Morro do Papagaio
Morro do Papagaio - Márcia Cruz
Concreto e feijoada
De um lado areia, cimento, brita, latas de concreto, ferragens e escoras de madeira. De outro, arroz, feijoada, torresmo, cerveja e refrigerante. A combinação parece esdrúxula, mas é um dos costumes mais característicos dos morros, entre eles o Aglomerado Santa Lúcia. O ato de bater laje é um momento de socialização e interação nas favelas de Belo Horizonte. O mesmo ocorre nos morros cariocas, os mais famosos do Brasil. Por todos os benefícios que representa a laje para uma família, o ato de batê-la é uma comemoração, quase uma celebração na base do mutirão. No centro da festa, muito mais que o concreto armado, está o sonho de tranquilidade e segurança.
Muita gente opta por bater a laje na extensão de toda a casa, outros preferem fazê-la em partes, cômodo por cômodo. A escolha depende do recurso de que a família dispõe para reformar a casa e de quantos amigos irão participar do mutirão. Certamente o dia que a tarefa se realizará será de muita alegria. A solidariedade toma lugar quando o objetivo é construir a casa própria nos morros. A preparação para o ritual começa dias antes. Não precisa ter nenhum conhecimento no ramo da construção civil para saber de cor o passo-a-passo da obra. Primeiro os pedreiros colocam as folhas de madeirite escoradas com estacas de madeira, preparando assim uma espécie de caixa que receberá o concreto. O passo seguinte é realizado pelos armadores, que fazem a amarração das ferragens.
O dia ideal para bater uma laje é o sábado. Checar o suporte de madeira para receber o concreto, que será feito por mãos habituadas com a mistura de areia e cimento; subir com as latas de massa ou içá-las por cordas e roldanas são tarefas que exigem dedicação dos homens. Mas não se bate laje sem ajuda das mulheres. Elas atuam não só preparando a feijoada e o tira-gosto - combustível para quem trabalha voluntariamente, mas também no serviço pesado da obra.
Geralmente, os homens ficam completamente cobertos de concreto, mas a tarefa em cumprida em clima de festa. São os vizinhos, os compadres, os compa¬nheiros de time que se juntam na empreitada. Diante das afinidades entre eles, é impossível não fazer brinca¬deiras para o trabalho parecer mais leve. Pelo tanto de tira-gosto e cerveja consumidos ao longo do dia, quem olha de fora pode até duvidar de que o serviço será de-vidamente concluído. Mas tudo transcorre bem e uma das sensações mais reconfortantes é saber que a tarefa foi realizada com sucesso. Nos dias que se seguem ao mutirão, a laje tem que ser molhada diariamente, até "puxar" por igual.
Fazer a massa é tão importante quanto preparar a feijoada. Aos poucos as lajes substituíram os telhados de zinco, amianto ou telhas coloniais que cobriam as centenas de casas do morro. Laje é sinônimo de melhoria nas condições de vida e, consequentemente, simboliza mais conforto. Em outras palavras, significa não ter que usar baldes ou outros recipientes para conter as goteiras que aparecem como praga ao menor sinal de chuva. Não há nada mais frustrante do que encerar o chão, tirar a poeira, forrar as mesas, deixar a casa perfumada e uma inesperada garoa ensopar tudo de repente. As goteiras podem ser ainda mais devastadoras quando insistem em cair no motor da geladeira ou na televisão, estourando o tubo de imagem.
Para muitas famílias, construir uma laje é uma forma de ampliar o espaço de lazer, que geralmente é muito pequeno nas casas de favela. Com a laje, torna-se possível construir mais um andar ou simplesmente um terraço no qual serão feitos churrascos e reuniões festivas. As lajes são multifuncionais e agregam tanto o espaço de lazer quanto uma área de serviço, sendo excelentes para colocar varais, máquina de lavar ou tanquinho. Apesar dos riscos, também são muito usadas pelos meninos para soltar papagaio e pelas mulheres, para pegar aquele bronzeado.