Palacete Borges da Costa: ontem e hoje - Pedro Moreira Gomide
Nesse ano, mais precisamente no dia 7 de setembro, recém-chegado do Rio de Janeiro, Eduardo Borges da Costa, médico carioca, passa sua primeira noite belo-horizontina na rua da Bahia. Não foi em seu casarão, ainda inexistente, mas sobre uma mesa de bilhar do Grande Hotel, a poucos metros do terreno onde, oito anos depois, iria começar a construir o solar.
Após dois anos de estudos na França e na Alemanha, o médico Borges da Costa havia retornado ao Rio de Janeiro, onde nasceu a 5 de fevereiro de 1880, decidido a montar consultório próprio. Não deu certo. A capital mineira, ainda incipiente, foi-lhe sugerida como o lugar ideal para começar sua carreira. Assim, após tomar o noturno Rio-BH, Borges da Costa chegou ao chão-de-ferro mineiro.
O 7 de setembro foi um feriado nacional marcado pela posse de João Pinheiro como Presidente do Estado de Minas Gerais. Belo Horizonte vibrava, recebendo visitantes de todo o Sudeste. Todos os hotéis estavam lotados. Borges da Costa foi descendo a Bahia, onde celebrava-se a vitória do novo governador, até parar no Grande Hotel, futuro Edificio Maletta. Lá, convenceu o porteiro a improvisar-lhe uma cama (a mesa de bilhar pareceu o local mais adequado).
No dia seguinte, apresentando-se ao Dr. Júlio da Veiga, Provedor da Santa Casa, sem quaisquer recomendações, o Dr. Eduardo iniciava, sem saber, um capítulo de fôlego na história da medicina mineira e pavimentava o caminho para a construção de uma das mais importantes residências da rua da Bahia.
Dando um salto no tempo, chegamos a outra data precisa: 17 de agosto de 1985. O palacete Borges da Costa, um dos últimos relicários arquitetônicos da rua da Bahia, repousa, imenso e solitário. Há 35 anos falecera seu idealizador, o já mineiro por adoção, Dr. Eduardo. Não muito longe do solar, na rua Carijós, 150, uma solenidade ocorre no sexto andar de um edifício. Lá localizava-se, então, a sede da Academia Mineira de Letras, onde Murilo Badaró está a tomar posse na cadeira 29.
Assistindo à cerimônia, Vivaldi Moreira, que assumira a presidência da AML dez anos antes, aguarda, ansioso, a conversa que marcara com Hélio Garcia, à época governador de Minas. É que Vivaldi, desde que tornara-se presidente, acalentava um sonho: conseguir nova sede para a Academia, ampla o suficiente para que todo o acervo da Casa de Alphonsus de Guimaraens fosse devidamente acomodado %u2013 e que oferecesse espaço para a construção de um grande auditório. Daí a espera sofrida para a conversa com o governador: Hélio Garcia havia simpatizado com a causa de Vivaldi, que andava namorando o casarão que hoje abriga a sede da Secretaria de Agricultura do Estado, próximo à rodoviária.
Terminada a posse de Badaró, Vivaldi e o governador discutem o futuro
da AML. "Na casa da rodoviária não pode, Vivaldi... Os acadêmicos não
podem ficar perto da putaria!" E apresentou uma
segunda sugestão: o
solar da família Borges da Costa. Um ano e meio após a conversa com o
governador, em fins de 1987, Vivaldi concretizou o sonho que perseguia
desde 1975, recebendo a doação do imóvel em regime de comodato.
O palacete, que desde 1984 não mais contava com a presença de Maria José Halfeld Borges da Costa, a D. Zezé, mulher do dr. Eduardo, falecida aos 90 anos, já era objeto de desejo de várias construtoras, doidas para ali erguer um prédio. Eduardo Filho, o segundo dos cinco herdeiros deixados pelo casal Borges da Costa, era contra a venda da casa, embora os irmãos a desejassem. A quantia oferecida pelo governo Garcia resolveu o impasse. Com a posse de Newton Cardoso, efetuou-se todo o pagamento do imóvel, que passou a pertencer à Academia Mineira de Letras, efetivamente, em 1990, dois anos após as obras realizadas no solar para a inauguração da nova sede.
