Mercado Central
Corte o cabelo e ganhe um abacaxi - Rúbia Piancastelli
Dentre as muitas lendas existentes no Mercado Central, há uma em especial que ficou arraigada no imaginário popular, que até hoje ainda confabula a existência de uma promoção onde o freguês, ao cortar o cabelo, ganha um pedaço de abacaxi.
A confusão começou devido ao fato de que os primeiros salões de beleza existentes no Mercado ficavam junto à %u201CPraça do Abacaxi%u201D, onde se concentram os vendedores da suculenta fruta servida em pedaços ou inteira %u2013 de acordo com o gosto do freguês. A proximidade entre os dois negócios fazia com que os clientes dos salões acabassem com um pedaço de abacaxi nas mãos, gerando a suposição, reforçada pelos boatos internos e da mídia.
%u201CO pessoal ainda aparece perguntando se corto o cabelo e dou o abacaxi, mas isso nunca existiu no salão%u201D, conta Salvino Soares da Costa, cabeleireiro há 18 anos. Junto aos outros dois sócios do Opção Cabeleireiro, Davi e Noé, que também dominam as tesouras e barbeadores, Salvino conta que uma certa vez até topou cortar o cabelo de um homem que comia abacaxi durante o trabalho, uma cena um tanto incomum mas que causou frisson na televisão %u2013 responsável pela bizarra produção.
Trabalhando das 7h às 18h, diariamente, Salvino, Davi e Noé estão cercados de mais oito colegas, pois logo em frente ao Opção Cabeleireiro está o Salão Kimila, há 15 anos no Mercado. A entrada da Rua Goitacazes desemboca diretamente nos dois salões, trazendo um público diverso, cuja clientela se concentra especialmente na classe de baixa renda e elementos da maior idade. %u201CAqui tem de tudo, de classe A até as mais baixas, de delegado, juiz, jogadores de futebol a turistas%u201D, conta Hamilton Fernandes de Souza, que trabalha há mais de um ano no Kimila.
Oferecendo serviços de corte de cabelo, barba ou escova (os preços variam entre R$8 e R$10), os salões atendem, além de clientes esporádicos, a clientela fiel da casa, e dentre eles os próprios colegas do Mercado: Zé Maria, Ronaldo, Pelé, Toninho, o %u2018Serra do Cipó%u2019, Mané Doido (do bar homônimo), Coelho, o %u2018Lacraia%u2019, dentre muitos outros.
Casos de barbearia
Tião Galinha, João Cavalo, Jacaré, Chouriço, Jeguinho, Carlinhos... Apelidos brincalhões que muitas vezes causam risos pelos corredores e também brigas históricas entre os próprios comerciantes e entregadores no Mercado. %u201CO pessoal é muito amigo, aqui é festa o dia todo. O Mercado é como uma família para mim%u201D, conta Hamilton, que mora perto do local de trabalho e vem a pé, tranqüilamente, todo o dia (exceto segunda, quando folga). Trabalhando no mesmo local, o Salão Kimila, dividem tesouras, navalhas e cadeiras o evangélico Ronaldo (com sete anos de casa), o gerente Carlos (com mais de quatro anos), Geisa, José e Lúcia.
Salvino lembra-se do dia em que dois ex-colegas dos salões se %u201Catracaram%u201D pelos corredores, uma briga iniciada por um motivo desconhecido e possivelmente banal. %u201CFoi o confronto Mauro X Mauro, quando os dois saíram correndo para dentro do Mercado, um com um pedaço de pau na mão e o outro enfiando entre as bancas. Tinha até um segurança aqui para não ter confusão depois do expediente%u201D, conta Salvino, rodeado pelas risadas de boas lembranças do amigo Hamilton.
Para amenizar as eventuais desavenças, especialmente quando as piadas com os companheiros infernizam o humor de alguns, o universo dos salões do Mercado coleciona também histórias de amor! O próprio Salvino hoje tem ao seu lado a companheira Lúcia, colega de profissão. Há alguns anos atrás, Lúcia trabalhava exatamente do outro lado da Rua Goitacazes. Já conhecida pelos amigos do Mercado, ela e Salvino começaram o flerte que resultou em um novo emprego e uma nova relação a ser construída. %u201CHoje ela trabalha aqui na frente, e o nosso amor está %u2018bom é demais%u2019!%u201D, alegra-se o mais antigo barbeiro do Mercado.
