Lagoinha
Figuras de outro mundo - Rúbia Piancastelli
Era uma vez uma loira vestida de branco que saía todas as noites e conquistava um rapaz, que gentilmente oferecia para levá-la em casa. Após tomar um táxi com destino à residência, lá pelas tantas a moça pede que parem o carro e aponta para o Cemitério do Bonfim, indicando sua morada. O susto era tão grande que os homens saíam desvairados a correr, com medo da mulher que tomava ares fantasmagóricos e muitas vezes desaparecia.
Como a Loira do Bonfim, outras lendas da região da Lagoinha são contadas por moradores que se divertem e ainda assustam com os casos, alguns fictícios e outros bem reais. Os relatos são sempre carregados de crenças, mas há a outra ordem, a dos fatos estampados nas páginas de jornais da década de 40 em diante. Esses retratam as célebres figuras e seus estranhos hábitos.
Maria Tomba-Homem era uma negra alta e forte, que não dispensava uma briga e ganhava dos mais ousados valentões, dando pernadas e aplicando o famoso %u201Crabo-de-arraia%u201D, muito usado pelos capoeiristas como golpe de queda certeira. Já o Tarzan do Bueiro fugia da policia e outras perseguições entrando nas valas das ruas e avenidas. Mesmo o Arrudas, com seu caudaloso esgoto, tornava-se um refúgio para o tipo que mais parecia uma ratazana. Sr. Baltazar Botelho lembra-se de que o local preferido do Tarzan era no começo da Rua Curitiba, onde os bueiros eram grandes. %u201CO Café Brasil era logo ao lado, e de lá se via o homem correndo e pulando para dentro dos bueiros...%u201D
Um dos personagens mais famosos e que vivia nas páginas policiais era o %u201CCintura Fina%u201D, um homossexual dotado de grande inteligência e um gênio perigoso. %u201CNão podia mexer com ele que era navalhada na certa%u201D, lembra Baltazar, que por longos anos fazia a patrulha da Praça com seus comparsas da Aeronáutica. Não foram poucas as vezes em que acudiu os bêbados e atrevidos que amolavam o Cintura, arriscando ter sua pele cortada pelo gilete que era preso a um barbante elástico, lançado habilidosamente pelas mãos do psicopata.
Apesar da guarda civil também atuar na segurança do bairro, a patrulha noturna da Aeronáutica, comandada pelo Sargento Andrade, era a mais respeitada pelo Cintura Fina. Assim que o carro parava frente à calçada onde se encontrava, entrava na viatura dizendo: %u201Cforam eles que mexeram comigo...%u201D. Sua fama era de vaidoso, gostava de ser valorizado e respeitado, atacando ao mínimo sinal de ameaça. Alguns dizem que ele era sapateiro, mas fato é que sua circulação se dava no corredor entre a Guaicurus e a Praça da Lagoinha.
Dá-lhe confusão
Nessa época, havia as lutas de boxe e outros pesos pesados, que geralmente aconteciam na arena da Feira de Amostras, na Rodoviária. %u201CO Tocha%u201D era um dos lutadores favoritos, inspetor de trânsito que gostava de uma briga, mas não botava uma só gota de álcool na boca. Era um tipo atleta que dava medo no pessoal. %u201CA musculatura do homem era algo de dar nó em qualquer camarada%u201D, recorda Baltazar. %u201CApesar das brigas e quando acontecia de ter umas facadinhas, raramente se via assassinato. Hoje, por qualquer coisa se mata outro, e naquela época eles raramente andavam armados.%u201D
Se havia uma confusão entre namorados, pode estar certo que a %u201CLambreta%u201D estava no meio. Mais vista nas redondezas da Afonso Pena, altura da Igreja São José, a emblemática louca perseguia os rapazes e suas namoradas, danando a soltar desaforos que acabavam em discussões de longos relacionamentos. Alguns amigos espertalhões davam dinheiro para que ela falasse coisas do tipo %u201CAh homem, aquele dia você foi lá em casa e não me pagou...%u201D. Era uma algazarra só, estendida até o Estádio do Independência, para onde a Lambreta ia fazer troça com os freqüentadores do campo, pintando e bordando com a rapaziada.
Alguns menos loucos e mais espertos, como o mecânico do Bonfim, gostavam mesmo de assustar os outros. Lembra Baltazar que o tal sujeito, extremamente inteligente, criou um carro movido a controle remoto, que usava para pregar peças nos moradores da região. A surpresa estava no fato de o automóvel sem motorista estar em movimento, e daí surgiram boatos sobre o %u201Ccarro de outro mundo%u201D. Mas a máquina obedecia a comandos camuflados, o que sustentou por muitos anos a brincadeira que assombrava o carro e os curiosos mais crédulos.
