Parque Municipal
Os mágicos burrinhos de Seu Rafael - Pedro Moreira Gomides
Tico, Azulego, Severino, Frajola, Mosquito, 22, Jiricão, Brinquim e Chinelo. São eles alguns dos heróis do Parque Municipal que trazem alegria para as crianças nos sábados, domingos e feriados. Medindo cerca de um metro de altura, com rostinhos obedientes, os burrinhos saem todo fim de semana do sítio de Rafael Antunes, em Mateus Leme, para desembarcarem no Parque, às oito e meia da manhã. Ainda no sítio, tomam o "café da manhã" reforçado, composto por capim e feno moído, e partem para a labuta. Se for um domingo ensolarado em princípios do mês, o clima bom e o bolso cheio dos clientes fazem com que quase mil crianças montem em seus lombos selados. O batente é duro: Rafael e seus 11 funcionários correm feito doidos, enchendo os dois baldes d'água que matam a sede dos burrinhos e organizando a fila caótica das crianças. Ansiosas, muitas chegam a chorar de impaciência.
Rafael dá continuidade a um empreendimento iniciado pelo pai há 60 anos. Em 1947, Zacarias Antunes veio de Nova Serrana à capital mineira para submeter-se a uma cirurgia. Resolveu fixar-se em Belo Horizonte, aproveitando a oportunidade de vender verduras no centro. Mas ao conhecer o mineiro Miguel Coelho, que já fazia passeios no Parque com três burrinhos e dois cavalos, Seu Zacarias nem quis saber mais de verduras. Já versado em criação de equinos desde a infância, arrematou os animais de Coelho, que, inexperiente no tratamento de animais, já queria partir para outros negócios. Com o plantelzinho inicial de cinco animais, Seu Zacarias deu origem aos mais de 30 que hoje estão sob os cuidados de Rafael, o qual desde os cinco anos de idade não saía de perto nem do pai nem dos burrinhos.
Com o tempo, os burrinhos tornaram-se tradição e o cortejo que os acompanhava na ida matinal para o Parque também integrou-se à cultura belo-horizontina. Hoje, não há mais cortejo. "A cidade cresceu demais. Muito trânsito, muita gente, maior falta de respeito com os bichos e conosco também. Aí levamos os burrinhos todos para Mateus Leme, fazendo o transporte com caminhão. É mais seguro. Dias de hoje, já viu, né? Foi-se o tempo bom". Antes, dormindo nas chácaras de seu Zacarias, ou no São Bento, ou no bairro Estrela d'Alva, os bichinhos desciam a pé para o trabalho, seguidos de bêbados e curiosos. Não raras foram as vezes em que um ou outro fugiu à noite do curral. Para Rafael, "a memória do bicho é uma coisa espantosa. Quando se perdem, vêm todos pra cá, pro Parque". Segundo sua mulher, D. Vera, o burrinho, além de ter memória boa, é um animal trabalhador por excelência. Lembrando-se do ano de 1992, quando o Parque permaneceu fechado por bom tempo para reformas, ela conta que "todo fim de semana tinha um bichinho que fugia e vinha parar no Parque. Estavam entedidados, só pode ser. Queriam trabalhar e não tinha como!"
Ainda que famosa e honrada por várias reportagens e homenagens, a empresa de Rafael, além de trabalhosa, lhe tem rendido cada vez menos. "Um dia acordei e me deu vontade de parar", conta o proprietário. D. Vera, emocionada, lembra-se deste dia: "Rafael chegou à cozinha, onde tomávamos o café da manhã e falou que era bobagem continuar com os burrinhos". Um dos filhos do casal, de 14 anos, que cresceu no Parque, junto aos animais, disparou a chorar: "Mas não é isso o que o vovô gostaria que fizéssemos!". A evocação do nome do pai e a paixão do filho desarmaram a decisão de Rafael, cuja admiração pela trajetória de Seu Zacarias fica explícita quando se vê, nas gavetas da bilheteria, o grosso maço de artigos sobre os burrinhos do Parque colecionados ao longo dos anos.
Terapia no Parque
Embora os 20 burrinhos roubem a cena, não há como menosprezar os três cavalos que Rafael traz para o Parque. Ainda mais quando se vê um dos jovens que os montam. O faz por um motivo de natureza maior: é portador de necessidades especiais e montar, para ele, é muito mais que um prazer passageiro.