Quanto aos clientes, é consenso que os mais difíceis de serem atendidos são os japoneses, segundo Hamilton e Salvino: %u201CEles geralmente trazem um retrato para falar como querem o corte, mas aquele cabelo liso é muito difícil, arrepia fácil, fácil!%u201D
Olha o abacaxi!
Loja do Jajá, Tião do Abacaxi e Frutas do Procópio são nomes conhecidos no Mercado Central. Trata-se de comerciantes antigos e detentores da escolha pelo sabor que caracteriza a suculenta fruta tropical, o abacaxi, que além de refrescante é tradição no Mercado.
Massa amarela, inteira ou em fatias, geladas a qualquer hora do dia. As variedades da fruta são expostas na banca de João Moraes, o Jajá, que há sessenta anos iniciou a atividade de comerciante do Mercado. %u201CO mais velho daqui sou eu%u201D, diz, categoricamente, contando que além da freguesia nacional os estrangeiros também compõem a clientela consumidora dos cerca de 150 abacaxis por dia. Jajá segue cedo para o CEASA, seu maior fornecedor, e, junto aos filhos, escolhe cuidadosamente as frutas: %u201Cse o abacaxi não estiver bom, eu não compro. É melhor ficar sem do que servir uma fruta ruim.%u201D Na banca há ainda pedaços de melancia e caixas apetitosas de morango, selecionadas pelo minucioso olhar de Jajá. Mas os olhos do comerciante brilham mesmo quando a sua primeira neta, Ana Carolina de Oliveira, chega à banca para visitar o avô.
Com alguns anos a menos de Mercado, mas ainda assim dono de um considerável histórico de vendas, Sebastião Procópio da Cruz, mais conhecido como Tião do Abacaxi, trabalha há mais de 40 anos na Praça do Abacaxi. Dono de mais uma banca que vende a fruta que ganhou homenagem no encruzamento do 1º piso do Mercado, Tião trabalha de segunda a segunda com parceiro Sandro. %u201CNossa venda é de cerca de 1000 abacaxis por semana, apesar de a concorrência aqui ser muito forte%u201D, conta Tião, que veio de Lagoa Santa, onde cultivava a fruta. João Moraes, representante comercial belo-horizontino, conta que é cliente fiel de Tião há 40 anos, desde o tempo que vinha com o pai passear no mercado e comprar abacaxi. %u201CHoje tenho três moças, que quando pequenas também me acompanhavam%u201D, conta João. Tião garante que seu prestígio se deve à qualidade da mercadoria vendida, uma vez que o pessoal é %u201Cextremamente exigente na hora do consumo.%u201D
Contrariando um hábito costumeiro nos negócios do mercado, Procópio, irmão de Tião, separou-se da família na hora de montar seu comércio. Dono da banca %u201CFrutas do Procópio%u201D há 53 anos, o vendedor conta que os fregueses são verdadeiros amigos, e, por isso, considera o Mercado a sua vida. %u201CDe janeiro a janeiro estou aqui, vendendo frutas e especialmente abacaxis, que são meu %u2018carro-chefe%u2019 de vendas. São cerca de 1.500 por semana, que vão para casa de clientes e também restaurantes na cidade%u201D, conta Procópio.
Para saber escolher um bom abacaxi na hora das compras, Procópio dá a dica: %u201CUma fruta de qualidade precisa ter 90% de massa amarela, sendo que para diferenciar os tipos de abacaxi, basta bater levemente, com a mão fechada, em sua casca. Se o som for agudo, é massa branca, se for um tom surdo, é amarela%u201D.
Mercado Plural - Rúbia Piancastelli
Frutas, fumos e fantasias. Animais de estimação, homens e bonecos. Artesanato, gastronomia e lazer. Enfim, tomado de uma pluralidade incrível, o Mercado Central é visivelmente um espaço onde a mistura de cores, raças e sabores ficam evidentes a todos os sentidos, até mesmo aos mais distraídos.
No Mercado todos os homens são dotados de valorosa importância, sejam destaques da política que transitam nos corredores ou aqueles que financiaram o soerguimento das paredes, como o líder Sr. Raimundo Pereira Lima, mais conhecido como Dico.
O Presidente do Chile, Eduardo Frei Montalva, veio a Belo Horizonte no ano de 1969 %u2013 um ano antes da democrática eleição de Salvador Allende. Na oportunidade, aproveitou para visitar o Mercado e se encantou com sua variedade e estrutura, confidenciando o desejo de construir em seu país um espaço semelhante %u2013 e o fez, com a planta em mãos.
