Estádio Independência
Amarelinho, o Tigre da Floresta e o Coelho Americano - Pedro Moreira Gomides e Rúbia Piancastelli
Sob o codinome Amarelinho, Waldyr Antônio Lellis coordena hoje a ACSEA - Associação Cultural e Social dos Ex-Atletas do América Futebol Clube -, mas sua história com o clube mineiro, com o estádio do Independencia e o antigo time Sete de Setembro datam de tempos repletos de fatos e pérolas futebolísticas.
Na região circunvizinha ao Estádio Raimundo Sampaio, o Independência, instalou-se, em 1896, o avô de Waldyr, fazendo parte da colônia italiana Américo Werneck que nascia no entorno da atual Avenida Silviano Brandão, na região leste de Belo Horizonte. Abrigando uma paisagem montanhosa, a região resguarda um vale: é lá que, aproveitando a existência do campo do Clube Sete de Setembro, foi construído o estádio do Independência. "A geografia facilitava a arquitetura", comenta, reflexivo, Amarelinho, que nasceu logo ao lado de onde hoje está o monumento desportivo. Amarelinho morou na Silviano Brandão até 1964, quando se casou, e lembra-se bem das obras de edificação do Estádio, iniciadas em 1948.
Oito anos após a inauguração do Independência, Amarelinho foi convocado para integrar a seleção juvenil mineira - à época, inexistia o Campeonato Brasileiro, os torneios eram interestaduais, disputados por seleções dos estados brasileiros. Quando foi convocado, Amarelinho jogava no saudoso Tigre da Floresta, o Clube Sete de Setembro.
Já então obscurecido pelos pesos pesados do futebol mineiro %u2013 América, Galo e Cruzeiro %u2013, o Sete não perdia o brilho, especialmente devido ao reconhecido, porém "ditatorial%u201C, presidente Raimundo Sampaio. Treinando no Independência, Amarelinho ligava o rádio e ouvia Sampaio, pomposo, já alertando: "Nem adianta querer jogadores do Sete na seleção juvenil. Não cedo mesmo!". Embora esbravejante, não perdia o humor irônico, sabedor de que raros eram os jogadores de seu clube convocados para as seleções. O próprio Amarelinho, contudo, foi uma exceção: acabou sendo chamado, tornando-se campeão do torneio interestadual juvenil em 1958. Esse mesmo torneio foi marcado por uma homenagem a João Havelange, que à época tomava posse na Confederação Brasileira de Desportos, vindo a ser seu presidente posteriormente, nos tempos em que a CBD passou a chamar-se Confederação Brasileira de Futebol.
O dinheiro do Clube Sete de Setembro era tão escasso que Raimundo Sampaio precisou da criatividade para formular um meio absolutamente natural de aparar o gramado do Independência, onde treinava o time. Comprou um saudável casal de carneiros, famosos por pastarem realizando deslocamentos proporcionais, o que gerava uma aragem simétrica e, sobretudo, barata. Amarelinho lembra que, durante os treinamentos, o prático casal de animais ficava amarrado a uma estaca, observando a movimentação dos jogadores. Talvez com certo ressentimento por serem forçados a ver a invasão de seu pasto por um bando de homens correndo atrás de uma bola, os carneirinhos não raro eram tomados por uma súbita fúria, dando cabeçadas nos jogadores que passassem perto de onde estavam. O próprio Amarelinho, moleque, fazia questão de ir provocar os pobres bichos, por pouco não levando uma pancada dos ressentidos aparadores da verde grama do Independência.
Amarelinho e as Excentricidades
Antes de contar algumas peculiaridades daquele tempo e daquela gente que faz parte da história do Estádio, abre-se um parêntenses para a origem de tal apelido tão simples e singular %u2013 Amarelinho. Eis que durante uma aula sobre as diversas etnias, um certo professor de geografia detalhava as principais características dos asiáticos. Waldyr, com a pele meio pardavasca e os olhos visivelmente puxados à maneira oriental, foi logo batizado "Amarelinho" pelos colegas. Embora belo-horizontino de ascendência italiana, tornou-se exemplar asiático na sala de aula.
