diziam: "É bom mesmo, porque estamos apreendendo todos os que encontramos pela frente". E o livreiro respirava aliviado: tinha vendido dois exemplares de "Minha Luta" no dia anterior.
Um autógrafo!
Já em fins dos anos 80, não havia mais Estado Novo nem ditadura militar %u2013 apenas uma crise financeira inédita na história brasileira. Mas a fama de seu Amadeu e seus livros ultrapassava os limites das Gerais, atingindo as metrópoles carioca e paulista, assim como o Distrito Federal. E os negócios, "graças a Deus, não diminuíram".
Um dos momentos mais tumultados dentro da loja da Rua Tamoios se deu a essa época. Foi quando Paulo Brossard, Ministro da Justiça no Governo Sarney, durante estada em Belo Horizonte, escapuliu de uma visita a uma unidade do Banco do Brasil no centro para conhecer a famosa livraria do Sr. Amadeu Cocco. Queria encontrar um antigo volume que, à época em que era estudante, não pôde comprar. Após vasculhar seu enorme acervo, Seu Amadeu brindou o ministro com o exemplar desejado.
A paz conquistada por Brossard naquele cantinho feito de celulose logo sumiu: a informação de que ele estava no Amadeu vazou e a imprensa, os carros oficiais e um mundaréu de gente logo se postaram à porta do sebo. Um amplo espectro de tipos humanos se aglomerou dentro da livraria, incluindo-se aí os curiosos e vagabundos do centro da cidade. Em meio a câmeras e gentes, o ministro Brossard avista um senhor de aspecto precário que logo abre caminho em meio à multidão e o saúda: "Jorge Amado! Que prazer! Um autógrafo?". Cortês, Brossard corrigiu o engano: "Não, meu senhor, Paulo Brossard, a seu dispor" Decepcionado, o tal senhor vira-se para a esposa do ministro e fala baixinho, em tom de lamento: "Posso supor, então, que a senhora não é Zélia Gattai..."
Relembrando o caso, Amadeu Cocco, já diante das portas fechadas de seu reino de papel e palavra impressa, se rende mais uma vez às gargalhadas. O filho Lourenço conduz o pai, a bengala e o guarda-chuva em mãos, pela calçada da Rua Tamoios. E Amadeu solta, com convicção inabalável, um bordão batido, mas que perfeitamente traduz a alegria nostálgica do velho livreiro: "recordar é viver".