Praça Sete
Por trás de cada cafezinho há uma história - Pedro Moreira Gomides
Renato Caldeira estava em seu escritório, um canto aconchegante improvisado no mezanino de seu café. Olhava as contas, recibos, extratos, folhas de pagamento e, à medida que se irritava mais e mais, gritava, virando-se para o movimento da cozinha: "Lucy, traz mais um café pra mim!". Acendia um cigarro, voltava a consultar a papelada sobre a mesa. Lucy, há 38 anos na loja da família Caldeira, trazia um café atrás de outro. Renato toma, pelo menos, uns dezesseis por dia. Até hoje. Se nervoso, o consumo aumenta. Naquele dia, certamente aumentou, pois ele achava que o Café Nice estava prestes a quebrar.
Suas previsões, talvez mais fatalistas que realistas, não se concretizaram. Apesar da crise que afetou o hipercentro belo-horizontino, causando o esvaziamento de mais de 800 lojas, o Nice, que desde o fim do Café Pérola reina como a mais tradicional cafeteria da Praça Sete, continua sendo o habitat de uma freguesia tradicional e um dos poucos lugares onde se respira um ar levemente semelhante àquele das décadas de 40, 50 e 60.
O aroma do inconfundível cafezinho de coador se mescla ao do pão-de-queijo recém-saído do forno, ambos feitos com carinho pelas 14 funcionárias que hoje lá trabalham: uma fórmula de sucesso iniciada em 1939. E embora tudo o que hoje se vê no n° 772 da Avenida Afonso Pena seja fruto dos esforços desmedidos de Afonso Geraldo Caldeira, as origens do Café Nice nos remetem ao Rio de Janeiro e ao Sr. Heitor Resende. Mineiro e dono de espírito empreendedor, Resende foi à capital carioca em fins da década de 30, vindo a conhecer o já consagrado Café Nice da avenida Rio Branco, reduto onde legendários mestres do samba armavam suas tretas e mutretas. Lá, Pixinguinha, Lamartine Babo, Noel Rosa e Cartola trocavam figurinhas musicais enquanto sorviam cafés, geladas e branquinhas.
Fascinado com o Nice carioca, Resende empolgou-se com a idéia de montar negócio semelhante. Ao saber que uma das lojas abaixo do Hotel Brasil Palace, então em fase final de construção, estava sendo alugada, Heitor Resende edificou seu Nice mineiro, batizando-o Casa de Chá e Leitaria Nice. A Belo Horizonte de então, ainda em crescimento, passou a frequentar a casa com regularidade. Resende viu-se incapaz de administrar um negócio tão frenético e entregou-a, em 1941, aos cuidados de João Caldeira, irmão de Afonso. Este, ainda na calmaria de sua Barão de Cocais, foi chamado por João para ajudá-lo na condução do Nice. Aceitando o pedido, Afonso veio para BH com 26 anos.
O Nice trazia, desde então, ares novidadeiros. Era o primeiro café a ter garçonetes, conta Renato, que há 33 anos trabalha no n° 772 da Afonso Pena. Sete anos após assumir o Nice, João saiu e a loja ficou inteiramente sob o comando de Afonso, que entregou-se apaixonadamente ao negócio. Fechava o café a uma hora da manhã e já estava abrindo-o às cinco, cumprindo jornada árdua para sustentar os dez filhos.
No Nice, Café = Política
Sob o pulso firme de Afonso Caldeira, o Café Nice foi florescendo em uma capital onde deputados, vereadores e prefeitos, e não raro o próprio governador do Estado, caminhavam tranquilamente por ruas e praças, conversando com o povo sem o aparato de segurança que hoje os cercam. Renato e Tadeu, os irmãos que hoje administram o Nice, lembram-se de que Itamar Franco surgia no café despretensiosamente, como mais um freguês, doido para uma xícara de cafezinho coado. Já nos tempos de Seu Afonso, Milton Campos, Pedro Aleixo, Gustavo Capanema e o notório JK também buscavam o calor do Nice sem pompas, sozinhos, palpáveis. Além disso, o café contava com mesas, que só foram retiradas em 1970, quando o Nice aderiu a uma tendência de lanches rápidos, atendendo apenas no balcão e implementando empadinhas, coxinhas e afins, guloseimas que antes nem eram cultivadas (o pão com manteiga, a broa e o bolo eram os grandes acompanhantes do café). Assim, os políticos sentavam-se e conversavam. A vida era mais lenta.