Além de Amarelinho, outras personalidades pitorescas pipocavam por todas as classes que circulavam pelo Independência. Em seus tempos de Sete de Setembro, Amarelinho narra que não só encontrava carneiros no campo, como também deparava com garrafas de cachaças, velas escuras e frangos depenados rodeados de farofa: "Era o Juquita, nosso treinador, que fazia macumba todo santo dia em que o Sete ia jogar..." E funcionava? "Ah, se funcionasse ia ser uma beleza!". Pode ser que os trabalhos tenham dado certo para o próprio Juquita, que voltou a treinar o Sete de Setembro mais outras sete vezes.
Talvez a macumba tenha favorecido também o destino de um humilde goleiro do Pitangui, o Tupi. Foi em uma de suas temporadas à frente do Sete que Juquita, vendo o bom desempenho do goleiro nas preliminares de 1957 ao lado da seleção mineira juvenil, o chamou para auxiliar na preparação do seu time. "Tupi revelou-se", lembra Amarelinho. Além de bom auxiliar de preparação, "um sujeito de formidável sensibilidade e de uma ignorância verdadeiramente hilária."
Conta-se que Tupi, já atuando na preparação do time do Sete de Setembro, foi interrogado pelo repórter Dirceu Pereira (cuja fama de chato era tão grande que Dorival Knippel, o Yustrich, explosivo técnico do Sete de Setembro, certa vez meteu-lhe um soco na cara após encher-se da série de perguntas repetitivas): "Tupi, como é que anda a preparação do time?" E a resposta, impagável: "Ô Dirceu, o time tá bem, o time tá bem... Só tô precisando de um ponta que chuta com direita, esquerda e canhota!".
Amarelinho certa vez caminhava lentamente pelas arquibancadas do Independência, recém-saído de aplicações de gelo no vestiário, após sofrer lesão grave em uma partida. No campo, Tupi marcava as linhas limítrofes com cal, obedecendo ao costume da época. Ao ver o jogador machucado, insistiu: "Desce aqui, sô!" Após recusar o convite em vão, Amarelinho cede aos pedidos do preparador e vai até ele: "Ô Amarelim, tá sabendo da nova? Por conta dessas coisas de política aí, o jogo de domingo foi adiado pra sábado, acredita?"
O Independência, então "palco de todos os eventos esportivos de Minas Gerais", contava não só com o público oficial que presenciava o espetáculo das arquibancadas. Atrás da parte fechada do estádio, onde ergue-se o Morro da Pitimba, crivado de pequenas vilas, toma-se uma cachacinha ou uma loira gelada com vista exclusiva para o campo. Amarelinho nunca subiu ao morro, mas, jogando no campo, via de longe os espectadores "na pitimba", sem dinheiro para comprar ingresso, mas felizes, degustando uma cervejinha e a visão privilegiada do estádio.
Até hoje ele não perde um jogo do América, time que passou a integrar após o bem sucedido desempenho na seleção juvenil mineira do campeonato interestadual brasileiro de 1958. No Coelho, ficou até 63, quando desentendeu-se com o técnico Yustrich, o qual promovia, à época, uma limpeza de jogadores "intelectualizados" no América. Após sair do Coelho e com o avançar da idade, Amarelinho, que chegou a jogar no Esporte Clube Renascença, abandonou o futebol, mas não o Independência, e muito menos a relação carinhosa com dois dos times que lá imprimiram e ainda imprimem sua marca: o coelho americano e o tigre da floresta.
Torturas de um foca* em jogo do Independência - Rômulo Mendonça
"Eu estudava jornalismo na PUC. Dono de voz grave, ou de veludo, como diriam os locutores mais românticos, nunca demonstrei interesse pela fotografia, mas sim pelo rádio e televisão. Permaneci indiferente até que Marcelo Prates, professor de fotojornalismo da universidade (e atual editor de fotografia do jornal Hoje Em Dia), propô s aos alunos um sorteio: três duplas iriam ao Mineirão cobrir o clássico entre Atlético e Cruzeiro, e uma última faria América e Ponte Preta no Independência, partidas válidas pelo campeonato brasileiro de 2001.
Lançada a sorte, infelicidade. Como atleticano, não aceitei de pronto a idéia de não ver o time, que atravessava grande fase. "Isso é uma loucura, assistir à América e Ponte Preta", adverti. Sugeri ao meu parceiro que lutássemos pelo direito de ver o jogo, mas como o outro não se mostrou seduzido pela proposta, já que o pai havia prometido vê-lo atuar no Independência, lá fomos os dois focas para o gigante do Horto.