Feitas as reformas, a casa que outrora abrigara o clã do Dr. Borges da Costa, testemunha de um generoso quinhão da história da rua da Bahia, transformou-se no baluarte das letras mineiras, dando continuidade a uma tradição iniciada a 25 de setembro de 1909, em Juiz de Fora, data em que um grupo de intelectuais mineiros, inspirados pela tradição francesa das academias de letras, fundou a versão mineira da instituição.
Construção e tempos áureos
O casarão sempre foi uma singularidade arquitetônica na rua da Bahia. José Bento Teixeira Salles lembra que muitos dos sobrados da rua ficavam logo acima da avenida Afonso Pena, tendo, muitos deles, lojas em seus pisos inferiores. Eduardo Borges da Costa fez questão que o palacete abrigasse apenas a residência da família. Beatriz Borges Martins, única filha ainda viva do velho Eduardo, conta, com a lucidez de seus 94 anos, que o solar era uma "verdadeira fortaleza".
Antes de se casar, enquanto ainda flertava com D. Zezé, no viço de seus 14 anos, Eduardo Borges da Costa morou na rua da Bahia, onde alugou a casa de número 1.433. Após o casamento em 1908, o médico e sua esposa mudaram-se para a casa dos sogros, onde nasceram seus cinco filhos. A casa dos Halfeld ocupava o terreno onde hoje encontra-se o auditório da AML (segundo capítulo da luta de Vivaldi, iniciado logo após a mudança para o palacete) e tinha o número 1478.
A essa época, o Dr. Eduardo já ministrava suas aulas na Faculdade de Medicina, erguida em 1911 na Av. Paraopeba (hoje Alfredo Balena, homenageando um dos grandes que impulsionaram a instituição). Em 1914, aproveitou o lote ao lado da casa dos sogros para lá construir o que hoje é o amplo subsolo do palacete. Batizado com o nome "Pavilhão", Borges da Costa montou seu consultório particular. A filha Beatriz lembra que, nas três salas que compunham o local %u2013 a átrio onde a secretária recebia os pacientes, a sala de espera e a de consulta %u2013 reinava a mais meticulosa higiene. Tudo era devidamente esterilizado, pois Borges da Costa não só exercia a clínica, como também chegou a realizar pequenas operações no espaço onde hoje diversas prateleiras abrigam os cerca de 30 mil volumes do acervo doado à AML por Vivaldi Moreira.
O "Pavilhão" já fora erguido com o intuito de funcionar, futuramente, como alicerce para uma edificação maior. Em 1919, iniciou-se a construção da casa. Borges da Costa retornou de Paris, onde esteve com a Missão Médica Militar Brasileira, enviada à França para ajudar na luta contra os alemães. A missão, composta por médicos de Minas, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul, foi idéia do Prof. George Dumas, que então sugeriu a ida de profissionais da sáude para a terra gaulesa, minada pelos ataques germânicos. Partindo em julho de 1918, Borges da Costa quase morreu no navio, vítima da gripe espanhola. Conta Beatriz só não foi jogado ao mar, obedecendo ao costume da época, porque ostentava a patente de oficial superior. Assim, foi levado a Oran, na costa africana, onde recuperou-se a tempo de poder ir à França exercer seu ofício. Terminada a missão, Borges da Costa, já pensando em construir sua fortaleza na rua da Bahia, trouxe um armário e uma cama bretões, que depois ocuparam um dos 44 cômodos do palacete.
De volta a Belo Horizonte, o médico pediu ao arquiteto Luiz Signorelli que traçasse os contornos de sua futura moradia, recomendando que o estilo seguisse o da casa dos sogros. Signorelli, de fato, obedeceu aos traços ecléticos da casa dos Halfeld, mas não à sua dimensão: tão grande era a casa e tão árdua a empreitada, que ela só foi concluída dez anos depois, em 1929.