Guilherme de Araújo tem 16 anos e monta desde os dez. O pai, Renato, sempre morou no centro da cidade, tendo, em função disso, contato constante com o Parque. Lá também passou, assim como muitos de sua geração, uma "infância verde". Segundo ele, foi essa a infância que ele quis dar a Guilherme: "Quando soubemos dos benefícios da equoterapia, pensei logo no cavalos do Rafael, no Parque". De acordo com Renato, a meia hora de montaria dominical de Guilherme tornou-se tão efetiva que substituiu um remédio: "São medicamentos muito pesados. Só tarja preta. Quanto menos tomar, melhor. A equoterapia deu tão certo, que o Guigui passou a tomar só um remédio ao invés de dois".
Guilherme, após meia hora sobre a sela de Sorrisão, sai da montaria revigorado, sem deixar de dar mostras do vigor adquirido com a cavalgada no Parque. Enquanto desce do cavalo, Renato e D. Vera discutem planos de implementar um trabalho equoterapêutico no Parque, pretendendo realizar parceria com a Prefeitura para que a carteirinha dos portadores de necessidades especiais também cubra os passeios com os burrinhos e cavalos. D. Vera é veemente: "Não quero lucro nenhum. Só a alegria dos meninos já paga o trabalho".
Chegam as cinco da tarde e Rafael já encerra o expediente. Os burrinhos, já sem as selas, comem milho com farelo no Parque. Guilherme vai até o pai e, vibrante de alegria, grita: "Algodão doce!". A mãe, Estela, explica: "É o ritual dele, quando vem ao Parque: pipoca, cavalo e algodão doce".
No lambe-lambe de pipoca e algodão-doce - Pedro Moreira Gomides
Para Maria Silva, a manhã pode começar de duas formas: "ou de um jeito muito normal ou de outro, muito esquisito". A última surpresa que vivenciou foi num domingo recente, logo quando os brinquedos do Parque Municipal começaram a funcionar, por volta de nove da manhã. A roda-gigante, sempre cheia, ao dar a tradicional parada, revelou a presença de dois mendigos que, no ponto alto da roda, despiram-se e começaram a urinar lá de cima. "Coitados dos que estavam lá embaixo!", exclama Maria, sem deixar de esconder uma gargalhada. Depois chegou a polícia e a confusão fez-se breve. "Graças a Deus", senão D. Maria Silva, pipoqueira há quinze anos no Parque, ia "perder freguesia".
Maria não foge à regra geral dos ambulantes do Parque. Tal como nas sucessões de trono da nobreza européia, quase todos os vendedores mais jovens do maior parque da capital dão continuidade ao negócio inaugurado pelo pai, pela mãe ou por algum parente próximo. Maria prossegue com aquilo que o sogro, José Silva, começou há 50 anos. O marido faleceu, mas a pipoqueira manteve a tradição que é seu ganha-pão. O carrinho, ainda que reformado, é o mesmo, a técnica de fazer pipoca também.
Próximo à barraca da pipoqueira, ao pé da roda-gigante e diante do bate-bate, Gilson José de Souza pega um espeto de pau e parece fazer mágica: enfia-o num buraco em cujo centro roda uma peça giratória e, do nada, faz com que um novelo branco se enrosque no espeto. A criançada dá a notinha amassada de um real para Gilson, ganhando, em troca, aquele pedaço mágico de nuvem, saído das mãos dos mais antigo vendedor de algodão-doce do Parque Municipal.
É verdade que dois mendigos urinaram na roda-gigante? "Mentira pura, não chegaram a fazer xixi, isso é boato que o povo espalha", diz Gilson, que odeia bagunça em sua região. O doceiro quer saber é de vender e tratar bem o cliente. Como quase todos do Parque, dá vida àquilo que o pai construiu. Seu Gilberto começou a vender algodão-doce em 1962, no mesmo ponto onde o filho Gilson hoje realiza o ritual que aprendeu com dez anos: enche o buraco central da peça giratória com açúcar cristal Colombo, "especial e branquinho", e liga o motor que faz a peça girar. À medida que gira, a resistência interna da peça derrete o açúcar, o qual sai pelos poros laterais da peça. O choque térmico com o ar externo impede a formação do melado amarronzado e o resultado é a iguaria querida por tantas crianças e até mesmo adultos.