Seis de outubro de 2001. Um sábado. Era uma tarde de um calor desgraçado. Tanto foi, que apareci de bermudas e fui repreendido pela mocinha da federação. "Jornalistas têm que usar calça comprida", disse ela, "da próxima vez, por favor, venha de calça", sublinhou.
Superados os problemas estilísticos, nos postamos atrás do gol do estacionamento, munidos da câmera do laboratório de fotografia da universidade. E demos baita sorte: quase todos os gols saíram do outro lado. E também porque sobre nós, na área das cabines, estavam o técnico Lula Pereira, suspenso, ao lado da diretoria e de um garoto de dez ou onze anos, que xingava de minuto em minuto com sua voz histérica e trêmula.
Xingava pois o América era massacrado em campo. À saída do primeiro tempo, com o time da casa perdendo por 3 x 0, os jogadores seguiam para o vestiário quando notei que um repórter da Itatiaia, posto para escanteio e com seu microfone devidamente desligado devido à transmissão de Atlético e Cruzeiro, começou a esbravejar com os jogadores, "puta que pariu, esse time é ruim demais".
Embora no segundo tempo o América tenha esboçado reação com um gol de pênalti, logo a Ponte retomou as ações. Bola para lá, bola para cá, calor e palavrões da arquibancada. Eu acompanhava o clássico pelo rádio (que terminou 2 x 2), informando sempre o resultado ao Mirandinha, atacante do América, que fazia aquecimento atrás do gol.
Ao mesmo tempo, o outro foca se esmerava nas fotos, agachado, esticado no chão. Até que, em cena que me lembro de forma distinta, parou, pensativamente, e foi mexendo na câmera, mexendo, mexendo, até que um pedaço da máquina terminou em uma de suas mãos. Ele havia a quebrado.
Desolação, nem tanto pelo América, que foi derrotado por 4 x 1, mas pelo trabalho perdido e pelo clima na saída do estádio, onde um pequeno grupo de torcedores protestava contra a diretoria, observado por uns poucos policiais; uma vontade latente de tumulto, mas que ali não se concretizava, no fim de tarde modorrento, na ausência do pai do meu colega e na volta melancólica de ônibus até o centro, onde os torcedores vindos do Mineirão aportavam coloridos de clássico%u201D.
* jornalista novato
Futebol, Superstição e Cachaça - Rúbia Piancastelli
Por volta de 1950, quando se aproximava o 4º Mundial de Seleções patrocinado pela FIFA, os belo-horizontinhos se agitaram para serem incluídos na festa, e a prefeitura do vigente prefeito, Otacílio Negrão de Lima, doou quase todo o orçamento necessário para erguer um estádio digno de sede do Mundial.
Após dois meses do início da construção, a parte de terraplanagem já estava pronta, e nas vésperas da Copa do Mundo o estádio foi concluído e finalmente aberto ao público em 25 de junho de 1950, quando Iugoslávia e Suíça se enfrentaram. Seja por se tratar de um palco de emocionantes partidas ou ainda pelos causos de toda ordem que o cercam, o Independência começou a colecionar histórias.
Quando o estádio ainda estava sendo construído, um dos muitos pedreiros envolvidos, após um almoço que consistiu de maciças doses de cachaça, resolveu, com o ânimo renovado pela embriaguez, retomar o trabalho. Tomou seu trator com alegria e, dirigindo em alta velocidade rumo a um barranco, conseguiu capotar o veículo, morrendo esmagado por ele. Episódios como esse marcaram as obras.
Embora outros dois jogos da Copa do Mundo tenham ocorrido no estádio (além do de 25 de junho, a goleada do Uruguai, futuro campeão, em cima da Bolívia), o confronto entre ingleses e norte-americanos é o mais relembrado. Os ingleses, por muitos já tidos como inquestionáveis vencedores da partida, tomaram de 1 a 0 - uma zebra inesperada da história do futebol. Um menino muito esperto e ex-jogador do América e Sete de Setembro, Waldyr Lellis, o Amarelinho, conta que já estava nos arredores do estádio enquanto os ianques ferravam os britânicos, tomando conta dos carros que paravam nos estacionamentos adjacentes: "Faturei 2.400 cruzeiros!"
Fenômenos bizarros, com matizes supersticiosos, também surgiam no estádio. Ao artilheiro cruzeirense Elmo, com futuro promissor, foi dito, após exame médico, que seu coração localizava-se no lado direito da caixa torácica. No Independência, a notícia ganhou magnitude cada vez maior. Em pouco tempo, ouvia-se dizer: "Pena que o Elmo não vai poder continuar a jogar, coitado. Descobriu que tem dois corações. É perigoso para ele!"