O canteiro de obras era uma saudável fuzarca étnica: dois italianos, o Sr. Muchiutti e o Sr. Mario Bima, trabalharam todas as partes de madeira da casa; já os estuques dos tetos foram feitos por dois artesãos que o dono da residência manda buscar em Portugal e, supervionando tudo, Antônio Mias, o mestre-de-obras mineiro.
Terminada a obra, o baile de inauguração da casa ("festa de arromba", segundo D. Beatriz) foi marcado por um jogo de cotillons: D. Zezé preparou faixas sobre as quais lia-se nomes de figuras que compuseram pares legendários na história e na literatura, como Beatriz e Dante, Sansão e Dalila, Tristão e Isolda etc. Homens e mulheres, em salões separados, recebiam uma faixa. Quando as portas se abriam e os convidados se misturavam, cada um procurava por seu par %u2013 quem não tivesse certo conhecimento geral via-se em maus lençóis, pois D. Beatriz conta que a música só começava quando todos tivessem achado seus pares...
Até o início de
seu ocaso, o solar dos Borges da Costa brindou os morades com bailes
anuais e festas juninas recheadas de suculentas precisiodades
gastronômicas preparadas por D. Zezé e sua mãe, versadas na arte dos
doces: pastéis de nata, canudinhos recheados com doce de leite,
toucinhos do céu e docinhos de amêndoas eram algumas das iguarias.
As festas, extremamente disputadas pela elite mineira da capital,
contemplava preferencialmente os alunos da Faculdade de Medicina e
amigos da família. D. Beatriz conta que, diante do casarão,
deslumbrados com a pompa dos arranjos e com o inebriante repertório
culinário da família, alguns jovens ficavam a contemplar o festão. Era
a "Turma do Sereno", que ficava no passeio, mandando, de quando em
quando, bilhetes à D. Zezé contendo um ou outro pedido gastronômico,
atendido carinhosamente pela anfitriã, que brindava o grupo com doces e
salgados. Os rapazes, dentre os quais encontrava-se o escritor Cyro dos
Anjos, devolviam os pratos e copos com o indefectível bilhete: "A Turma
do Sereno agradece".
A festa do anexo
Sem a "Turma do Sereno", as festas ainda acontecem no palacete Borges da Costa. Melhor dizendo, no auditório Vivaldi Moreira, cuja construção foi concluída em 1994. A edificação, um diálogo das sinuosas linhas de Gustavo Penna, a um tempo sóbrias e modernas, com o casarão eclético de Signorelli, foi erguida no terreno onde ficava a casa dos Halfeld. Abandonada após a morte de D. Zezé, mendigos a invadiram, o que levou à sua demolição em meados da década de 1980.
Já em 1988, inaugurado o recém-reformado casarão, Vivaldi Moreira sentia a necessidade de conseguir um auditório para a Academia. Enquanto reformava o solar dos Borges da Costa, aproveitando a verba concedida pelo governo Sarney, ocupando-se com pintura, sinteco, fiações elétricas e compra de móveis, Vivaldi já pensava em materializar o anexo da AML. Tem-se aí o início de sua segunda batalha, verdadeira peregrinação por residências de políticos e empresários, a quem o presidente pedia subsídios para a realização de seu segundo sonho. Portas e mais portas lhe foram fechadas. Mas ele, como costumava dizer aos filhos e netos, estava disposto a "calçar a cara" e construir o anexo. As dificuldades, porém, eram várias. Parte da renda destinada ao auditório havia sido confiscada durante o governo Collor. Conta-se que Vivaldi, ao ver a ministra Zélia Cardoso em alguma solenidade, disse-lhe, sem a contenção que lhe era habitual: "Quero meu dinheiro de volta!". A interpelação não teve muito efeito. A sorte do presidente foi a queda de Collor e a ascensão de Itamar Franco, com quem mantinha boas relações. Vivaldi foi então ao novo chefe de Estado pedir-lhe a verba para terminar a obra, iniciada em 5 de março de 1991, com o lançamento da pedra fundamental do auditório. Entre os dois estabeleceu-se uma mineira cumplicidade: Itamar atendeu a Vivaldi, e o auditório, complementando o casarão ao seu lado, foi inaugurado em 30 de maio de 1994 com a sua presença.