A proximidade com os prédios da Prefeitura e da Assembléia Legislativa fazia com que o estabelecimento dos Caldeira estivesse no epicentro da vida política da capital. A Praça Sete, afinal, sempre foi palco de manifestações partidárias e o Café Nice era como uma prolongação dos calçadões de Carijós, Caetés e Rio de Janeiro. Renato acrescenta que a vida ainda girava em torno do centro: "Os advogados não tinham ido para o Barro Preto e nem os médicos para Santa Efigênia. Não existia Savassi e muito menos BH Shopping".
Ainda assim, os políticos continuam a ir ao Café Nice, ponto de parada obrigatório para qualquer candidato que faça campanha em BH. E no fuzuê que normalmente ocorre durante as visitas, casos divertidos sempre surgem. Tal como na época em que Tancredo Neves candidatou-se a governador. O Nice, lotado. Renato, Tadeu e Marcelo, outro de seus irmãos, junto a Afonso, tentam organizar a balbúrdia. Tancredo, de algum forma, foi parar no lado interno do balcão, bebendo despreocupado o famoso cafezinho. Foi quando o jornalista João Cabral Amaral, na ânsia para arrancar um depoimento do futuro governador, pulou para dentro do balcão. Só não sabia que os balcões do café ainda não eram soldados ao chão. O salto brusco e repentino fez com que o balcão inteiro viesse abaixo, aumentando ainda mais o caos que imperava no Nice.
Doutra feita, já em 2006, uma visita progamada ao Nice de Aécio com o presidenciável de seu partido, Geraldo Alckmin, vazou pela imprensa. A loja, naturalmente, entupiu-se de gente. Era o segundo turno das eleições. Renato e Tadeu contam que, ao chegarem na porta, Alckmin sentiu-se desanimado com a baderna e quis desistir. No que o sobrinho de Tancredo retrucou: "Tá doido? Quem não toma o café aqui não é eleito, homem!". Alckmin, sob o impacto da seriedade de Aécio, respondeu prontamente: "Bom, eu quero tomar o café!".
Fazendo amizades
Um cafezinho no Nice custa R$0,80. Em 1994, com a entrada em vigor do Plano Real, ele custava 20 centavos. Dificuldades e oscilações econômicas elevaram o preço do carro-chefe do Nice, mas a qualidade sempre compensou os aumentos. "Alguns chegam aqui e, ao se informarem sobre o preço do café, quase gritam: 'Cê tá roubando!", conta Renato. A média de preço nos arredores do Nice é de R$0,40. "Mas aí quem arrisca e compra sempre volta e me diz: 'É, é meio caro. Mas nunca tomei nada igual!'", completa, sorridente.
Talvez por crença supersticiosa, o número de cafezinhos vendidos por dia nunca é revelado pelos irmãos Renato e Tadeu. Só garantem que já chegaram a vender duas vezes mais do que vendem hoje. "Antes não tinha Coca-Cola, nem Fanta, nem H20, essas bebidas concorrentes que querem derrubar o café", diz Renato.
Enquanto o café não é derrubado, o Nice persiste acolhendo todos, desde cinquentões a oitentões, passando por jovens funcionários que trabalham nas redondezas. Para Renato, o segredo da boa administração de um local tão tradicional resume-se no tripé da diplomacia, paciência e valorização das amizades: "Paciência é importante, pois tem gente muito boa, mas também tem os 'carnes-de-pescoço', né %u2013 gente chata que dói. Então temos que ser diplomáticos, porque atendemos a muitas pessoas e cada uma é de um jeito. Como vivemos de centavos, e cada pessoa é uma contribuição importante, temos que saber lidar com todos".
Já no que se refere a amizades, Renato é enfático: "Todos os meus melhores amigos conheci aqui, no Nice". A própria namorada, com quem está junto há 18 anos, apareceu a ele nos domínios do café de seu pai: "Demorei 3 meses para conquistá-la, mas joguei tanto charme e ofereci tanto café que não teve como resistir!".
Os irmãos Caldeira confessam que é só mesmo em função dos amigos que assiduamente frequentam o café que o Nice abre aos domingos. "Financeiramente, não vale a pena. Mas por causa dos amigos, vale", conclui Renato, que optou por fechar às 13h no domingo.