Referência unânime dentro do Mercado, por sua importância histórica para a capital mineira e para o próprio espaço multicultural, o empreendedor prefeito Cristiano Machado foi o responsável por reunir, em um só local, os produtos destinados ao abastecimento dos 47.000 habitantes da jovem cidade de 31 anos. Foi assim que o Mercado Central nasceu, em 07 de setembro de 1929, com 22 lotes e próximo à Praça Raul Soares; o único sobrevivente dentre as demais feiras que existiam à época, a da Praça da Estação e a Feira de Amostras, na Rodoviária.
Os Irmãos Osvaldo, Vicente e Milton de Araújo, fundadores do Banco Mercantil do Brasil, investiram no Mercado ao financiar a construção de suas laterais, erguidas por quatro construtoras diferentes. Além de reconhecer o valor que o local tinha para a cidade, os irmãos cultivavam uma estreita amizade com o administrador do Mercado, Sr. Olímpio Marteleto. E assim, com a mobilização dos comerciantes e o apoio dos Irmãos Araújo, ao fim de 15 dias os 14.000 m2 de terreno estavam totalmente cobertos.
Com atuações igualmente importantes, muitos outros cidadãos circularam e ainda se encontram no Mercado. O jornalista Eduardo Costa, por exemplo, apresentou no auditório a dissertação de mestrado que virou livro e teve como tema, é claro, o Mercado Central, que definiu como %u201Co espaço mais rico e plural do que outros tradicionais de BH e, além de aspectos culturais, hábitos, memória e tradição, há duas razões simples para o seu sucesso: a qualidade dos produtos e a convivência entre as pessoas%u201D.
Outros nomes a serem citados são os antigos prefeitos de Belo Horizonte, Jorge Carone e Maurício Campos, o vice-prefeito Ronaldo Vasconcelos, o escritor Fernando Brant, o dono da rádio Itatiaia, Emanuel Carneiro, o repórter Acyr Antão, o secretário Luiz Flávio Sapori, deputado estadual Célio Moreira, deputado estadual João Leite, a vereadora Neuzinha Santos, o vereador Carlão, os músicos das bandas Jota Quest e Skank, dentre muitos outros.
Rezas e Festas
A 1ª celebração da Páscoa dos Comerciantes foi promovida pelo administrador Sr. Alcides Régis, em 20 de junho de 1954. Como o Mercado ainda não era pavimentado e a capela ainda não existia, a missa foi regida por um padre da Igreja São José, indicado pela Diocese. Nesse período, as comemorações aconteciam no átrio e nas escadarias da Secretaria de Saúde, hoje o Minascentro, localizado do outro lado da Avenida Augusto de Lima.
Durante a reforma de 1964 foi construída uma capela para abrigar a imagem de Nossa Senhora de Fátima, eleita a padroeira do Mercado. A santa foi doada por uma comerciante de frutas e verduras, freqüentadora dos festejos de Páscoa, a portuguesa Sra. Maria da Conceição Morais. Em agradecimento à Virgem por uma graça alcançada, fez a doação da imagem, que nas épocas de páscoa era exposta à visitação dos devotos.
Atualmente a capela é palco de missas dominicais abertas ao público, impreterivelmente às sete horas da manhã. Construído no estacionamento, o singelo monumento foi reconhecido pelo Bispo Dom João de Rezende Costa, e no ano de sua estréia foi celebrada, por Dom João e Padre Antônio Gonçalves, a Missa Inaugural.
Muitas outras comemorações foram sediadas na capela, como os 50 anos do Mercado, em 1979, junto à 25ª Páscoa dos Comerciantes, bem como os conseqüentes aniversários do Mercado. Foi na década de 90 que a Capela passou à categoria de Paróquia, uma iniciativa dos capelães, que tinham como objetivo promover atividades junto à comunidade. E em 1994, foi totalmente reformada e ampliada para a sua reinauguração, com direito à missa de Páscoa celebrada por Dom Serafim.
Em sua mais recente comemoração, nos 78 anos de Mercado, aconteceu uma grande festa para os 400 comerciantes e 2,5 mil empregados no local. Seguindo a tradição, foi celebrada a missa no domingo às 7h, pelo arcebispo auxiliar Dom Joaquim Mol. Os transeuntes presentes lembram também da Orquestra Minas e Viola, que improvisaram um show bem mineiro, mostrando que o Mercado é %u201Cpraticamente um coração de mãe%u201D, onde sempre cabe mais um.