Foi uma noite gloriosa para o presidente da AML. Toda o séquito que acompanhava o Presidente da República invadiu a rua da Bahia. Homens de terno preto e pequenos fones no ouvido, tal como nos filmes norte-americanos. Os convidados recebiam adesivos com as cores vermelhas e verdes. Quem ostentasse o verde tinha acesso ao palacete, onde um jantar de gala precedeu o corte da fita inaugural diante do auditório. Os outros, com o adesivo vermelho, amontoavam-se diante da varanda bifurcada, ansiando, talvez, por uma aparição do Presidente.
Mas a festa não foi inteiramente reservada ao poder político-intelectual mineiro. Conta o caseiro Dão, funcionário da AML desde 1988, quando passou a residir no casarão onde até hoje é zelador, que, após a partida da pomposa caravana presidencial, a festança democratizou-se: os penetras e párias resignados, como a %u201CTurma do Sereno%u201C, em ficar no passeio da rua da Bahia, puderam entrar no auditório ao fim da festa e, dando final rabelaisiano à solenidade, taçaram os comes e bebes restantes com grande alegria.
O anexo, considerado a grande conquista de Vivaldi para a AML, é hoje a principal fonte de renda da instituição. Sem se restringir às solenidades acadêmicas, ele é palco de festividades diversas, que compreendem desde austeros lançamentos literários até festas de casamento e de 15 anos.
Entre cerimônias e farras, a vida segue no belo solar: ontem, fortaleza da feliz família Borges da Costa e palco de notáveis episódios da medicina e cultura mineiras; hoje, porto-seguro da tradição acadêmica montanhesa, onde, entre altos e baixos, luta contra o ostracismo e o fim do culto ao beletrismo, na rua da Bahia, n° 1466.
Livraria Itatiaia: do Dantês à Bahia - Pedro Moreira Gomides
Quem visita o editor Pedro Paulo Moreira geralmente o encontra em seu refúgio predileto, no décimo-sexto andar do Château de Villandry, um belo edifício de mármore grafitado, cravado no seio do bairro Belvedere. No escritório de Pedro Paulo, relativamente pequeno, estantes de mogno recobrem todas as paredes, ostentando alguns dos mais louvados esforços editoriais da Itatiaia: os dois volumes de Gargântua e Pantagruel, a edição fác-símile da Divina Comédia e o tomo encadernado das Fábulas de La Fontaine. Todos ocupam posição privilegiada no altar do editor. Da janela do escritório, vê-se a Lagoa Seca do bairro, principal referência de uma região que, há quinze anos, ainda era um pequeno deserto belo-horizontino, cujo oásis era composto por casas luxuosas situadas entre os pés da Serra do Curral, a BR-040 e o BH Shopping. Na mesma época em que o fenômeno imobiliário começava a invadir o Belvedere, falecia Edison Moreira %u2013 poeta, irmão e sócio de Pedro Paulo %u2013 e a rua da Bahia via o fim da Livraria Itatiaia. Ia-se mais um estabelecimento que iluminou a vida cultural da cidade nas décadas de 60 e 70.
Pedro Paulo, após passar pela Livraria Cultura e pela José Olympio nas décadas de 40 e 50, resolveu aceitar o conselho de D. Tita, sua mãe: "antes ser cabeça de alfinete que rabo de elefante". E assim, em 1953, juntamente com Edison, fundou a Editora Itatiaia e sua livraria, que ocupava, à época, um espaço na galeria do Edifício Dantês, na avenida Amazonas, próximo à Praça Sete. O nome, confessa Pedro Paulo, é "fruto da minha ignorância, pois pensava que o pico da Itatiaia estivesse do lado mineiro, mas já está na parte fluminense". Depois da descoberta, o nome já era conhecido e mudá-lo iria de encontro ao seu tirocínio comercial. Segundo ele, ninguém acreditava muito no empreendimento. Vivaldi vivia dizendo: "Que isso, Pedro Paulo! Quer ser o próximo Zé Olympio?" Mal imaginava o irmão mais velho que estaria a freqüentar, dez anos depois, a livraria da rua da Bahia, epicentro belo-horizontino do fervor intelectual mineiro.
