Colégio Sacré Coeur
A vida no internato - Marilene Guzella Martins Lemos
A vida no internato
Nos anos em que fui interna, 1947, 48 e 49, no
Sagrado, e 1950, no Sacré Coeur, ficou a lembrança
de uma rigidez da qual, naquela época, não se
espantava.
Todos os colégios eram assim. Vinte anos antes,
minha mãe fizera todo o seu curso de normalista
interna em instituições similares, tanto que a rotina,
usos e costumes, proibições e normas de
comportamento já me eram conhecidos desde que
eu me entendi por gente.
Quando me preparava para o internato, já sabia
como seriam as coisas que, na verdade, foram mais
amenas do que no tempo de minha mãe.
Por exemplo, ela entrava no colégio no início do
ano letivo e só saía para as férias de meio e fim de
ano; o banho era tomado de camisola...
Isso e outras "cositas más" matam de rir as
meninas de hoje.
Eu cheguei a levar no enxoval as tais camisolas de
banho, mas a exigência de usá-las já havia sido
revogada.
Uma aluna, no colégio de minha mãe, foi expulsa
por motivo hoje cômico. As alunas entravam nos
banheiros e trocavam o uniforme pela tal camisola.
Uma freira batia na porta e perguntava: "pronto".
À resposta "pronto!", a freira empurrava a porta,
que não podia ser trancada, e verificava se a aluna
estava realmente com a indumentária. A tal aluna
respondeu "pronto!", mas estava vestida do jeitinho
que veio ao mundo.
Todos os colégios de religiosas adotavam rotina
parecida quanto a horários para levantar e deitar,
missa diária, controle da correspondência que
passava pela censura, proibição de visitas
consideradas não oportunas...
Uma colega de minha irmã, já na década de 60,
foi colocada num internato de freiras em cidade do
interior. Motivo? Namoro não aprovado pelos pais. O
namorado vestiu-se de padre e apresentou-se no
colégio como amigo da família da garota. Como tal,
foi-lhe permitido vê-la e ainda que a mesma lhe
servisse de cicerone para conhecer as dependências
do educandário. Tudo teria passado despercebido se
a namorada tivesse resistido à necessidade de
confidenciar o fato a amigas. As freiras se sentiram
enganadas e a expulsão foi inevitável.
Pelo que soube, aqueles dois estão casados e
felizes até os dias de hoje.
Levantava-se às 5h30min para assistir à missa na
capela do próprio colégio, depois é que se tomava
café e nos dirigíamos às salas de aula.
Deitava-se às 20 horas.
O dormitório era um imenso cômodo cheio de
camas de ferro brancas, à semelhança de hospitais,
um criado mudo ao lado de cada cama. Num canto,
dentro de um biombo, dormia a freira encarregada
daquela turma.
O silêncio no dormitório devia ser absoluto.
Mas quem pode com uma turma de adolescentes?
A freira, depois que as alunas se deitavam, ficava
andando para lá e para cá, rezando o terço, dando um
tempo para que todas conciliassem o sono.
Havia dias em que a turma estava a fim de fazer
bagunça. Esperava a freira entrar para o seu cubículo
e dava-lhe o tempo necessário para se livrar de todas
aquelas roupas.
Aí, uma tossia, a outra raspava a garganta, outra
ainda passava o pente na cama de metal, fazendo
aquele barulhinho irritante. Uma latinha redonda,
daquelas de Pastilhas Valda, cheia de bagulhinhos,
era jogada debaixo das camas e saía tilintando.
Logo, logo, explodia o ataque de riso coletivo.
A freira, coitada, paramentava-se e saía para pôr
fim à algazarra. Jamais apareceria em nossa frente em
trajes de dormir.
Muitas vezes, colocava a turma toda de pé. O que
significava muitos justos pagando por pecadores.
Entre as alunas, não aconteciam apenas ataques
de riso coletivo. Aconteciam também ataques de
choro grassando como epidemia.
O lugar mais propício para os choros convulsivos
era a capela, durante a Bênção do Santíssimo, no
domingo à noite.
A cerimônia era precedida de cantos, ladainhas,
etc. Entre os cantos, um "Tantum Ergum",
"Tantum ergo Sacramentum
Veneremur cernui
Et antiquum documentum
Novo cedat ritui",
que podia ser cantado com várias melodias. Uma
dessas era especialmente melancólica. Provocava
uma tristeza, uma dor no peito, a saudade de casa
apertava... Bastava uma dar o primeiro soluço. Em
seguida, só se viam ombros sacudidos e tentativas de
segurar o choro escancarado. Os véus que usávamos
na cabeça tinham também a serventia de enxugar
lágrimas.