As lendas e figuras não impediam a brincadeira da molecada nas ruas, onde havia peteca, pegador e outras diversões, lembradas com saudade por D. Juracy Ferrari... %u201COs rapazes se sentavam nas calçadas para tomar uma cerveja e namorar as mocinhas no portão.%u201D
Convivendo diariamente com os tipos ou suas histórias, Baltazar conta que o pessoal da Lagoinha era solidário com as figuras que circulavam pela Praça. Nas noites de frio o Café Belo Horizonte, onde Baltazar trabalhou por dois anos, fazia sopa de cebola e servia no cantinho da sacada para os pseudo-indigentes. Uma ou outra briga de rua, giletada, ameaças de mulheres fantasmas e outras de carne e osso, eram parte do imaginário e permaneceram incrustadas na história da Lagoinha.
Gente da Lagoinha
Nem todos os personagens da Lagoinha apareciam nas páginas dos jornais, mas são guardados até hoje pelos amigos que vivem no bairro.
Seu Baltazar nunca esquecerá a família do Sr. Jorge Salomão, cujo filho Bilé, que já faleceu, era o responsável pelo Café Belo Horizonte, onde trabalhou em sua juventude. %u201CEu estudava de manhã e trabalhava de tarde, pegava no almoço e só largava às 22h. O Bilé, que já morreu, tomava conta. O Elias %u2013 o Tóia, era o outro irmão, único cruzeirense numa família toda atleticana%u201D, conta Baltazar. %u201CAli, diariamente, eu via muita coisa. O pessoal de Vespasiano trazia verduras e jantava lá no bar%u201D, completa suas recordações dos amigos do estabelecimento que fazia parte da Praça Vaz de Mello.
Baltazar expressa sua gratidão pelos amigos e estende aos familiares que lhe acolheram quando veio de Patos de Minas para a capital, em 1949. Retribuindo a gentileza de forma natural, Baltazar acolheu muitos em seu casarão de 22 cômodos da Rua Diamantina no 365. Como nunca se casou ou teve filhos, criou sobrinhos, filhos bastardos das ajudantes e os Srs. Carlos e Valdemar Candido de Morais. Esses últimos deixaram todos seus bens e objetos de valor pessoal na casa, onde ainda permanecem. O real desejo de Seu Baltazar é tocar seu sítio nos arredores da cidade e fazer de sua casa uma moradia para idosos, quando o futuro lhe permitir.
Dona Juracy, que há mais de 40 anos mora e bate perna por toda a Lagoinha, carrega um grande orgulho de pertencer ao bairro e aos movimentos do qual participa. No Movimento das Donas de Casa, faz parte do núcleo de teatro, além de defender a causa. O que mais a mobiliza, além do grupo de seresta %u201CLembranças%u201D, do qual faz parte e ensaia todas as segundas-feiras à tarde, são as questões do bairro, que defende junto às regionais da prefeitura ou onde mais for preciso.
Locutora por mais de seis anos dos programas da extinta Rádio Lagoinha, o %u201CFala Comunidade%u201D e %u201CSempre Viva%u201D, levou aos moradores da terceira juventude %u2013 como gosta de chamar - os boleros e sambas canções que marcaram sua vida, poemas, receitas, entrevistados e outras atrações. Ela ainda se recorda de quando sua melhor amiga e vizinha Vilma Vaz de Melo foi participar do programa, embora quase nunca saísse de casa. %u201CEla foi falar sobre a vida dela no bairro, pois nasceu aqui na Rua Diamantina. Eu ficava feliz porque todos se admiraram, participavam muito do programa%u201D, conta Juracy, que ainda pretende conseguir um espaço para fazer o Clube da Terceira Idade na Lagoinha. E assim são as pinceladas de alegria na vida dos antigos moradores, que outrora eram tomadas por um fervor cultural e experiências mundanas que ficaram na memória.
Casarões e sobradinhos da Lagoinha - Rúbia Piancastelli
Fantoni, Tenaglia, Scarponi, Pisani, Ferrari. Todos esses e outros sobrenomes italianos podiam ser encontrados dentre as famílias que habitaram o bairro da Lagoinha desde sua fundação %u2013 originada para abrigar os operários e comerciantes que vinham trabalhar na capital do estado de Minas Gerais.