Todos os times em um estádio de emoções
Os tempos eram mais tranqüilos, confessa Amarelinho. Além do convívio relativamente harmonioso entre jogadores e carneiros aparadores de grama, os torcedores também se misturavam no estádio: uma interação que não resultava em pancadarias desenfreadas. Roberto de Castro Pereira, jogador americano do juvenil de 54, lembra que não havia divisões quaisquer entre as torcidas, tampouco havia grades que impedissem o acesso do torcedor ao campo. "Tinha-se, no máximo, um alambradozinho, feito com canos, colocado à beira do muro de três metros que separava a arquibancada do campo. Os torcedores sentavam-se em cima do muro, ficando as pernas para dentro do campo, balangando de acordo com o ritmo do jogo", diz Roberto.
As pernas balançavam com mais fervor no "clássico das multidões" de então: Atlético Mineiro X América. O Independência recebia tanta gente que mal havia lugar para assistir ao espetáculo: "Era aí que os torcedores, vendo um lugar vazio bem lá na frente e sem ter como chegar até ele, pediam aos outros, fossem americanos, atleticanos ou cruzeirenses, para que fossem os carregando até o destino desocupado". Tal como as enormes bandeiras desdobradas pelas torcidas organizadas, os torcedores eram conduzidos pelos demais, num ritual harmônico hoje impensável.
Se Galo e América eram os grandes protagonistas, "o Cruzeiro", lembra Amarelinho, "era a terceira força". E fosse para falar de uma quarta força, lá vinha o Sete de Setembro, sem perder a pose, defendida fervorosamente pelo treinador à frente do time no final da década de 1950, o implacável Dorival Knippel, mais conhecido como Yustrich, devido à sua semelhança com o Juan Elias Yustrich, goleiro argentino do Boca Juniors. Bastava ele pisar no campo do Independência para que a torcida, insandecida, começasse a gritar: "ô Zé Mingau! " Amarelinho conta que o apelido devia-se a um religioso hábito de Yustrich: alimentar seus jogadores, toda manhã, com um mingau mágico por ele preparado.
No Independência daqueles anos a atmosfera, embora amena, não deixava de contar com seus lances mais apimentados. Certa vez, em fins de 1958, o goleiro Jardel, o Cavaleiro Negro do América, dividindo a bola com o zagueiro Luizinho, do Atlético, levou deste uma joelhada tão violenta que teve o intestino perfurado. Ao que parece, o próprio Luizinho não tinha noção da sua força colossal. Recebendo um passe praticamente fadado ao sucesso, o zagueiro teve a infelicidade de atingir a trave. Ainda assim, tratou-se de um lance digno de atenção: a bola ricocheteiou com tamanho impacto que voltou até o meio de campo. Comentando o lance, o hercúleo Luizinho solta: "Uai, eu nem achei que foi forte assim. Meu pé tá machucado, nem tô sentindo ele direito, sabe? Um botijão de gás caiu nele ontem..."
Infelizmente, nem todas as figuras que conferiam ao Independência seu singular sopro de vida tinham a fantástica resistência física do zagueiro Luizinho. Walter Javali, outro dos expoentes da talentosa safra que iluminou o Sete de Setembro na década de 50, virou funcionário do clube após encerrar a carreira futebolística. Contratado por Raimundo Sampaio, exercia diversas funções dentro do Independência. Certa feita, consertando um dos refletores em dia de jogo, foi vítima de um choque tão brutal que arrancou-lhe um braço, impossibilitando o sonho de permanecer trabalhando no campo que antes tão calorosamente o acolhera.