A história da Livraria Itatiaia liga-se à rua da Bahia graças a uma outra história: a do romance Doutor Jivago, do russo Boris Pasternak. O livro, que começou a ser escrito entre 1910 e 1920, foi concluído apenas em 1956, dois anos após os irmãos Moreira, Com a sua publicação impedida pelo governo soviético, Doutor Jivago cruzou sorrateiramente as fronteiras da Cortina de Ferro para ser publicado na Itália, em 1957. Um ano depois, Oscar Mendes, um dos intelectuais que então compunham o time de tradutores da Itatiaia, teve acesso à edição francesa do Jivago, cedida a ele por Marie-Louise Bataille, uma das agentes literárias francesas que è época abasteciam Edison e Pedro Paulo. O tradutor leu e disse aos Moreira: "Achei muito interessante! Se quiserem publicar, traduzo com gosto!"
Milton Amado e Heitor Martins juntaram-se a Oscar Mendes e a tarefa tradutória começou. Foi quando Pasternak recebeu o prêmio Nobel da Academia Sueca. O evento por si só já alavanca as vendas de qualquer livro, mas, neste caso, o episódio ganha dimensão ainda maior com a recusa de Pasternak em receber a láurea %u2013 a saída da União Soviética poderia implicar a perda de sua cidadania, o que o escritor preferiu evitar, declinando do convite para ir à Suécia. Pedro Paulo logo entendeu a importância da publicação de uma edição em português. Com o rebuliço em torno do Jivago, a Itatiaia recebeu 50 mil pedidos adiantados. Pedro Paulo, que então estabelecera uma tiragem de 75 mil, achou por bem dobrá-la: "Era uma loucura! À medida que as traduções iam ficando prontas, colocava-as num avião que aluguei e corria para São Paulo, onde as impressões eram feitas", conta o editor. Na noite de lançamento, ele chegou em cima da hora, trazendo, no avião, cerca de 20 mil volumes: a última leva.
Leny Moreira, mulher de Pedro Paulo, lembra que a noite de lançamento foi "um negócio de doido": "Era tanta gente na porta da livraria, que precisamos chamar a polícia. Fizeram um cordão de isolamento, organizando a fila enorme que entrava livraria adentro". Cada exemplar do romance de Pasternak custava 250 cruzeiros. Pedro Paulo estima a venda de inacreditáveis 10 mil exemplares em uma só noite. Além da venda dos livros, a Itatiaia contou com a publicação do romance em formato folhetinesco nos jornais Última Hora e Estado de São Paulo. Nas idas à capital paulista para imprimir o livro, Pedro Paulo conheceu Samuel Wainer, que encantou-se com o livro; e o editor ainda encontrava tempo para dançar com Danuza Leão, mulher do jornalista, vestida provocantemente de vermelho, "espalhando brasa" pelos salões paulistanos.