Por ser muito próxima à Praça da Estação e da Rodoviária, a Lagoinha cresceu rapidamente, recebendo um volume considerável de homens que trabalharam na construção da capital e na iniciação dos primeiros estabelecimentos locais. Com o grande fluxo local, não só as atividades comerciais floresciam, mas também as diversas formas de lazer que acompanham o desenvolvimento urbano. Esse foi o começo de uma região que ficou caracterizada pelos núcleos familiares e por sua famosa zona boêmia e de prostituição.
As residências familiares e os pontos de comércio erguidos em sobrados e casinhas com simpáticos alpendres perduram até hoje, embora suas formas e finalidades sejam distintas de outrora. Algumas das casas tinham suas identidades confundidas, como a Casa da Loba, que não era de prostituição e sim de importante família italiana. Uma delas, os Scarpelli, ficou na lembrança coletiva pelos belos acordeons que produzia, conhecidos até hoje.
Uma das paisagens que melhor representava o bairro era a Praça Guilherme Vaz de Melo %u2013 também conhecida como Praça da Lagoinha, local onde se trabalhava de dia e se divertia à noite. Bêbados, nômades, trabalhadores braçais, médicos, advogados e também moças de família ali transitavam sem qualquer importuno. A Praça era viva, não dormia nunca.
Localizada entre as duas estradas de ferro da capital mineira: a Central do Brasil e a Rede Mineira de Viação, ainda era beneficiada pela proximidade com a Feira de Amostras, na Rodoviária %u2013 centro econômico e cultural de grande valor para a cidade na década de 50. O destino de quase todos que desembarcavam ali, especialmente aqueles que vinham à cidade por motivos profissionais, era a Lagoinha.
Sr. Baltazar Alves Botelho, ou apenas Seu Baltazar, vive no bairro desde os 17 anos. Sua amiga de longa data, D. Juracy da Silva Ferrari, veio de Diamantina ainda muito nova para habitar a região. Juntos, lembram-se dos amigos e vizinhos, como a família Ferreira Pinto, cujo patriarca tinha uma fábrica instalada no início da Rua Diamantina, o %u201CFubá Mimoso%u201D. Com raízes em Ravena, perto de Sabará, os filhos do Sr. Ferreira Pinto deram o que falar na época por causa de suas peripécias etílicas e brigas entre irmãos. Dona Juracy conta que %u201CBené, por exemplo, foi dono do Clube Fluminense durante muito tempo, e o Ernesto %u2013 o mais feio da família %u2013, era também o mais brigador". Numa casa de homens muito %u201Cbem aparentados%u201D, havia ainda o Elmir, o caçula Elder e o Edir, que foi seminarista. Completando a sequência de nomes com o começo idêntico, havia o Ênio, Enéas e Emir. Nas contas de Dona Juracy e Seu Baltazar havia ainda as três irmãs Efigênia, Ethel e Eli.
No Bar do Hugo, os jovens Ferreira Pinto se reuniam para tomar a apreciada birita, grande desencadeadora das pancadarias. Como o botequim ficava no percurso da volta para casa, o Sr. Ferreira passava pela porta, e nessa ocasião os colegas o chamavam para adentrar o bar. %u201CEra menino se engalfinhando dentro do banheiro, com medo de ser apanhado de copo na mão pelo pai%u201D, conta Baltazar.
Havia ainda o sobradinho da família Nappo, onde o Sr. Ângelo, um italiano muito sistemático, se instalou por longos anos, na esquina da Avenida Antonio Carlos com Adalberto Ferraz. A distinta casa era tão grande que ia até a Rua Diamantina, ocupando todo o quarteirão.
À luz do dia
Diversão nunca faltou para quem frequentasse a Lagoinha, cuja extensão abarcava parte do centro da cidade. Eram famosos o Cine México e o Cine Laquimé (da Avenida Mauá, onde era o antigo cinema Mauá e hoje é a Avenida Nossa Sra. de Fátima), o San Geraldo e Cine Vitória (que ficava na Rua Curitiba com Oiapoque), além do Cine Floresta, que era mais próximo ao viaduto da Floresta e muito freqüentado por jovens e adultos da região.
Alguns comerciantes davam os próprios nomes para seus estabelecimentos, como a família Vaz de Mello e os Ferreira Diniz, que tinham farmácias; e os Ferreira Pinto, com a padaria que ostentava uma grande sacada no fundo, futura instalação do Hospital Samaritano. Havia na Praça a Padaria do Japonês, o Bar Belo Horizonte, o Bar Pirapama, e as casas de caldo de cana e vitaminas, muito apreciadas pelo pessoal. Ali também se encontrava a venda que fazia o famoso caldo de mocotó.