Só mesmo indo ao Nice e pedindo o cafezinho com pão-de-queijo para captar o legado de Afonso Geraldo Caldeira, que lamenta, aos 91 anos de idade, não poder ir com tanta frequência ao lugar a que deu toda sua energia. Bom saber que os filhos e os fregueses ainda têm muita paixão para alimentar essa tradição.
O mundo de Toninho - Pedro Moreira Gomides
Quando a papelaria Rex pegou fogo, iluminando a Praça Sete com aquela combustão repentina, o engraxate Antônio Costa ficou triste. Gostava da papelaria. No dia, ele estava no mesmo ponto onde até hoje trabalha, ao lado da Banca Peróla. "Parece que um botijão de gás explodiu", conta. Todo mundo correndo pela Praça, uma loucura. Já há dez anos, quando o McDonald's instalou-se na loja antes ocupada pelo Café Pérola, o qual, junto ao Nice, marcou época na capital, Antônio Costa não se entristeceu. "O espírito saudosista passa, a gente também quer o progresso". Ainda que fã do Pérola, Toninho, como é carinhosamente chamado pelos fregueses, achou que a vinda da cadeia americana, o fast food, fez bem à praça. "Melhor ter o McDonald's do que aquele portão feio e retorcido do Peróla, que já estava abandonado mesmo..."
Aconteçam explosões ou revoluções gastronômicas, Toninho não deixa de realizar seu ofício diariamente, ritual que cumpre há mais de trinta anos. Desde que chegou à praça, as linhas de bonde e de trolleybus sumiram, o Pirulito saiu e voltou, o edifício Júlia Nunes Guerra, um colosso negro de mármore e vidro que ocupa o n° 600, se ergueu %u2013 e a vida sempre continuou. O Cine Brasil faliu, o Brasil Palace Hotel entrou em decadência e o Banco Moreira Salles transformou-se em local de exposições pouco frequentado, mas certos elementos que colorem a vida vivida na praça ainda não se extinguiram. Toninho ainda confere lustro novo aos sapatos dos "patrões", o Café Nice ainda oferece seu cafezinho, a turma da porrinha ainda se diverte por aquelas bandas e os jogadores de dama ainda não saíram de lá.
Toninho orgulha-se de ser um dos 70 engraxates que ainda trabalham no centro da cidade. Há até dez anos, segundo ele, "eram quase 1500 engraxates licenciados". É difícil resistir contra o fim do ofício: "Não sei por que é que foram inventar o tal do tênis...", lamenta. Não é outra a vocação de Toninho senão a de engraxar, ofício que ele pratica desde os nove anos de idade. Antes de ir para a Praça Sete, perambulou pelo centro todo até ir parar no Parque Municipal, para onde os engraxates foram removidos na década de 1970. Lá serviu como "guerreiro" (aprendiz) do engraxate Cariocão, cujo império compreendia vinte cadeiras. Depois, em 1977, dono da própria cadeira, rumou para a Praça Sete, onde criou ponto, conquistou freguesia e passou a testemunhar momentos importantes da história de Belo Horizonte.
No vai-e-vem dos políticos, conseguiu, ao completar seus dez anos de praça, uma cadeira nova com o então prefeito Maurício Campos, que não se furtava a tomar o cafezinho do Nice. A regularização dos engraxates já havia começado e Toninho, assim como seu irmão Pedro, também colega de ofício, não tinha mais que fugir de fiscais truculentos. Mas faltava-lhe a cadeira nova e ele, ao abordar o prefeito, no meio da Praça, acabou privilegiando a si e aos seis colegas de ponto, que também ganharam cadeiras.
Porrinha valendo um café
Edvaldo Santos passou a ir à Praça Sete por causa do irmão Casimiro, advogado há 30 anos na Praça, a fim de visitá-lo. Vai conversar fiado, tomar café, jogar porrinha e engraxar os sapatos com Toninho. A ele só falta mulher para preencher os três básicos elementos da vida: "Café novo, mulher nova e sapato engraxado!". Convivendo com os senhores que circulam pela Praça, Edvaldo e Casimiro temem serem considerados parte da "turma da rola cansada". Casimiro jura que, se for assim tachado, coloca uma prótese para fugir ao rótulo.