Com os ganhos que o Doutor Jivago trouxe, a mudança para um espaço maior, na rua da Bahia, não tardou. No fim de 1958, Pedro Paulo celebrou o feliz transcorrer do ano, dedicando um volume do romance russo a Leny. No frontispício, lê-se: "Para Leny, mais uma vitória nossa. Bhte, Natal de 1958". Já em 1960, os irmãos Moreira adquiriram a propriedade que abrigaria a Livraria Itatiaia em seus áureos tempos. O número 916 foi o escolhido. Lá funcionava, antes da livraria erguer seu império, a segunda versão do famoso Café Estrela, freqüentado pela elite intelectual brasileira dos anos 1920 e 30 e que fechou as portas no começo dos anos 50. Ficava ao lado do bar Nova Elite %u2013 o qual, posteriormente, também foi adquirido pelos Moreira. Pedro Paulo conta que adquiriram o bar ainda em funcionamento e tiveram que esperar até que todo os estoque gastronômico e etílico do local fosse consumido pela boêmia belo-horizontina para que pudessem dar início às obras de reforma. Além do Nova Elite e do segundo Estrela, todos pertencentes ao edifício que se erguia sobre eles, o Parc Royal, havia a Casa da Lente, do Barão Herrmann von Thiesenhausen. O fato é que este também caiu na pitimba financeira %u2013 e os Moreira, com lucros gordos do Doutor Jivago, assumiram as dívidas do alemão e acabaram comprando o espaço da sua falida loja de aparalhos óticos, ampliando, assim, os domínios da Itatiaia.
Em seguida, o segundo andar do Parc Royal também passou a pertencer aos Moreira, que depois compraram todo o edifício. Lá instalou-se o poeta Edison, motor intelectual e social da livraria. "Naquela irreverência dele, o Edison nunca quis trabalhar", conta o irmão e sócio. Este, preocupado com as vadiagens boêmias do poeta, convocou reunião moreiriana emergencial. Edison já estava instalado no Parc Royal e a livraria florescia na rua da Bahia. Foi lá que Vivaldi, o Moreira mais velho, e Pedro Paulo reuniram-se com o poeta, a fim de ver se ele "tomava vegonha na cara" e assumia suas obrigações na livraria com mais zelo. Conta-se que Edison, irritado com as cobranças, soltou: "Como é que posso trabalhar? Eu sou um pássaro! Feito para voar! Não tenho tempo para essas coisas de trabalho!" Estando a janela do escritório aberta, Edison ameaçou saltar. Vivaldi, preocupado: "Que isso, Edison, larga de besteira, sô!" Mas ele insistia: "Saí da frente, Vivaldi! Não tá vendo que eu quero voar?" Pedro Paulo provocava: "Deixa, Vivaldi! Deixa o bobo se espatifar lá embaixo!". O poeta, delirante, gritava: "Eu vou pular! Eu vou voar!" Quando tomou impulso, a porta do escritório abriu-se e Jacinta de Oliveira Moreira, a D. Tita, mãe dos moleques, chega para por ordem na casa. Edison não pulou, mas tampouco integrou-se ao regime laboral que lhe impunham.
Enquanto Pedro Paulo geria os negócios da livraria, Edison dava-lhe o sopro de vida necessário para fazer com que lá se reunisse a nata da inteligência mineira. E o fazia de maneira sempre irreverente. Contam Pedro Paulo e a mulher Leny que Ênio Silveira, fundador da editora Civilização Brasileira, teve a idéia de lançar o livro Israel: prós e contras, de Antônio da Silva Melo, na fervilhante Itatiaia da rua da Bahia. Estávamos em 1962. Edison e Pedro Paulo preparam uma bela noite de lançamento. Ao fim da festa, já famintos, os irmãos Moreira, Silva Melo e Ênio Silveira decidem ir jantar no restaurante Tavares, que provia a classe-média belo-horizontina de então com carnes exóticas. Sentado à mesa, desgustando as carnes de caça que o local oferecia e encantado com a atmosfera daquela Belo Horizonte em que faiscava cultura, Silva Melo ajeita-se na poltrona, suspira e sussurra: "Ah! Estou me sentindo como se estivesse em Paris!" Edison, que estava ao seu lado, contempla as longas costeletas que ele ostentava, vira-se de súbito para elas e lhes dá um puxão repentino com os dedos, gargalhando alucinantemente: "Pois agora não tá em Paris coisa nenhuma! Tá em BH mesmo!"