Campeã em movimento, a Feira de Amostras reunia artesanato, cultura e comércio. Além dos visitantes, se concentravam os caminheiros que traziam as mercadorias, pois a Feira era usufruída não somente como um espaço de trabalho, mas também como uma opção de lazer. Dividiam espaço o Clube Paissandu, a Rádio Inconfidência e uma arena onde havia carnavais no gelo e lutas de boxe.
O Mercado da Lagoinha, espaço da prefeitura que hoje é voltado para sediar alguns cursos sociais e promover eventos culturais, era uma verdadeira feira dos produtores. Tinha farmácias, hortifrutigranjeiros, o armazém municipal e um bom açougue. Ainda resta, ao lado do Mercado, a loja de doces, pimenta e laranja da terra.
Próximo à antiga feira se localiza o conjunto popular IAPI (Instituto de Aposentados e Pensões dos Industriários), inaugurado pelo presidente Juscelino Kubitschek na década de 40. Além dos trabalhadores do setor industrial, o IAPI foi residência de algumas personalidades, como o médico e jogador de futebol, Tostão. Hoje o conjunto tem como referência geográfica o bairro São Cristóvão, por causa da proximidade à Igreja que carrega o mesmo nome. Aliás, a questão da divisão de bairros tornou-se um problema, pois por questões políticas e karmas sociais, ninguém sabe mais a que região pertence, com exceção de alguns... %u201CNós temos orgulho de ser da Lagoinha, esse negócio de Colégio Batista, por exemplo, nem existe. É invenção do povo%u201D, dizem Juracy e Baltazar.
Unindo o centro ao bairro, perpassando pelos demais, estava a Avenida Pampulha, hoje conhecida como Antônio Carlos, via dos bondes de época. O barulho era grande e incomodava as famílias, que acabavam se instalando em pontos mais distantes da linha quando podiam. Sobreviviam ao caos sonoro os comerciantes que se espalhavam pelas ruas Itapecerica - uma das mais movimentadas, Além Paraíba, Bonfim e Paquequer. Descendo a Rua Padre Paraíso, as linhas chegavam imponentes do bairro Carlos Prates, desembocando na frente do Mercado.
A lembrança mais marcante do dia a dia dos moradores e talvez a maior paixão coletiva, chama-se Praça Vaz de Mello. Na ocasião de sua implosão foram distribuídos cerca de 100 mil lenços com o samba saudoso de Gervásio Horta, %u201CAdeus Lagoinha adeus%u201D. Muitos corações ficaram arrasados, críticas pipocaram na mesma intensidade das declamações de amor à praça, como as publicadas por Wander Piroli e Plínio Barreto. Como lembra Sr. Baltazar, cantando os versos do músico Adoniran Barbosa, %u201Cfumo pro meio da rua, apreciar a demolição, que tristeza nós sentia, cada tauba que caia, era um nó no coração...%u201D.
Prazeres noturnos
Baltazar não se esquece do no 50 da Rua Diamantina, onde ficava a casa das %u201CMeninas Alegres%u201D. Carinhosamente chamadas assim, os bordéis eram os antros que abrigavam o prazer, numa mescla de doçura e sacanagem das %u201Cmulheres da vida%u201D, onde havia opções para todos os gostos e bolsos.
Os rendez-vous faziam jus ao nome de origem francesa, trazido para a Lagoinha pela inesquecível Madame Olympia. Tudo começou na Rua Guaicurus com a francesa que incutiu uma vida noturna mais moderna a Belo Horizonte, criando ambientes similares aos da França, país rei da boemia.
Era a época dos cabarés, como o Mariana Dancer, e das boates, com destaque para o Montanhês. As casas se perdiam entre a finalidade de servir refeições, ser um espaço para dançar, e oferecer noites de prazeres pagos. Na Avenida Pampulha havia o Automar %u2013 uma espécie de hotel de meninas mais grã-finas, que ficava no piso de cima da loja de peças que dava sentido ao nome do local.
O no 600 da Avenida correspondia ao bordel da Maria Leite, em cima do Bar do Masito %u2013 que nunca fechava e era especialista em massas. Vinda do interior, a mulher de olhos claros e cabelos cor de mel encantou os fregueses que procuravam seu estabelecimento pela fama de distinção e cuidado com qual eram tratadas as meninas dali. Maria Leite era semi-analfabeta, mas aprendeu com a vida os trejeitos de sua graciosidade, a esperteza e a arte de atrair homens que se tornariam fiéis clientes.