Enquanto Edvaldo proseia com o irmão, Toninho vai obedecendo ao método que aprendeu com Cariocão: 1. pincel com sabão para tirar a poeira; 2. duas escovas com graxa percorrendo o sapato; 3. e o pano deslizado de cima para baixo para uniformizar a distribuição do colorido %u2013 o serviço sai a três reais. Para Edvaldo, "uma pechincha que vale a pena!"
Ao lado de Toninho, em frente ao Café Nice a porrinha já está em andamento. Pedro Wolkow, um dos homens à frente dos jogos, diz que o importante não é ganhar o jogo. "Tanto é que, quando eu ganho, faço questão de pagar o café pros meus adversários, embora a aposta seja justamente a de presentear o ganhador com um cafezinho do Nice", diz. Pedro nasceu na União Soviética e, ainda bebê, peregrinou pelos Estados Unidos e pela América Central até vir parar com a família em uma Belo Horizonte ainda na timidez provinciana dos anos 1960. "Zanzando pelo mundo afora, apanhei muito só porque sou russo. As pessoas achavam que ser russo significava ser comunista". Casimiro, acariciando a barriga proeminente de Pedro, brinca "em compensação, tornou-se invencível na porrinha!"
Casimiro abandonou a porrinha e todo tipo de apostas feitas na Praça Sete. Nos anos 90, perdeu muito dinheiro ao errar o nome do assassino da novela global "A Próxima Vítima". Hoje em dia, só quer saber de cafezinho e conversas amenas com o irmão Edvaldo e os amigos Renato e Tadeu Caldeira, filhos de seu Afonso, proprietário do Nice.
Toninho, por sua vez, nem dinheiro para apostar tem. "E mesmo se tivesse, não ficaria correndo risco com aposta". O engraxate, se fosse rico, reformaria o Hotel Brasil Palace e daria a ele as três estrelas que lhe foram tiradas quando o hotel entrou em decadência. No fundo, diz ele, quer conservar um pouco da Praça que não existe mais.
Jogatina celestial - Pedro Moreira Gomides
No calçadão da Rio de Janeiro, parte da Praça Sete, o ponto mais central de Belo Horizonte, um homem franzino levanta-se e, abrindo a Bíblia que segura entre as mãos, passa a pregar a palavra do Senhor para os milhares de passantes da praça. Fala gritando, num tom de voz impetuoso, quase raivoso: "Um dia vamos todos morrer! Somos pecadores e vamos acertar as contas com Deus! Hoje o homem é escravo da prostituição, da maconha, da cocaína! Qual é o interesse de vocês? É ficar na jogatina o tempo inteiro?". Dizendo isso, o pregador aponta para as onze mesinhas de madeira diante dele. Ao redor delas, um grupo de pessoas não pára nem um segundo para levantar a cabeça e olhar para o homem de Deus. Até que Valdir Neves, o Imbatível, incapaz de planejar o próximo lance com a pecinhas redondas que tem na mão, levanta a cabeça e grita para o pregador: "Sai daqui, sô! Vai amolar quem quer ser amolado, homem!"
Mas o pregador continua: "Você vai morar no inferno! Com Satanás! E lá não vai ter nem dama, nem xadrez, nem bebida e nem mulher da vida!". Valdir vira para Martinho, seu companheiro de jogo: "É... Já que não tem jogo de dama no inferno, vamos jogar o máximo que pudermos antes de ir pra lá!". A turma morre de rir, mas logo se cala. A concentração nos jogos é total. Para muitos dos senhores que frequentam o ponto de Valdir, proprietário de um dos três que hoje se espalham pela Praça Sete, a dama é última paixão que lhes restou na vida.
Valdir Neves sabe disso. Afinal, a dama é também sua maior paixão. Sempre foi, desde os 12, quando aprendeu a jogar. Incapaz de fixar-se em empregos, os quais abandonava sempre que surgia a oportunidade de "fazer um joguinho", Valdir conheceu sua vocação profissional quando passou a ir à Praça Sete, onde conheceu duas das figuras que fundaram a tradição do jogo de damas na praça: o afamado, mas misterioso, Homem do Sapato Branco e o marceneiro Antônio Garcia.