Gilson era caminhoneiro. "Abandonei a estrada para vir ajudar meu pai e fiquei desde que comecei, em 1980". O carrinho, com 31 anos de idade, abriga um motor ainda mais velho, que o próprio seu Gilberto montou em 1970. Tanta tradição, embora garanta para Gilson um orgulho pessoal, não lhe proporciona a bonança que o pai viveu: "Meu pai ganhou dinheiro. Agora, piorou demais." De acordo com ele, o deslocamento das classes mais altas para a Savassi e para os shoppings contribuíram para a diminuição das vendas. Gilson afirma que não vende mais de 300 algodões-doce por fim de semana, chegando ao Parque às oito da manhã e saindo às cinco e meia da tarde. "Algodão-doce tem que estar onde existe criança. Mas, hoje, vêm menos crianças para cá. Acho que elas preferem jogos de computador. E durante a semana vão pra escola. Aí, sem criança, não dá", conta.
Jogos eletrônicos e o isolamento das classes alta e média em outros espaços não fazem com que Gilson perca a alegria que lhe traz sua profissão. Com o jaleco branco, sobre o qual vê-se o crachá da prefeitura indicando a atividade, o número do carrinho e seu nome completo, e as mãos brancas feito neve, o doceiro ostenta um sorriso suave quando uma criança vem e, depositando a moeda de um real em suas mãos, pega o algodão-doce como se estivesse diante de uma preciosidade.
Lambe-lambe digital
Várias foram as vezes que Chico Manco, há 44 anos no Parque Municipal, explicou o funcionamento da máquina lambe-lambe em palestras para universitários ou em reportagens para jornais impressos e televisivos. Várias foram as vezes que Chico Manco, no Parque, fotografou famílias inteiras, casais, crianças, jovens e até animais. Várias as vezes que Chico Manco deliciou-se com o lambe-lambe do papel de filme, ritual que indica o lado correto a ser imerso no preparo químico que faz surgir a foto e que dá nome ao tradicional processo fotográfico que fez história no Parque Municipal.
Mas a sua barraca, distante do algodão-doce de Gilson e da pipoca de Maria Silva, é hoje um espaço que nada lembra a parafernália do lambe-lambe. No carrinho, uma impressora e alguns badulaques eletrônicos. No pescoço do fotógrafo, uma câmera digital. O lambe-lambe já não é usado por Chico há vinte anos. E a fotografia analógica foi abandonada há três meses: "Não teve jeito, tive que ceder ao digital", revela o fotógrafo. Feliz por conquistar nova clientela com a velocidade do novo processo, mas triste por ver que o artesanal das coisas antigas se perde no meio do caminho, Chico confessa: "Saudade eu tenho é do lambe-lambe mesmo". Seu xodó é a máquina Bernardes que o acompanhou nos tempos que ele define como "bons de verdade" do Parque Municipal. Segundo Chico, a câmera, feita há 97 anos em São Paulo por um fabricante italiano, é uma das 3 únicas existentes no país e, além disso, é o seu mais forte elo com o Parque no qual ele trabalhou há trinta, quarenta anos.
Hoje, a foto que antes saía em uma hora sai em 3 minutos. Chico Manco não precisa mais ir aos laboratórios da avenida Afonso Pena tal como fazia nos tempos analógicos pós-lambe-lambe. A velocidade ajudou a levantar a clientela. "Mesmo assim, trabalho mesmo é por tradição, dinheiro eu não ganho mais não", conta Chico. Na sua barraca, compra-se meia dúzia de fotos 3x4 a cinco reais. O formato padrão de 10x15, cujo preço é também cinco reais, é o que mais sai. Mas os sábados e domingos, antes movimentados e sinônimos de lucro, "andam fraquíssimos".
Se Chico sabe a respeito dos dois mendigos que urinaram na roda-gigante? "Uai, mas não foi no trenzinho da maria-fumaça?", indaga. No Parque Municipal, as fofocas surgem, se espalham entre fotógrafos, pipoqueiros e vendedores de algodão-doce. Verdadeiros ou não, cada um dá um colorido particular aos fatos. Nada como um pouco de fantasia para ajudar na luta contra a extinção.
As pinceladas de Lisete & Alberto - Pedro Moreira Gomides
Na sala de estar de sua casa, Lisete Meinberg se senta diante de um retrato seu, feito por Inimá. Seis de seus próprios quadros ornam as paredes. Duas portentosas esferas trabalhadas em ferro, cheias de sulcos, buracos e cristais incrustados, mostram, em seu interior, formas como que moldadas por um magma vulcânico. Elas ladeiam as duas poltronas da sala e um longo sofá, sobre o qual já sentaram muitas figuras ímpares da história belo-horizontina.