Na antiga Rua Rutilo instalaram-se Marieta e Zilá. Já na Caxambu, Afonsinho atraía os camaradas não pelas mulheres, mas pela coleção de vinis 78 rotação que mantinha. Funcionário público e homossexual, Afonsinho era dono das relíquias e de boas refeições.
No ramo de motéis, o Lanterna Azul foi inovador. O restaurante tinha o melhor peixe da região e oferecia ao cliente a possibilidade de entrar com a namorada sem ser incomodado por ninguém, pois havia entre o quarto e o lado público, uma janelinha por onde entrava a comida e saía o dinheiro.
São muitas as casas da luz vermelha, rendez-vous, motéis e casa das mocinhas da vida. Ali, os homens deixaram um pouco de sua vida, puderam realizar algumas fantasias e se apaixonar, afinal, eram, em sua maioria, comerciantes que pernoitavam na cidade, solitários caminhoneiros e incansáveis falastrões que não se esqueceriam jamais de Maria Leite, Zila, Marieta, Olympia e tantas outras formosuras.
Bairro Lagoinha - Ronaldo Ferretti
O Bairro Lagoinha teve seu nome adotado em
função de que ali, nas redondezas do Antigo Mercado, ao lado do Cine
Paissandu, enchia de água quando das fortes chuvas, pois o berço do
Arrudas era muito estreito e não comportava o volume das águas
transbordando-se, a exemplo também da Lagoa Seca no Belvedère, que até
hoje está lá formando uma linda Praça.
Por sua vez também descia muita água pelo córrego que descia a Av.Pedro II, hoje canalizado.
As
enchentes eram tão grandes que atingiam até a rua Guaicurus (a rua do
famoso Montanhez dancing), onde ali se instalavam os maiores
atacadistas, com a Casa Elias Moisés etc. e muitas outras famosas que
faziam o abastecimento de B. Hte.
Eram
construídas barricadas junto ao trilho das portas, com pranchas de
madeira para impedir a invasão das águas e que traziam grandes
prejuízos.
Onde hoje temos a
Av Nossa Senhora de Fátima, era a Rua Mauá e nela passava a linha de
trem central do Brasil, bitola larga com destino ao Rio de Janeiro.
Mas
era na rua Mauá e adjacências é que se concentravam as casas da luz
vermelha, as prostitutas munidas de seu jarro de água e a tradicional
baciinha, para higiene íntima.
Mas o interessante é que todos se respeitavam, divertiam-se e não havia assaltos, matanças, drogas. Todos se divertiam.
A Região era bastante movimentada e era o bairro dos Italianos que vinham para a Capital Mineira em busca de trabalho.
Ali
Vivian os Boschi, os Scarpelli, os Ferrara, os Bonfiogli, os Nochi, os
Ferretti, os Brandi, os Martini, os Fantini, e muitos outros e cujas
famílias ainda moram em Belo Horizonte até hoje.
Tinha-se
ali, onde hoje é a rodoviária, num terreno arredondado a famosa Feira
de Amostras de nossa matéria prima e produtos da época. O prédio de 3
andares acolhia a Rádio Inconfidência, rinks de Box e uma Cooperativa
dos Avicultores, que participei, pois criava galinhas de raça no nosso
terreno à Rua Padre Paraíso, e a Cooperativa tinha uma incubadeira
elétrica que chocava os ovos para os associados e vendiam pintos de 1
dia, o que era melhor negócio.
O
Padre Agostinho Francisco de Sousa Paraíso eleito como deputado pelo
Serro-Norte de Minas que em 16 de novembro de 1867, apresentou na
Assembléia Legislativa Provincial de Ouro Preto, o projeto de lei que
autorizava a mudança da Capital. Ganhou o ódio da população
ouropretana, que não o espancou nas ruas, devido ao respeito que ali o
seu vestuário de sacerdote da Igreja inspirava toda à totalidade da
população, profundamente Católica.
Com
o projeto da Estação Rodoviária, criou-se ali uma polemica e um
problema até hoje sem solução, pois a Av Afonso pena deveria bifurcar
para dar saída Av Pedro II e Antonio Carlos, e agora a Cristiano
Machado.
A Av Afonso Pena também saiu prejudicada pela retirada dos Fícus maravilhosos que se extendiam até o alto da Av do Contorno.
E
isso não é o pior, noticias correram que prefeito Amynthas de Barros
teria proposto o loteamento da área verde do Parque Municipal!
A
Rua Padre Padre foi cortada para dar passagem ao metrô, que por sua vez
aproveitou os trilhos da antiga RFF S/A (Rede Ferroviária Federal S/A).