Origens de um vício profissional
Segundo Valdir, a dama e o xadrez eram jogados de maneira muito precária em meados dos anos 1970. Na Praça Sete, já havia uma cena incipiente, mas poucos eram os que traziam bons tabuleiros. A desorganização reinava. Um dos mais assíduos frequentadores era um homem sisudo, calado e, segundo os veteranos, "talentosíssimo". Só usava sapatos brancos e um terninho preto, listrado, sempre surrado. Valdir e Luís, amigo e sócio no ponto de dama da Rio de Janeiro, na esquina com Amazonas, lembram-se de que este senhor passou a ser chamado de Homem do Sapato Branco. Era tido como imbatível, mas não humilhava ninguém. Pelo contrário, contribuía para democratizar o jogo. Trazia tabuleiros, disponibilizava-os. Até que um dia, por volta de 1975, sumiu.
Foi então que Antônio Garcia, marceneiro diletante e jogador profissional, passou a organizar os jogos: "Seu Antônio fabricou muitas das peças que até hoje usamos. Reuniu todos os pontos em um só, na parte superior da Rio de Janeiro, em frente à Galeria Praça 7 e passou a gerir o negócio", conta Valdir.
O método criado por Antônio Garcia é o mesmo usado até hoje. Marca-se o horário de início do jogo em uma etiqueta que é colada à mesa. Ao término da partida, o gerente do ponto olha o tempo transcorrido e faz as contas. Hoje, um hora de jogo custa R$0,60 para cada participante. "O lucro que os gerentes obtém é mínimo. A maior parte vai para o aluguel da sala onde guardamos os tabuleiros, banquinhos e peças para a manutenção da parafernália toda", afirma Valdir, que a partir de 1976, contando 20 anos de idade, passou a visitar as mesas de Antônio Garcia.
Nos anos 80, a Prefeitura transferiu os jogadores para o Parque Municipal. Foi um fracasso. "Veja só, o Parque fechava, na época, às cinco, seis da tarde. Nós só conseguimos parar às dez! Não tinha jeito! Brigamos com a Prefeitura e conseguimos voltar pra praça. Hoje, não tem mais encrenca". Apenas pediu-se que o enorme grupo de jogadores se dividisse em quatro subgrupos.
Passatempo
Para a maioria dos jogadores, a dama é o grande passatempo que os auxilia na luta contra a senilidade e o ostracismo. Grande parte de aposentados deposita sua paixão nos pequenos discos pretos e redondos que se locomovem sobre o tabuleiro. Otávio Rangel dribla diariamente as dificuldades que o corpo de 91 anos oferece para se divertir no ponto de Valdir. Pega dois ônibus, desce na Praça Sete, senta-se a uma das mesinhas e tira o saquinho preto onde guarda as peças vermelhas, personalizadas, já que ele não enxerga as pretas. "Preferia as cartas, mas não as enxergo mais. Aí descobri, há dez anos, a dama. Nem jogo direito: sou pato. Tem muita gente melhor por aqui. Valdir, por exemplo, dá aula", conta Rangel, ex-jogador e treinador de futebol.
Luís Sobral, que auxilia Valdir na organização do ponto, adora quando os senhores mais idosos dominam o ponto: "É mais tranqüilo". Às vezes, os chatos aparecem. Mendigos, doidos, fanáticos religiosos. Uns sentam-se nos banquinhos sem jogar. Aí, tiveram a idéia de escrever o recado sobre cada banco: "Favor só usar quando estiver jogando. Sapo não!" Sapos são os que incomodam o andamento dos jogos.
O espaço democrático da Praça permite tanto a presença de novos gênios, como os surdo-mudos Alex e Márcio (que só faltam derrubar Valdir, ainda imbatível), quanto a de caloteiros e pregadores agressivos.
No fundo, aqueles que são verdadeiramente apaixonados pela dama nem ligam para o que acontece ao redor das mesas. As piadas só irrompem de quando em quando. O silêncio é sagrado naquele pequeno aglomerado humano.
Os amigos perguntam a Valdir: qual o segredo para se jogar bem a dama? "Dizem que quem come espinafre joga melhor", diz o Imbatível, já logo em seguindo soltando a gargalhada alta. Tão alta que as rugas da careca negra se contraem.
Otávio Rangel, que já perde pela terceira vez para Valdir, não crê que ele seja imbatível: "Atrás de morro tem morro", ensina.
O pregador já encerrou sua labuta. No fundo, a impressão que se tem é que o céu está no jogo de damas. Fora das mesas é que deve estar o inferno.