Levando a vida na flauta, mas sempre garantindo o público da Itatiaia, Edison conseguia conciliar facetas para muitos inconciliáveis. Peguemos uma tarde na rua da Bahia. Na Itatiaia, Milton Campos, sentado na poltrona que lhe era reservada, mantém conversa animada sobre literatura com Edison. De repente, uma das irmãs Moreira, a Neta, chega à livraria, acompanhada de séquito feminino glorioso. Edison vê a trupe sedutora da irmã e, indo cumprimentá-las, com o sorriso terno, pára, pensativo, e solta: "Ô Neta, mas que cheiro de boceta danado, sô!" Engana-se quem pensa que Edison fazia-se malquisto com essas doideiras. Pedro Paulo e Leny relembram episódio que comprova o estranho magnetismo exercido pelo poeta. Era 1961 e a livraria mal estava instalada no n° 916 da rua da Bahia. A pompa da inauguração, onde estiveram o governador Magalhães Pinto, o prefeito Aminthas de Barros e o senador Milton Campos, ainda ecoava na rua. Certa manhã, a livraria ainda vazia, uma jovem cliente entra em busca de um livro. Não encontrando ninguém no balcão, ouve um murmúrio nos fundos da loja, para lá das últimas prateleiras. Aproximando-se, distingue o jingle de um remédio da época: "Tome Patoviz e você será feliz! Tome Patoviz e você será feliz...!" Edison, quando cismava com uma palavra, uma modinha, uma expressão que fosse, a repetia à exaustão. A moça vê um senhor desempacotando livros, agachado ao chão: "Meu senhor, eu estava procurando livro tal..." Inabalável, Edison continuava a cantar o jingle, baixinho. "Meu senhor, por favor..." Nada. Aproximando-se mais ainda, a moça quase cai dura no chão. O poeta vira-se com agilidade sobrenatural e canta, qual um doido, agora em alto e bom som: "Tome Patoviz e você será feliz! Tome Patoviz e você será feliz...!" Assustada, a senhorita corre até o balcão. Pedro Paulo, chegando à loja, não entende a face lívida da moça. "Que foi, minha filha?" Ofegante, ela responde: "Uai, tem um doido ali, no fundo..." Rindo, Edison foi até ela, deliciado com a pilhéria, acalmou-a e a orientou em sua compra. Dias depois, a mesma moça, tendo encontrado Pedro Paulo e outro funcionário na loja, perguntou: "O senhor Edison ainda não chegou?"
A vida na Itatiaia era assim, misturada: de dia, Pedro Paulo e a mulher, Leny, bolavam as inteligentes jogadas editoriais que construíram o nome da editora, a qual, por sua vez, bancava a livraria. O público belo-horizontino que quisesse ler E o vento levou, corria à Itatiaia, pois foi Pedro Paulo que arrebatou a chance de publicá-lo. A José Olympio, desdenhando o livro, recusou-o. Mas um relançamento da famosa adaptação cinematográfica de 1939 reacendeu a fama do romance e as vendas na Itatiaia foram fantásticas. Pouco depois, Pedro Paulo descobriu o autor chinês Lyn Yutang. As vendas do livro Uma família do bairro chinês foram de tamanha magnitude, que o próprio Yutang veio a Belo Horizonte para uma noite de autógrafos, que terminou numa festa orgíaca no andar de cima, ou seja, na casa do Edison. Tais festas, nas palavras de Pedro Paulo, "eram verdadeiros bacanais!" E, segundo ele, ninguém estava imune à magia que lá ocorria. Nem o chinês saiu incólume, tendo dançado e bebido à brasileira no segundo andar do Parc Royal.
O próprio Vivaldi Moreira, irmão mais velho e vetusta reserva moral da irmandade moreiriana, revelava-se totalmente báquico nas festas do Edison, onde histórias as mais inusitadas eram narradas e revelações bombásticas surgiam. Foi, por exemplo, em uma das farras na sobreloja da livraria que o acadêmico Moacyr Andrade denunciou certa falta de criatividade por parte de Eduardo Frieiro, cujo Cabo das Tormentas estava na boca da intelectualidade mineira do início dos 1960: "Frieiro não tem imaginação nenhuma! Eu contava as histórias para ele, que ia correndo pra casa a fim de anotá-las antes que se esquecesse de tudo!"