O interessante está em que,
por lá passava o bonde que vinha pela Rua Tupinambás, e quando passava
por cima do RIBEIRÃO ARRUDAS era através de uma ponte que se chamava
PONTE DO SACO (não sei a origem), e ali tinha uma Casa Comercial de
Material de Construção muito famosa a M.AGUIAR DUMONT a WHITE MARTINS e
mais tarde na esquina com a Rua Rio Gde do Sul a MESBLA VEÍCULOS
revendedora Ford.
Logo que passava entrava na Contorno margeando o Arrudas e subia a Padre Paraíso, cujo calçamento era de paralelepípedo.
Em
frente a nossa casa no nº 119 era um ponto de desvio para aguardar o
outro que descia em direção a cidade. A Av do Contorno era por ali uma
Avenida cheia de lojas.
Ao lado da Casa M Aguiar Dumont morava o Sr.Mário um famoso afinador de pianos.
A Casa da Loba - Edno José Gomes
"Fiz setenta anos e moro desde menino na rua Itapecerica. Meu pai, português, veio para o Brasil em 1928. Naquele tempo, o bairro da Lagoinha tinha um número razoável de casas, mas ainda conservava coisas como a chácara do coronel Thibau, onde era comum os meninos roubarem mangas. Durante os carnavais, realizávamos batalhas intermináveis de confete e o desfile dos Leões da Lagoinha, do qual participavam homens 'sérios' vestidos de mulher.
Dentre tantas lembranças, recordo-me especialmente da 'Casa da Loba', que era uma construção em estilo romano da família italiana Abramo, uma das quatro que eles ergueram, datada de 1930. Levava esse nome porque em sua fachada superior havia uma loba amamentando Rômulo e Remo.
Era uma linda casa. Tinha grades de ferro e pesados portões, além das figuras, que chamavam a atenção de quem passava por ali. Infelizmente, pela burrice dos donos, que moram no Rio de Janeiro, e para a casa não ser tombada pelo patrimônio histórico (em meados dos anos 80 iniciou-se um processo de tombamento do imóvel pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico), foram arrancados os ornamentos. A loba e as águias estão lá dentro, um portão art nouveau também, no andar de cima, como pude constatar alguns anos atrás, quando consegui entrar com o consentimento do porteiro.
Hoje a casa está aí para quem quiser ver, o estado precário, o apodrecimento de suas paredes e a história que vai embora."
Os bons velhos carnavais - Rúbia Piancastelli
Carnaval sempre foi uma festa à parte na Lagoinha. Para ter uma idéia do burburinho local, foi ali que a primeira escola de samba de Belo Horizonte saiu %u2013 a Unidos da Pedreira, direto da Favela Morro da Pedreira. O bairro tinha ruas e avenidas tomadas pelos grandes clubes que existiam, num alegre carnaval com desfile de blocos, matinês mensais e semanais, muitos bailes e namoricos. Um clube acompanhado por todos era o Leão da Lagoinha, que descia a Rua Itapecerica. O Canto da Alvorada também se concentrava nas redondezas, e a festa era feita desde o primeiro dia de carnaval até a quarta-feira de cinzas, a qualquer hora do dia e da noite.
Nos primeiros anos da capital, a comemoração era aberta a todos que circulavam sem problemas pelas ruas, cruzando a Praça em plena madrugada e chegando em casa às cinco da matina. Todo dia tinha matinê e à noite, no centro, aconteciam os grandes bailes. No Fluminense, que ficava na esquina da Antônio Carlos com Adalberto Ferraz, o carnaval era animadíssimo e reunia toda a turma, dos mais acanhados aos mais salientes.
O Clube Atlanta era conhecido pelos seus núcleos desportivos. Seu time de vôlei era comparado em qualidade ao do Minas Tênis Clube, e suas quadras já foram palco de muitas competições. Além dele existiam o Clube Pitangui, o Clube Brasil e o Terrestre Clube, que tinha um esplêndido time de futebol e uma animada festa carnavalesca, que reunia os blocos do bairro. O carnaval no Clube dos Tecelões era muito movimentado, e recebia orquestras de todo o Brasil, como a Tabajara, do Rio de Janeiro. Fora de temporada havia os bailes mensais, também muito concorridos.