Floresta x Santa Tereza - Tavinho Moura
Numa sexta feira de tarde fui ao Mercado Central
procurar uma imagem de São Gonçalo para presentear uma amiga. O Mercado
estava calmo e eu tranqüilo procurava pela banca que já vira antes, mas
que naquela hora, me fugia do mapa que guardo na cabeça. Em um daqueles
corredores cruzei com um camarada bem trajado, de óculos e barba bem
aparada, que me cumprimentou como se me conhecesse de longa data.
Acenei com a cabeça e continuei meu caminho. Mais adiante, num daqueles
corredores mais apertados ali do meio, nos encontramos novamente. Ele
agora estava na companhia de um outro sujeito, que trajava um terno
marrom e carregava consigo uma maleta do tipo James Bond. Os dois me
olhavam de forma intimidativa, era um me mostrando para o outro, e de
certa forma pilheriando. Foi o que percebi naqueles poucos minutos ao
mesmo tempo em que pensava: será mesmo comigo, nunca vi essas peças.
Acenei novamente com a cabeça e desta vez não houve resposta.
Eis
que me aparece o João (Rei da Feijoada) e me passou logo a ficha de
como encontrar a loja, " Católica Artigos Religiosos", onde enfim
comprei meu São Gonçalo.
Feliz
da vida segui até o "Nosso Bar", onde pedi uma cerveja e comecei a
fazer umas das coisas que mais gosto. Estava tão bom e tão gelada que
eu não pensava absolutamente em nada. De repente estavam na minha
frente os dois sujeitos e aquele que vi primeiro foi falando em tom
alto e meio nervoso: você não se lembra de mim, pois é, eu corri muito
de você quando era pequeno, você era um covarde, só andava em turma.
Você morava na Marechal Deodoro e eu na rua Cristal. Era uma covardia
porque eu era bem menor e devo ser uns três anos mais novo. Porque você
não faz isso agora, aqui nos somos dois e você está sozinho. Quero ver
o tamanho da sua valentia.
Meu
companheiro, eu disse, já se passaram mais de quarenta anos, qual é?
Aquilo era coisa daquele tempo, sei lá, depois eu nem me lembro de
você, caramba.
Daquele tempo
um caralho. Enquanto ele falava eu que não sou muito chegado aos
freudianismos, percebi que estava diante de um trauma de infância, que
a parada era bisonha e que não tinha saco para situação tão
estapafúrdia.
Minha irmã
quando vê uma foto sua no jornal fica falando pela casa: é ele, é ele,
eu tenho certeza. Teve uma vez, eu fui à missa na igreja da Floresta.
Eu vou à missa, você tenho certeza que não. Antes que a missa acabasse
você já estava em pé do meu lado, e foi eu colocar os pés do lado de
fora da igreja, você desembestou atrás de mim. Eu corri da igreja da
Floresta até a rua Cristal, depois do grupo José Bonifácio, ali você
parava porque já começava Santa Tereza.
Mas
alguma coisa nos olhos, no rosto, nos gestos do companheiro que estava
do seu lado me fez perceber que eles estavam me pegando era de
sacanagem.
Você agora deve estar se mijando todo. Voltou a vociferar.
Foi
quando me veio na cabeça um conto que reli recentemente, de meu
escritor preferido, onde um de seus personagens diz: "O medo é a
extrema ignorância em momento muito agudo."
Eu
então não tive dúvidas, segurei a garrafa de cerveja pelo gargalo, e
disse com toda força, para que todos que estavam no bar também
ouvissem: Vocês já passaram dos limites da minha paciência. Vamos abrir
essa roda que eu vou estourar essa merda no seu nariz. Eles deram um
pulo para traz e começaram a rir. Calma, Tavinho Moura , eu só queria
te mostrar o tamanho do medo que eu sentia, calma pelo amor de Deus.
Tomamos juntos mais muitas cervejas e celebramos a paz entre Floresta e Santa Tereza... Ad.Eternum.
