Maria Luiza S. Leite Gaetani. Ponto de Sombra
Olhei para o visor, 087. Era o número de minha senha. Dirigi-me ao guichê, carregando meus documentos, algumas fotos e uma sacola com peças de minha produção. A mocinha abriu a sacola, olhou e sorriu. São bonitos, disse. Deu-me alguns papéis para preencher, examinou meus documentos, perguntou-me se eu mudara de profissão, se teria disponibilidade para ensinar o ofício. Quando tentou acessar o computador, pediu-me para aguardar, o sistema havia saído do ar.
Levantou-se em direção ao scanner, olhou distraída para fora da sala, e indagou-me sem esperar resposta, com quem tinha aprendido o ofício.
Neste instante, num ponto qualquer da Rua dos Caetés, eu espreitava na sombra da vitrine de uma perfumaria, o sabonete de bola que usávamos dependurado na corrente da pia de nossa copa, enquanto minha mãe endireitava o laço desfeito de minha trança.
Pegou-me pela mão e atravessamos calmamente a Rua dos Caetés, dirigindo-nos ao Centro das Rendas.
Uma vez por mês saíamos para comprar aviamentos, e começávamos pelo Centro que durante muitos anos foi para mim um mundo de pequenos e valiosos objetos que via se transformarem magicamente nas mãos de minha mãe em peças finas e delicadas.
"Você pode ir escolhendo as rendas", dizia ela, que espero Alice para me atender. Eu, imediatamente, corria para o fundo da loja no balcão da direita, onde se encontravam enormes catálogos de rendas francesas, de linho, pontos russos, gregas, sutaches, sianinhas, bordados ingleses. Tamanha era minha intimidade com os aviamentos, que sabia o que era antigo, o mais em conta, os que haviam acabado de chegar ou eram extrema novidade.
Corria o dedo, sentia a delicadeza das rendas, a sutileza dos desenhos e das formas, dos bicos aos entremeios e passa-fitas, já acenando com minhas preferências. Nem sempre sabia se o preço seria conveniente. Quando ela concordava, eu voltava feliz para casa, apressando-me em abrir o pequeno pacote, conferir e apreciar novamente as jóias raras.
"Cada vez os pacotes são menores, e as quantias maiores, reclamava".
Passávamos depois para as fitas de cetim dos dois lados, as de veludo, francesas, e as listradas ou coloridas que arrematavam a ponta de minhas tranças, combinando com os vestidos.
Havia o momento das caixinhas de botão: madrepérolas, pequeninos para roupas de bebê, grandes e sofisticados para casacos de senhoras, transparentes de camisaria, marrons ou cinzas, para reposição nas calças de meu pai e meu avô. Dali aos colchetes de gancho e pressão, alfinetes e agulhas, de mão, de máquina de costura, canelinhas, entretelas para cintos, e barbatanas para os corpetes. Tudo olhado e examinado por ela com cuidado e competência. Os retroses coloridos, da marca Corrente, saltavam de dentro das gavetas como pedaços de arco-íris, num dégradé lindíssimo! Ela começava por pedir o básico %u201CCorrente Marrom%u201D, que nunca entendi porque não era marrom, mas a clássica e robusta linha branca. Vinham depois as de bordar, em novelinhos, em meadas, e a famosa Ilha da Madeira, que, quando saiu de circulação, deixou-nos ilhadas.
Do Centro das Rendas, completávamos as compras na Casa das Rendas, esquina de Caetés e Rio de Janeiro, ou na Principal.
Dali, direto à Casa Rolla,onde Tião nos esperava para a compra dos tecidos : linhos Braspérola,cambraias de linho,cambraia pele de ovo,( para as roupas de bebê), sedas, tafetás, chiffons,organzas e veludos, tricolines para as camisas do meu pai, cretones para as roupas de cama, e os tradicionais para forro como morim, alpaca e o famoso failete cujo farfalhar, quando cruzava as pernas, me dava ares de dignidade e importância.
Meu aprendizado aumentava a cada dia, e foi crescendo em mim o prazer de freqüentar armarinhos e lojas de tecido, o que viria a ser uma antecipação do meu prazer e admiração diante do Grande Bazar em Istambul, e do delicado rendado das janelas e paredes do Alhambra.
Ela começara a costurar aos treze, sem nunca ter feito cursos, em tentativas de erro e acerto, para ajudar a vestir os irmãos mais novos. Mais tarde, tornou-se costureira oficial da família.