Do outro lado da Lagoinha %u2013 e isso significava nas redondezas da Rodoviária ou do lado oposto da Avenida - estava o Paissandu, um clube fechado que ficava dentro da Feira de Amostras. %u201CO carnaval do Paissandu era popular, feito num salão grande. Uma vez fui num carnaval no gelo, uma coisa formidável%u201D, conta Baltazar. Além de confetes e serpentinas, havia as lutas de boxe na arena, muito disputadas e assistidas pelo público. E foi também no Paissandu que Dona Juracy recebeu seu diploma de dançarina de salão.
Casa de gente bamba
Uma marchinha em particular unia todos os moradores do bairro, composta por Celso Garcia e Jair Silva, o %u201CSamba da Praça Vaz de Melo%u201D:
Não há entre nós um paralelo
Eu na Praça Vaz de Melo
E ela tão longe de mim.
E assim, de cachaça em cachaça
Vou vivendo ali na praça
Botequim em botequim.
Sou todo da Lagoinha
Assim como tu és só minha
E eu sou seu bem querer.
Sair dali eu não posso
Este é o problema nosso
É, eu prefiro te esquecer.
Além dessa marchinha havia outras mais. Só o compositor Gervásio Horta, filho da Lagoinha, escreveu mais de 150 sambas, dentre eles o conhecido %u201CAdeus Lagoinha, Adeus%u201D, hino melancólico que relembra os tempos da demolição da Praça.
O que mais fizesse parte do cotidiano da Lagoinha também caía na letra e virava bossa. A valsa carnavalesca dos bondes, por exemplo, citava não só o trajeto como as características populares de cada bairro por onde o transporte passava. %u201CO Bonde Floresta é bom, mas não presta, o Bonde Santa Tereza é uma beleza, e o Bonde Bonfim não serve pra mim...%u201D, canta Dona Juracy, que se diverte ao lembrar dos estigmas que cada bairro carregava até na hora das canções.
O primeiro carnaval de Baltazar
%u201CEm dezembro de 1949 cheguei à capital, na véspera do Carnaval. Vim para ficar com meus primos Jacintinho e o Gervásio, que gostava muito de cantar. Passei meu primeiro carnaval no Paissandu. Jogaram-me lá do meio e eu, recém chegado do interior, fui levado ao baile carnavalesco, fantasiado. Vocês precisam ver... Eu era completamente virgem e inocente, chegado do interior para o baile do Paissandu. É uma das melhores lembranças que eu guardo.
Lembro que o Darci, irmão da Juracy, gostava de fantasiar e sair por aí andando sozinho. Da última vez ele saiu de Jânio Quadros com a vassourinha e tudo mais. Era assim, cada um fantasiava a seu gosto. À noite, na hora dos blocos, todo mundo se concentrava na Lagoinha. Não havia problema, o problema eram as companheiras que não gostavam de dançar com qualquer pessoa. Elas eram mais antipáticas.
A Dulinha, por exemplo, não gostava muito de sair. Era recatada. Já as outras gostavam de escolher os rapazes para dançar, e como naquela época tinha uma carência de moças nas festas que a gente fazia, ao contrário de hoje, os rapazes se sentiam ofendidos quando havia uma recusa. Julieta, Neide, Cassinha, todas elas escolhiam demais na hora de dançar, falavam que o rapaz devia ter estilo %u2013 queriam casar com doutor. E isso dava um problema... Naquela época recusar a dança dava briga. Se recusar e fosse dançar com outro, dava briga maior ainda, pois o sujeito ficava nervoso e dizia: %u2018se não vai dançar comigo, não vai dançar com os outros também%u2019.
Quando começou a aparecer o bolero e outras músicas bonitas, todo mundo se levantava para dançar. Eu ainda me lembro das boas orquestras da época que vinham tocar nos clubes. Havia o Delê, o Djalma (da Rádio Inconfidência), e Sergio Balona. Vinha do Rio o Rui Rei, especializado em rumba, e a Orquestra Tabajara. %u201CAlém deles, tocavam o Nicodemos e a Maria Salomé, grande amiga nossa.%u201D
No embalo das rádios
O veículo de comunicação mais ouvido por todos no Brasil, o rádio, tinha na década de 50 o seu tempo áureo, a chamara Era de Ouro. Em Belo Horizonte, havia a Rádio Mineira (na Rua Augusto de Lima com Bahia), a Rádio Guarani (na Rua São Paulo), e a Inconfidência (na Feira de Amostras), onde hoje é a atual %u201CLojas Americanas%u201D. Os grandes cantores como Agnaldo Timóteo, Cesar Vilela, Clara Nunes, Geraldo Tavares, Otavinho da Matta Machado, se apresentavam ao vivo nas emissoras. Além dos clássicos, todos escutavam a Rádio Novela, que desapareceu.