No colégio Sacré Coeur, as turmas de internato
eram divididas assim: Classe Menino Jesus, das
alunas do primário; Classe dos Anjos, meninas da 1ª
e 2ª séries ginasial; Classe Sacré Coeur, alunas da 3ª
e 4ª série; e a Classe São Tomás, das alunas do 2º
grau, isto é, do Científico, Clássico ou Formação de
Professoras.
Dessas classes faziam parte também as alunas que
frequentavam o colégio em regime de semi-internato.
Elas assistiam às aulas junto com as internas na parte
da manhã, almoçavam no colégio, passavam a tarde
na sala de estudo. Iam para casa à tardinha, no ônibus
que levava as externas. Lembro-me de algumas:
Deise Gontijo, Maria do Carmo Dias, Antonieta
Mota, Santuza Lage...
Duas freiras se revezavam e assistiam a cada uma
dessas classes que viviam bem separadas das demais e
tinham atividades inteiramente independentes. Cada
classe tinha seu dormitório, sala de estudos, recreios
em locais diferentes, etc.
Nos recreios, jogava-se vôlei, faziam-se rodas de
conversa, ouvia-se música. Cada classe tinha seu
toca-fita " uma vitrola de corda " e seus discos.
Esses discos passavam por rigorosa censura. Afinal,
eram músicas "Clá de fora" e cuidava-se que a cabecinha
das meninas não ficasse muito entretida com
caraminholas e coisas profanas.
As músicas de carnaval eram proibidas de se ouvir
e cantar. As rodas de conversa aconteciam sob o
ouvido atento da freira assistente e era terminantemente
proibido ficar afastada ou em conversas de pé do
ouvido. Não se podia "Candar de duas", os grupinhos
deviam ter três ou mais componentes.
Era proibida a posse, entre os objetos escolares, de
livros ou revistas que não fossem os didáticos. Apenas
aos domingos podia-se tirar livros da biblioteca, à
qual não se tinha acesso. Víamos apenas um catálogo
e fazíamos os pedidos. Esses livros, na sua maioria,
eram de leituras edificantes, vidas de santos, um ou
outro de coleções infanto-juvenis como os disputados
"Herdeira de Ferlac", "Cigana ou Princesa" ou os de
Júlio Verne.
No Sagrado Coração, lembro-me dos livros do
Cônego Schimmid: "Rosa de Tanemburgo", "Ovos
de Páscoa", " Carneirinho", "Genoveva de
Brabante", onde em cada frase o Cônego encaixava
uma lição de moral ou uma pregação religiosa.
Nos fundos do colégio Sacré Coeur, cujo limite
ficava onde hoje é a Praça Milton Campos, havia um
bosque com árvores frondosas. Era um lugar muito
agradável, onde havia também mesas, bancos, etc.
Passar algumas horas nesse parque era um prêmio
que a turma podia receber quando a ele fazia jus.
Havia também o costume de, pelo menos uma
vez por semestre, passar lá o dia todo, fazer um
piquenique. Esse piquenique era aguardado com
ansiedade, comestíveis eram encomendados,
atividades programadas, etc.
Mas o divertimento principal era, quando a freira
se distraía, subir numa mangueira próxima ao muro
da Rua Alumínio e chamar pelo Raul.
Esse moço morava numa casa dessa rua e, ao
ouvir o chamado, chegava à janela e dava adeusinho.
Ficava só nisso, mas já era alguma coisa ter visto um
rapaz, já que as alunas internas ficavam mês inteiro
sem pôr os olhos em alguém do sexo oposto.
Adolescentes, a fantasia correndo solta, o
derivativo era sonhar... sonhar com o namoradinho
que ficara lá na sua terra, com o moço que vira no
último domingo de saída, com o artista de um filme
recente.
De vez em quando, passavam filmes para as
alunas. Na capela, que, quando necessário, virava
salão de festas e cinema. A operadora do projetor era
Mère Xavier. Atenta, dava um jeito de a fita
arrebentar se previa uma cena de beijo.
Como esse salão ficava muito perto dos
dormitórios, nós íamos assistir aos filmes já de
camisola, robe e dentes escovados. Depois era só
atravessar um vestíbulo e ir deitar.
Um retrato de Tyronne Power andava de mão em
mão e era disputado para ficar debaixo do travesseiro.