A momentos trágicos contrapunham-se episódios de total peraltice. Roberto lembra-se do jogador Ubaldo Miranda, também conhecido como Miquica, talento explosivo do Atlético no início dos anos 60. À época, nem todos os jogadores dedicavam-se exclusivamente ao futebol. E o espectro de atividades paralelas exercidas era variado. Amarelinho, por exemplo, era bancário. Muitos estudavam, eram funcionários públicos ou até liberais. Já Ubaldo vendia lingüíça no quintal de sua casa. Mas a paixão pela bola era coisa tão visceral que ele, vez ou outra, interceptando uma pelada disputada na vizinhança, abandonava as lingüiças e entregava-se ao manejo da redonda. Quando voltava, eis que seu cachorro, notoriamente malandro, havia comido todo o estoque do dono. Para aliviar-se do estresse causado pelo cachorro, Ubaldo, em campo, não hesitava em fazer molequices com a bola, "garrincheando", como nos conta Amarelinho, com os adversários. A torcida atleticana vibrava, ao passo que a americana rezava para que um dos seus pusesse fim às safadezas do Ubaldo, dono de um talento sobrenatural para fazer "gols espíritas", como dizia o povo, pois às vezes não se tinha idéia de como ele jogava as bolas na rede. Foi quando Roberto, já cheio da peraltice do adversário atleticano, apelou para um carrinho fulminante, levando Ubaldo, bola, grama e a bandeirinha do corner para lá dos limites do campo. O árbitro Alberto da Gama Malcher, que viera do Rio para apitar a partida, enfurecido, deu um ultimato: "Na próxima, vai todo mundo pra rua: você, o Ubaldo, a bola e a bandeirinha também!" Ubaldo Miranda não saía do jogo, mas, terminada a partida, saía do estádio como artilheiro e, como conta Amarelinho, várias foram as vezes em que o Miquica, artilheiro do Campeonato Mineiro de 1958, era conduzido pela massa até a Praça Sete, louvado por seus gols verdadeiramente fantásticos.
Complicações fisiológicas reais foram as que acometeram o zagueiro americano Fernando Fantoni, também desfavorecido, na ocasião em questão, pela antiga regra futebolística: só era permitido ao técnico realizar mudanças na escalação até os 44 minutos do primeiro tempo. Depois, sem chance. O fato é que Fantoni, por volta dos 40 minutos de uma partida, sentiu estranhas reverberações no intestino. Obstinado, quis continuar jogando. Até que as revoluções gastrointestinais se tornaram tão fortes que ele, já suando frio, comunicou sucintamente ao juiz: "Vou ao banheiro". Após aliviar-se com extrema rapidez, doido para voltar ao campo, Fantoni corre para o gramado e é surpreendido pelo juiz: "Tá louco, camarada? Já temos 11 em campo". O técnico americano, ainda incompreendendo o súbito desaparecimento de um zagueiro, não hesitou em substituí-lo, tapando o buraco. E como Fantoni, já livre do mal que o atormentava, voltou aos 44 minutos, a regra o impediu de voltar a jogar.
O Sete e Meu Galo - Rúbia Piancastelli
Nascido no Bairro da Graça, nos idos de 1949, Euler Romão, engenheiro, pai de família e atleticano fervoroso, relembra os bons momentos vividos na Rua Jaspe e no campo do Sete de Setembro. A meninada na rua disputava não somente gols, mas refrescos Ki-Suco e um lugar na arquibancada do Sete, mais tarde o Estádio do Independência.
Junto ao tio, Walter Romão, filho mais novo da avó e matriarca de Euler %u2013 moradora da casa quase centenária da Rua Jaspe, no tradicional Bairro de Santa Tereza %u2013, o menino ia ao campo prestigiar o time do coração: Clube Atlético Mineiro. Junto ao América Mineiro e ao Villa Nova, o Atlético compunha o hall dos mais fortes times de Minas Gerais. %u201CEu me lembro do tio Walter dizendo que se passássemos o América, passaríamos qualquer outro clube%u201D, conta Euler.
Além da influência do tio Walter, Euler ainda contou com mais um atleticano de peso na família: tio Nelsinho, que era também partidário do Fluminense e do Corinthians. Com tanta paixão pelo futebol dentro de uma mesma família, Euler não poderia deixar de ser mais um fã. Foi assim que, desde os seis anos, freqüentou não somente o campo do Sete, mas também o bar do Chumba, estabelecimento de um grande amigo da família Romão e que ficava na esquina da Rua Jaspe com Salinas.
Sócio do Clube do Sete, tio Walter pagava dez cruzeiros para ter direito a ir a quatro jogos do time. Sempre acompanhando aquele que o iniciou na arte do futebol, Euler conta que, quando não ia ao estádio, via as luzes acesas e escutava com emoção a torcida vibrar. %u201CDo Bairro da Graça, onde eu morava com minha família antes de me mudar para a casa de Santa Tereza, ouvia os clássicos e o clarão dos refletores. Quando saía algum gol, aquilo era mágico, especialmente para nós, meninos.%u201D
Mesmo com as mudanças constantes de bairro e escola, Euler não deixava de ir ao campo, ainda que com menor freqüência. Ao mudar-se para a casa da Rua Jaspe e formar uma grande turma, Euler passou seus primeiros anos da juventude jogando em campos de várzea e pulando o muro do estádio para poder assistir às partidas junto aos amigos.