O Rádio Teatro era espetacular e um grande protagonista foi Seixas Costa, dramaturgo e produtor. Cantoras muito respeitadas, vindas da capital, eram Neide Nancy, Neusa Soares e Maria Conde, grande cantora de tango e mulher de Dr. Antonio Cançado.
As serestas, também apreciadas, fizeram da Lagoinha um lar fixo há mais de 20 anos. O Grupo de Seresta Lembrança ensaia toda segunda-feira à tarde na Rua Ponte Nova, casa de Dona Juracy Ferrari. O grupo, que se renova sempre, surgiu como uma homenagem a Dona Helena Marcelino, feita por seu marido Sr. Nicomedes Marcelino. Na época das bodas de ouro, a turma do coral da igreja aderiu à idéia da serenata e ensaiou sob os comandos do Sr. Nicomedes e Dona Juracy. A partir daí todos gostaram tanto de participar do grupo que não pararam de cantar e tocar juntos. E a lembrança não fica só no nome, mas na saudade das companhias que já se foram, como Nair de Paiva, Hilda Pisani e Julia Vaz de Melo, conta com carinho Dona Juracy.
João Gilberto foi jantar na Lagoinha! - Roberto Guimarães
Uma das vezes em que o João veio fazer um show
em Belo Horizonte, durante uma grande festa no Iate Clube à beira da
lagoa da Pampulha, aconteceram alguns fatos engraçados que retratam a
maneira diferente de ser do cantor e que merecem ser contados. O show
era num sábado à noite e João e Astrud chegaram do Rio pela manhã,
ficando hospedados no Hotel Normandy, no centro da cidade. Logo no
começo da tarde, eu e Pacífico fomos ao hotel para estar com eles em
sua curta estada na cidade, passando uma boa parte da tarde conversando
e principalmente ouvindo o João cantar e contar as novidades. O show
estava programado para as dez horas e combinamos apanha-los no hotel lá
pelas oito, para jantar e seguir em direção ao clube da Pampulha.
Chegando ao hotel na hora combinada, no fusquinha do Pacífico, saímos
procurando um restaurante para jantar, com muitas poucas opções
naqueles idos de sessenta, pois a vida noturna de Belô era restrita ao
centro da cidade, com poucas casas que funcionavam à noite e que
pudessem agradar ao João e Astrud. Depois de várias paradas na frente
de alguns restaurantes, nas quais o João nem descia do carro, olhando
desconfiado pela janela e dizendo"não gostei desse, esse está muito
cheio" e outras refugadas deste tipo, começamos a ficar preocupados,
pois o tempo ia passando, quase chegando a hora do show e nada de
jantar. Resolvemos enfim nos dirigir em direção a Pampulha, pela
Avenida Antonio Carlos, a ver se descobríamos alguma coisa.
Para
quem conhece Belo Horizonte, principalmente àquela época, sabe que
aquela área do bairro da Lagoinha e Cachoeirinha era uma região muito
simples, povoada apenas de pequenos bares e botequins, portanto eram
muitas poucas as chances de conseguirmos jantar aquela noite. Até que
passamos em frente de um restaurante chamado Mazito , que era
bastante conhecido pelos freqüentadores da noite e tinha uma
peculiaridade: cada mesa era cercada por um reservado de madeira a meia
altura e com uma porta de vai-vem, e foi lá que finalmente paramos, o
João gostou do lugar porque sua privacidade estaria totalmente
preservada. Agora a dificuldade era encontrar no cardápio o que
agradasse a ele, que queria uma comida mais leve, propícia a quem iria
cantar dali a pouco. Até que finalmente pediu ao garçom uma sopa, que
tomou devagar, tampando o nariz a cada colherada, dizendo que "era para
não engolir ar para não atrapalhar na hora de cantar".
Pouco
antes de começar o show, já nos bastidores do palco onde tínhamos
chegado atrasados, o João me pediu que arranjasse um Dó, pois queria
afinar o violão no diapasão, o que não pude atender, pois infelizmente
não possuo ouvido absoluto. Mas o que importa é que o show foi um
sucesso, que tivemos o privilégio de assistir e que hoje me permite
contar, nesta deliciosa historinha que faz parte do meu acervo de boas
memórias. E de lá fomos para a casa do Pacífico, onde ficamos até de
madrugada conversando e escutando o João cantando e acompanhando a
Astrud em algumas músicas, com uma voz e interpretação maravilhosas e
que não conhecíamos, uma delas a inesquecível There will never be another you.