"Foi no Parque Municipal que conheci Guignard", ela conta, marcando o ponto inicial de uma amizade que estendeu-se até a morte do pintor, em 1962. Dezoito anos antes, em fins de 1943, Guignard chegava a Belo Horizonte, a convite do prefeito Juscelino Kubitschek, e encontrava um Parque lírico, onde abundava o verde e uma luminosidade ideal para aulas de desenho.
Frequentando a Escola de Belas Artes, já então chamada Escola Guignard, ou, ainda, Escola do Parque, já que era parte inseparável da área verde na qual foi inicialmente instalada, a senhora Meinberg, mulher, desde 1942, do médico Francisco, já participava das longas caminhadas que Guignard empreendia com seus alunos pelo Parque Municipal. O contato entre os dois estreitou-se ainda mais quando a Escola tranferiu-se para uma casa na esquina entre a Rua Tamoios e a Avenida Amazonas. E mesmo após a saída de Lisete da Escola, a amizade floresceu, o que prova telefonema de Guignard, recebido pela artista: "A senhora não quer dar umas aulas aqui na escola, não?". Já pintora consolidada, a ex-aluna aceita o convite e começa lecionar cerâmica, passando, logo, para o desenho e a pintura.
No mesmo ano, Alberto da Veiga Guignard estabeleceu-se na casa do casal Meinberg. Havia bons 700 mil réis em sua conta de banco, mas ele não tinha onde residir.
Um peru roxo
Santiago Americano Freire, médico, amante das artes, estava a hospedar o já renomado pintor, cuja dificuldade em adaptar-se a regularidades financeiras e em estabelecer moradia fixa já era compreendida e tolerada por seu grupo de amigos, discípulos e admiradores. Mas a casa de Santiago tinha que dar preferência à vinda de um parente do médico para a capital mineira, o que impedia a permanência de Guignard sob o teto dos Americano Freire.
Lisete recebe o telefonema do Dr. Santiago: "É só por 3 semanas. Até lá encontramos um lugar para o Guignard". Um quarto foi providenciado na casa dos Meinberg, que não hesitariam em ter o mestre em sua própria casa, construída em 1953, sob o meticuloso escrutínio da esposa do Dr. Francisco, já que o projeto inicial era dela, tendo sido concluído e executado pelo primo Luiz Pinto Coelho, o mesmo que traçou as linhas do Edifício Acaica.
Prestes a hospedar o mestre, mais mineiro que fluminense, na Rua Santa Helena, 91, a pintora recebeu de Santiago um conselho que o tempo provou ser valioso: "Não dê dinheiro a ele, dê a mim, que tomo conta das suas finanças".
Logo no começo da estada do pintor em sua casa, Lisete vendeu um dos seus quadros. O dinheiro, ela o deu a Santiago, na presença do pintor, dizendo: "Olha, Guignard, já que o Santiago é o seu secretário, vou dar a ele o cheque que recebi com a venda dos seus quadros, tá?". O pintor, no dia seguinte, fez as malas e declarou-se disposto a ir embora: "Estou magoado com a senhora". Lisete, então propôs a ele: "Vamos fazer uns cartões natalinos bárbaros e vendê-los aos alunos da Escola. Aí o senhor ganha um dinheirinho". Assim fizeram. Terminadas as vendas, Guignard recolheu, feliz, o dinheiro. Sumiu por três dias. Lisete conta que ele, ao voltar, "parecia um peru roxo, todo sujo e maltrapilho".
Dr. Francisco passara os três dias em busca de Guignard. Vasculhou o Parque, todos os botecos, "desde os grã-finos até aqueles em que domina o miserê", conta Lisete, "e até mesmo a zona boêmia". Nada. Quando o pintor surgiu na rua Santa Helena, a anfitriã, no sermão de recepção, deixou escapar uma pérola semântica: "Guignard! Você pintou comigo, hein!" O hóspede ajoelhou-se: "Perdão, minha senhora!", e a harmonia reestabeleceu-se entre os dois: a estada do pintor, prevista para três semanas, durou três meses, durante os quais Lisete teve as melhores aulas com Guignard. "Foi só durante esse período que aprendi uma lição fundamental com ele: a tinta é um produto químico e, por isso, a mistura de 3 cores é ruim para as telas", conta a pintora.