Café nosso de todo dia - Rúbia Piancastelli
Cafezinho é algo tão bom, que até quando servido gratuitamente não atrapalha a venda. Certa vez houve uma promoção no Mercado Central, onde foram distribuídos cafezinhos e pães de queijo durante todo o dia, um sucesso sem precedentes, que atraía aglomerados de aficcionados. Ainda assim, quem servia o tradicional expresso e outros derivados da bebida em suas lojas, vendiam a iguaria sem qualquer problema. Sidney Gonçalves de Castro Filho, dono da única cafeteria do Mercado %u2013 e entende-se por cafeteria o local onde o café é o produto principal, servido com a qualidade necessária e inerente ao comércio do grão, conta que a razão dessa procura é nada mais que a apreciação do brasileiro e de estrangeiros pela bebida.
Com uma média de mil xícaras de café servidas diariamente, Sidney dedica-se ao tradicional %u201CCafé Dois Irmãos%u201D, estabelecimento o qual administra e trabalha desde 1985, no Mercado Central. A história da venda do produto data de época ainda mais remota, tempos de outros mercados. Antes de se instalar na loja 30, e antes ainda de duplicar suas portas, Sidney era proprietário de um café na Olegário Maciel, dentro do Mercado Novo.
Em 1974, após deixar seu trabalho como vendedor de tecidos na União Brasileira, Sidney foi encontrar-se com o comercio de café por acaso, em suas próprias palavras. Trabalhando como vendedor de ovos da famosa marca Perfa, no Mercado Novo, conheceu outros comerciantes e um de seus vizinhos de barraca, ilustre vendedor de batatas, lhe disse das vantagens em comprar o estabelecimento ao lado, que vendia os melhores cafezinhos. Avaliando a visionária proposta, Sidney não vacilou em tomar a decisão junto ao seu irmão Paulo, o qual lhe acompanhou na empreitada de vender café 24 horas por dia.
Se o Mercado Central funciona das 7h às 18h, o Mercado Novo não parava nem mesmo para cochilar. E sim para tomar sempre, a qualquer hora do dia, um belo cafezinho. Atualmente o horário permitido para o início da venda de bebidas alcoólicas, no Mercado Central, é a partir das 8h, uma vez que a ululante clientela não tinha limites para a ingestão desenfreada de uma boa gelada. Mas o bom café, salvador de ressacas, apuradores do bom paladar e apreciada especiaria internacional, não tem hora. E assim, dia após dia, e xícara após xícara, dedica-se ao café há mais de 30 anos.
De 15 em 15 minutos as cafeteiras antigas são renovadas, os grãos moídos, rendendo as 120 xícaras por quilo, ou ainda sendo ensacadas para o deleite daqueles que deliciam o café em casa. Mas feliz daqueles que estendem suas compras, passeio ou mesmo comparecem ao balcão do Café Dois Irmãos para tomar uma meia ou um inteiro, acompanhado de uma broa saída do forno. Pão de queijo ou biscoito de queijo, independente da forma, são complementos indispensáveis ao suculento desjejum, que desperta logo quando se adentra a entrada da Avenida Augusto de Lima. Logo ali, dobrando apenas uma esquina, o freguês poderá se esbaldar com fervente café Minas Rio, vendido pela bagatela de R$0,80.
A parceria com a Minas Rio, antiga produtora que foi comprada pela juiz de forense Toko, é respeitosamente lembrada por Sidney. O motivo é mais que nobre, afinal de contas, não se encontra mais contratos entre cavalheiros, acordos que se baseiam em palavras, assim como o que foi estabelecido entre o cliente vendedor do tradicional café, e a empresa fornecedora. São mais de 33 anos trabalhando juntos, e nunca houve a necessidade de uma assinatura em qualquer papel. Há coisas que o Mercado Central moderno, com descaracterizados ares de hortifrutigranjeiro e núcleo de especiarias, não conhece mais...
Em 85, quando se mudou para o Mercado Central e deixou o irmão dirigindo o café no Mercado Novo, Sidney era proprietário de apenas uma loja no corredor paralelo a Rua Augusto de Lima, onde ainda se localiza. Anos mais tarde, expandiu seu negócio ao comprar o Palácio das Castanhas, estabelecimento com o qual dividia paredes. Rejeitando uma proposta da concorrente Café Três Corações para financiar a construção de novas estruturas, Sidney continuou fiel à companheira Minas Rio, e até nos azulejos a bela parceria fica evidente, com as xícaras de café customizadas pela arquiteta da nova e grande loja, espalhadas como uma tentação subliminar para enfeitiçar os clientes que por ali passassem.