Tal pai tal filho
Álvaro Augusto de Moraes e o filho Anderson Augusto de Moraes não perdiam uma só partida no Sete %u2013 iam com o coração revestido pela admiração alvinegra assistir aos jogos do Atlético Mineiro. %u201CApesar de ser ainda muito novo e ter ficado com medo daquela multidão, eu me lembro bem do jogo do Santos, já com o Pelé, ao qual fui com meu pai%u201D, conta Anderson.
Nascido na década de 50, Anderson morava no Horto, junto à mãe, duas irmãs e dois irmãos. Morando perto da linha do trem, era corriqueiro ver as pessoas descendo próximas à estação para ir até o estádio, localizado entre as ruas Pitangui, Alexandre Tourinho, Ismênia Tunis e Marcionila Montijo.
Anderson e a família atleticana, assim como os torcedores que lotavam o Sete de Setembro em dia de clássicos, eram carregados para os assentos vazios, prática comum na época. %u201CApesar da divisão oficial que separava os torcedores do América, Atlético e Cruzeiro, não havia ainda as torcidas organizadas%u201D, conta Anderson, que sempre usou a entrada oposta à Rua Pitangui, onde se concentrava a torcida atleticana. Do outro lado da curva do estádio, próximo ao Morro da Pitimba, ficavam as cabines de rádio e as torcidas cruzeirense e americana, que algumas vezes se misturavam nas chamadas %u201Ccadeiras brancas%u201D.
Não apenas os jogos, mas as pessoas que faziam parte do universo do Independência, ficaram na memória de Anderson e seu irmão Fernando. Dr. Geraldo, como era conhecido o prático que atendia o time do Sete de Setembro, foi responsável pelos cuidados imediatos com as contusões dos jogadores e também dos meninos que jogavam bola nos muitos campos distribuídos pela capital. %u201CCerta vez o Fernando, meu irmão, machucou o pé e teve um hematoma sério. Foi o Dr. Geraldo quem fez a punção, tirando o sangue e realizando uma pequena cirurgia. Pouco tempo depois, também contundido em um jogo de bola, lesei o joelho e procurei o %u2018médico%u2019 famoso entre todos os garotos do bairro. Fui atendido, mas o Dr. Geraldo, reconhecendo um menino ainda novo, solicitou que eu retornasse com meu pai ou uma autorização do mesmo para que ele fizesse a intervenção. Apesar de não ter sido necessário voltar lá, o Dr. Geraldo ficou em nossas histórias, e com certeza também na memória coletiva de todos que faziam parte do Clube do Sete.%u201D
Figuras memoráveis era também o massagista e roupeiro %u201CValter Sem Braço%u201D, figura encontrada cotidianamente no estádio, na década de 50 e 60. Fora dos domínios do campo, outro homem tornou-se conhecido por seu longo chamado: %u201Cameeeeeeeeendoiiiiiiiim%u201D. Um senhor negro, alto, com um largo pescoço marcado pelo bócio, transitava entre Horto, Santa Tereza, Sagrada Família e também Bairro da Graça. %u201CTodo jogo ele estava lá, com seu amendoim nas latas em brasa e uma paçoca deliciosa. Andava coberto de preto e com um chapéu, transitando pelos bairros mais próximos%u201D, conta Anderson e sua mulher Heloisa Helena, que também se recorda da figura que ficava cercada de crianças.
Peripércias de Menino
Dentro do estádio, a torcida era animada, e as peripércias dos jovens contribuíam para a algazarra e até mesmo confusões entre torcedores. Anderson conta que, certa vez, impossibilitado de ir ao banheiro pelo medo de perder o lugar na arquibancada lotada, teve que se aliviar ali dentre os adultos %u2013 e dentre eles seu pai, Álvaro. %u201CEm poucos segundos era gente levantando da arquibancada para xingar e esbravejar!%u201D De família numerosa, Anderson lembra que os primos, somados mais de 30, compravam pentes de ovos para levar aos jogos, resultando numa grande molecagem com os espectadores que sentavam mais à frente na arquibancada.