No Parque: um miserê danado
Quando se lembra da transferência da Escola Guignard para o atual prédio no bairro Mangabeiras, Lisete deixa escapar um suspiro de alívio, vendo a mudança como o ponto culminante de uma luta por melhores condições financeiras e estruturais, iniciada desde a fundação da Escola.
De acordo com ela, a precariedade das instalações da Escola no final dos anos 50 e durante os anos 60, então localizadas nas edificações incompletas do atual Palácio das Artes (iniciadas em 1944 e concluídas apenas em 1971), chegou a trazer vantagens para o corpo discente da instituição: "Os alunos que não tinham verdadeiro interesse, que estavam matando o tempo na escola, não duravam muito tempo por lá. O miserê era tanto que eles não aguentavam". Só os "obcecados pelo trabalho, para quem lápis, tinta e papel eram como um apêndice do corpo", conseguiam ficar e se formar na Guignard.
Humor para contornar o tal miserê não faltava. "A sala de esculturas, que ficava no sótão do prédio, viva inundada na época de chuva. Colocávamos tábuas por todos os lados, para poder pisar sobre as poças. E junto a elas sempre havia placas, que os alunos colocavam com os dizeres: proibido pescar", lembra Lisete. Além das placas, muitos dos alunos, no começo da aula, distribuíam sombrinhas para os presentes, "rindo, com a maior cara de pau do mundo".
Durante esses anos havia, segundo a pintora, uma atmosfera de alta flexibilidade criativa, sem maior rigidez burocrática, o que só depois, com a transformação da Escola em Fundação, passaria a estar presente no corpo docente da instituição. Afinal, não se pode imaginar, em ambientes burocratizados, uma professora que insiste em dar aulas de cerâmica para a faxineira da escola, a qual, em êxtase com a técnica ensinada, resolve parar de trabalhar para se dedicar à arte %u2013 Lisete o fez na Guignard e morre de rir ao se lembrar da dita servente, que transformou-se em aluna.
De fato, a Escola, projeto que surgiu com a passagem efervescente de Juscelino pela Prefeitura, não recebeu o mesmo entusiasmo por parte dos gestores subseqüentes. Lisete se lembra, por exemplo, de quando, no começo dos anos 60, foi ao prefeito Amintas de Barros, seu amigo e cortejante dos tempos de Automóvel Clube, para se queixar do matagal que crescia ao redor do "esqueleto" Palácio das Artes. "Era um mato enorme, onde uns e outros faziam lá suas necessidades %u2013 daí vinha um cheiro pavoroso!". Indignada, Lisete disse ao prefeito:
"Vim pedir pra você capinar a frente da Escola Guignard, nas instalações do Parque".
E ele: "Uai, mas vocês ainda estão lá?"
Alegando que havia um projeto de transferência da Escola, o prefeito não contou com a reação da então professora: "Olha bem pra mim com esses seus olhinhos de japonês e põe na cabeça que nós não iremos sair dali!"
O mato foi capinado. Mas as obras do Palácio das Artes, onde funcionava a escola, só foram concluídas dez anos depois, sob a gestão de Israel Pinheiro. Guignard já havia falecido oito anos antes e o Parque não mais o promissor epicentro artístico que havia sido quando o mestre de Nova Friburgo, após anos na Alemanha, chegou a Minas e implodiu o academicismo formal, defendido por Aníbal Matos, mostrando aos mineiros a força das vanguardas que há muito dominavam a Europa.
Lisete, nascida Heloísa Selmi Dei (o sobrenome germânico veio com o casamento e o prenome via invenção paterna: "Dizem que papai, nas suas andanças Brasil afora, deve ter conhecido uma francesinha, de nome Lisete, que o encantou profundamente. Passou, então, a me chamar assim %u2013 Lisete"), guarda o tempo ido com carinho, mas prefere pensar em seu trabalho. Conferindo ao corpo pequeno e já curvado pelo peso dos quase 91 anos frescor e agilidade espantosos, a artista, uma das poucas ainda vivas de sua geração, composta por vultos como Mário Silésio, Mary Vieira, Amílcar de Castro e Farnese de Andrade, sorri e se despede, elétrica e atarefada: "tenho que trabalhar!".