Após quatro anos e meio de reforma, contando com a mesma turma da %u201Cpurrinha%u201D que freqüentava o Mercado Novo, Sidney inaugurou o Café Dois Irmãos em 2003. Seu braço direito, o filho Sidney Neto, mais conhecido como Leleco, faz parte da turma que está diariamente a postos, só que do lado de dentro do balcão. Acostumado com a clientela e especialmente com as confidências dos antigos fregueses, que não titubeiam em contar seus segredos ou partilhar os fiados cotidianos, Leleco faz as vezes do pai no caixa, que quase sempre se encarrega de ensinar o ponto do pão de queijo, da broa, do biscoito, garantindo sabor inigualável e uma renovação constante das reluzentes bandejas que apetecem até os menos famintos.
Sindey sabe e vangloria-se em dizer que a qualidade com que sempre tratou seu negócio, um ofício diário que exerce com todo o prazer e coração, são os responsáveis pela longevidade do Café Dois Irmãos. A recompensa do trabalho são as amizades que perduram como o gosto do café na boca, os infindos casos e histórias do arco da velha que aclimatam o ambiente do café diariamente, e religiosamente por alguns frequentadores. Escudeiros fiéis como o próprio irmão Paulo, que trabalhou junto a Sidney por 19 anos, e ainda os amigos Nazzi e Marmutti %u2013 donos da Nova Brasília, lá se encontram independente do dia, da chuva ou do humor. Pois o café lá os espera, assim como as notícias diárias e as boas confidências masculinas.
%u201CFeio, me vê um cafezinho!%u201D. Simplesmente assim, com um chamado curioso que já é costume dentre os colegas que frequentam o Café, um ou mais figurões se aproximam do balcão, logo abraçando ou calorosamente estendendo a mão para Sidney, Leleco ou uma das %u201Cmeninas%u201D - como carinhosamente são chamadas as garçonetes impecavelmente uniformizadas. Pelé, dono do bar que leva seu nome, a vizinha Helena, comerciante de queijos e derivados, e a patota do Império da Batata, são amigos que de minuto em minuto vão bebericar um café e botar o assunto em dia.
Os mais assíduos contam com a gentileza de um atendimento onde os gostos e preferências são sempre recordados. D. Clara, José Baltazar, Fernando, Nazzi e Marmutti são conhecidos pelo nome e pelo paladar. D. Isabel, cliente antiga, além dos sacos de café moído, faz questão de encomendar a Sidney seu pacote de cigarros, sempre escolhidos a dedo, pois a data precisa ser mais nova, e a quantidade é sempre a mesma. O preço e descrição do pedido, que é o mesmo há muitos anos, seguem anotados à mão em uma notinha do Café. O prestativo marido, que sempre é encarregado de buscar a mercadoria carinhosamente separada por Sidney, certa vez contou as queixas da doce mulher: %u201Cquerido, porque você não me trata como o Seu Sidney?%u201D E assim, de caso em caso, o Café se enche de papo.
As mulheres da vida de Sidney - a esposa Ana Lúcia, a filha Isabela e a caçula Michaela enchem as paredes em fotos e a loja de alegria - visitas ilustres assim como a de políticos, músicos e outros distintos que por ali não faltam. Lucia Pacífico, coordenadora do Movimento das Donas de Casa, Zezé Perrela, dirigente do Cruzeiro, não resistem a um cafezinho no Dois Irmãos. Pois se nem o prefeito Fernando Pimentel e o ex-presidente Itamar Franco, quando da cerimônia de lançamento do Posto de Informações Turísticas no mercado, não perderam a oportunidade para degustar a nobre bebida, quiçá reles mortais e figurões da capital.
Na lista de Sidney, assim como as fotos que coleciona por ter ganhado de jornalistas que vivem flagrando famosos nos balcões, ou ainda amigos que registram momentos únicos, figuram ainda os políticos Nilmário Miranda, Célio de Castro, Ciro Gomes e sua mulher, a atriz Patrícia Pilar, o governador Aécio Neves, o carismático João Leite, Garotinho e Cristovam Buarque. Acompanhando as personalidades, sempre existem os divertidos casos, como no dia em que uma distraída atendente, ao receber Fernando Pimentel, que se apresentou como o prefeito de sua cidade, quase foi recebido com um caloroso: %u201Cque beleza senhor, Itabirito está mesmo ficando uma beleza%u201D. E mesmo não presente fisicamente no estabelecimento, outros políticos recebem homenagens, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agraciado pelos fregueses mais ousados com a criação do %u201Ccafé à Lula%u201D, aquele que vem com um dedinho a menos em sua porção total, atendendo aos mais econômicos.