Já a turma de Euler, os %u201CMeninos da Rua Jaspe%u201D, eram ases na arte de pular o muro que dava direto no banheiro do Independência. %u201CNós escalávamos o muro e descíamos direto no banheiro, já com as braguilhas abertas para evitar as suspeitas! Os seguranças, muitas vezes, faziam vista grossa; e nós, quase sempre, morríamos de medo de ser apanhados.%u201D
O universo do futebol era também emocionante fora do Estádio, nos jogos em campos de várzea, no sonho de se tornar um jogador profissional e nas brigas entre as %u201Cturmas de rua%u201D. Cada bairro tinha seu grupo e, dentro deles, as turmas de cada rua. %u201CUma das mais famosas era da Matias Barbosa e da Araripe, na Floresta e em Santa Tereza. Foram de lá que saíram Ronaldo %u2013 jogador do Atlético Mineiro e campeão em 71 - e seu irmão Ricardo. O time da Araripe rivalizava com o Chacaritas, e os jogos aconteciam quase sempre na quadra do SESC, palco de muitos campeonatos de futebol de salão%u201D, conta Euler, que jogava às terças ou quinta-feiras, no horário do time mais novo, às 17h.
A richa era assumida entre o pessoal do Bairro da Graça, Concórdia e Renascença e ainda entre os meninos do Prado, Barroca e Calafate. Em todos essas regiões encontravam-se quadras de futebol. Algumas resistem até os dias de hoje, como o Ferroviário e Tupinambás, no Horto, e o Pitangui, na Lagoinha. Memoráveis ainda o Campo do Botafogo, no alto da Rua Jurema, no Bairro da Graça; o Curtume Santa Helena, na Rua Jacuí, na Floresta; além das quadras da Cachoeirinha, Pedreira Prado Lopes, Colégio Batista, Gameleira, Pompéia, Caiçara, 1º de Maio e tantos outros.
Sem deixar a turma das meninas de fora, havia o Desfile da Primavera, também acontecido no Independência nas décadas de 50 e 60, do qual participavam escolas municipais, estaduais e particulares. Heloísa de Moraes lembra-se com carinho de seu colã azul, chapéu de sol e cestinho de flores, figurinho que vestiu seu pequeno corpo de apenas nove anos, representando o Colégio Madre Paulina. Além da ala das meninas coreógrafas, com suas fitas e arcos, se mostravam para o estádio repleto de pais orgulhosos e curiosos transeuntes, as balizas e fanfarras. A competição elegia todo ano a escola mais organizada e bonita, fazendo do campo do Sete de Setembro um espaço para todos os tipos de manifestação %u2013 seja ela cultural ou esportiva %u2013 e para o deleite de todas as idades, sejam crianças ou adultos.
A sombrinha de Dona Leni - José Emílio Moura
"Sou proprietário do bar Nova Direção, que fica em frente ao portão número dois do Estádio Independência. É costume passarem por ali torcedores, imprensa e o policiamento, antes e depois dos jogos. De muitos casos que vi e ouvi, lembro-me de um engraçado, que ficou na boca de todo mundo na época.
Era uma partida do campeonato brasileiro de 2003, Atlético e Paraná, o Galo precisando da vitória para se classificar para a Taça Libertadores da América. Conhecem a dona Leni, que entra com a molecada e organiza as pomponetes alvinegras? Pois bem, jogo terminado, 2 x 2, péssimo resultado, o juiz ia saindo, se não me engano era o Cleber Abade, e a polícia fez o cordão de isolamento, pois todo mundo estava revoltado, a diretoria querendo tomar satisfação, inclusive o ex-craque Éder Aleixo.
Mas o cordão firme e forte. Então a Dona Leni, quietinha na dela, usou de sua sombrinha (era um dia nublado de outubro) e deu uma cutucada, uma "xuxada" nas costas do árbitro. O capitão Fábio Lima , que coordenava a escolta, viu e falou com ela, não faz isso, não, que você me complica, minha senhora. Mas o juiz a identificou no bolo e falou com o capitão, "prende ela".
Algum tempo depois, o capitão rememorou esse caso no meu bar, achando graça, um fato inocente, a criançada até já havia ido embora, e ela com aquela sombrinha, imaginem se fosse o pessoal da diretoria. Ele contou que a dona Leni justificou que apenas queria chamar a atenção do árbitro. Claro, foi uma forma de tirar o dela da reta. Mesmo assim, o Galo perdeu o mando de campo por causa da sombrinha, pois o juiz relatou o caso na súmula do jogo".