Embora se dedicasse mais às orgias que à administração da livraria, chefiada quase que exclusivamente por Pedro Paulo e Leny, Edison protagonizava loucuras que também resultavam em êxitos empresariais. Foi assim com o romance O anel de Vanda, do cônego Bueno Siqueira, então ocupante da cadeira 11 da Academia Mineira de Letras. Diz-se que Siqueira chegou ao Edison, pedindo indiretamente uma força para a publicação de seu modesto romance. Empolgado, Edison logo apoiou o cônego e bancou uma impressão de dez mil exemplares. Pedro Paulo, furioso, interpelou o irmão: "Dez mil, Edison?! Dez mil?" Surpreendentemente, o romance foi um sucesso, pedindo logo uma segunda edição. Pedro Paulo conta que todo bom editor "deve ter a volúpia de um jogador, somada à paciência de um buscador". Ao Edison, faltava paciência, mas abundava volúpia...
Os tempos eram tão prósperos na rua da Bahia, que Otto Lara Resende chegou, certo dia, até os dois irmãos Moreira e disse: "Gente, vocês têm que ir para o Rio!". Mas Pedro Paulo prendia-se à uma máxima: "Palmeira de manga não vive na praia de Copacabana". A rua da Bahia era o lar inconteste da Itatiaia. Além disso, a editora já contava com uma pequena sede na capital carioca. Quando soube que a viúva do editor Garnier, francês radicado no Rio, estava vendendo o acervo do marido, Pedro Paulo deixou a livraria nas mãos doidas do Edison e foi sondar os títulos que estavam à venda. A viúva estava prestes a livrar-se da incômoda papelada, quando o editor da Itatiaia foi à sua casa e, remexendo nas sacolas velhas do porão da casa, encontrou originais do último livro de José Veríssimo e e outros tantos de Machado de Assis. Selada a venda, a viúva Garnier disse: "Pois é, Pedro Paulo, bom que você veio de Belo Horizonte. Um parente meu de Itaguara estava prestes a vir para jogar esse lixo fora".
Voltando à rua da Bahia, Pedro Paulo encontrou-se com Edison e Oscar Mendes. O tema era o livro Lolita, de Vladimir Nabokov, que estava causando furor nos EUA e na Europa. Edison coçava-se: "Vamos deixar o Mendes traduzir, Pedro Paulo!" Mas Oscar Mendes, cauteloso, aconselhou os Moreira: "Vocês estão agora no auge, construindo essa freguesia formidável no coração da cidade... Não publiquem, vai manchar a imagem séria de vocês". Edison teve que contentar-se com o original em inglês; e Ênio Silveira, da Civilização Brasileira, não perdeu a chance. Os Moreira não ousaram perverter a harmonia do conservadorismo mineira que pairava pela rua da Bahia...
A partir da década de 80, com os problemas de saúde do irmão Edison e a transformação veloz da atmosfera da cidade - e da própria rua da Bahia - a livraria perdeu a efervescência das décadas anteriores. Pedro Paulo concentrou-se na editora, comandando a sua sede na Floresta. Edison mudou-se para uma chácara nos confins do bairro Nova Suíça, onde continuou com seu reinado de alegria e irreverência. Certo dia, após teimar em tomar banho de piscina num dia particularmente frio, o poeta, já há um tempo adoecido, assinou o fim de uma era, vindo a falecer no dia 29 de novembro de 1991.
"Não consigo voltar ao Parc Royal, à loja onde era a livraria, nem mesmp à rua da Bahia...", revela Pedro Paulo. Aos 81 anos, completados em setembro de 2000, sua rotina é bem distinta daquela dos tempos da livraria. Contempla idas à editora e longas horas de adoração às belas edições Itatiaia que ele guarda no alto da sua torre marmórea no alto do Château de Villandry, símbolo de uma outra Belo Horizonte.