Quando havia festas, sempre de última hora, eu e minhas tias implorávamos por vestidos novos. Negava sempre ao primeiro pedido, mas com alguma insistência acabava pilotando a máquina.
No final da tarde três blusas e três saias, um buscopan na veia pelas dores renais, e saíamos nós três, batendo no peito:
"mea culpa mea culpa, mea culpa".
Minha iniciação deu-se num primeiro momento com o chuleado nas costuras de mão, e escama de peixe nas bainhas dos vestidos. Passei daí à bainha de laçada, ao pregamento das rendas com ponto Paris, ao bordado cheio, rococó, aplicações, e o delicado ponto de sombra, que eu desenvolvia com perfeição.
Nossa caminhada mensal incluía ainda o Mundo Colegial, para repor as meias três quartos, marca Bichinho, e a cor de carne, (do uniforme de gala), exigidas pelo colégio. No Grande Camiseiro, meias ou lenços para meu pai e meu avô.
Alcançávamos dali a Av. Afonso Pena, Ed. Mariana, onde nos aguardavam as saias deixadas lá para plissar.
Quando havia tempo, íamos ver a vitrine da Sibéria, e, na Sloper comprar "White Magnólia", seu perfume predileto.
Se a passada na livraria Rex já estava concluída, algum livro, caderno escolar, borracha nova, novo estojo de latinha, chegava a hora de retornar, não sem antes comermos alguma coisa.
Nossas incursões gastronômicas não passavam de um sanduíche americano, repleto de batatas fritas, nas Lojas Americanas, ou um suculento pão quente com pernil da padaria Boschi, cujo cheiro invadia o quarteirão dos Tamoios, quando o relógio da igreja São José batia seis horas. Apenas com meu pai íamos à Camponesa para o churrasco nas compridas caneletas, ladeados de farofa, arroz, molho vinagrete, e o incomparável pão de queijo.
Papai, como gostava de quebrar regras, com seu jeito afável e simpático ,levou-me certa vez ao Tip Top, lugar de freqüência masculina, para que eu provasse a inesquecível salada de batatas com salsichas e mostarda preta. Inesquecível!
Como a vida naquela época não era banalizada, e tinham acabado de retirar o bonde de nossa rua, não temíamos andar a pé, ao entardecer, os vários quarteirões, até a chegada em casa. Morávamos quase no Barro Preto, onde ainda se ouvia o barulho do trem para além do rio Arrudas.
Aos domingos, se não íamos à missa das crianças na igreja de São Sebastião, ou às obrigatórias do colégio, subíamos até a igreja de São José. O padre com carregado sotaque alemão nos fazia tremer nos sermões, quando bradava com voz poderosa:
"quando você morrer e chegar ao céu, Deus perguntará onde você foi aos domingos, e se você disser que foi à missa na igreja São José, você entrará no reino dos céus. Mas, se você disser que foi à matinê no cinema Metropol, Deus dirá: para o inferno"! Imediatamente a igreja ardia em chamas com a presença de Satanás. Nossas bochechas de adolescentes, filhas de Maria, ardiam igualmente, entre risinhos e cochichos, pois pesavam as escorregadelas pecaminosas, ainda não absolvidas nos confessionários.
Outros domingos, eu e minhas colegas fazíamos pactos com o Demo, indo enfrentar a fila da matinê no cine Metrópole. Passávamos o dia sonhando com os astros da Metro. Eram domingos de puro prazer!
Fui educada em colégio de freiras. Devia ter boa educação, modos, recato, conseguir um diploma de professora, e me preparar para o casamento e a família. Foi este o destino da maioria de minhas colegas. Mas, num difícil golpe para minha mãe, eu queria mais da vida, e numa certa manhã, ouvi-a chorar, dizendo a meu pai que nunca pensara em ter uma filha que fizesse faculdade.
Assim, apenas com aquiescência dele, fiz Letras, apaixonei-me pela literatura, recebi m diploma e comecei a dar aulas. Um grande distanciamento ocorreu entre nós. De temperamento forte e desnecessário orgulho, ela evitava dialogar comigo, porque certamente, dizia, eu teria mais argumentos que ela.
Com o diploma de Psicologia, então, instalou-se um profundo abismo entre nós. Nossas conversações não eram mais tecidas com a docilidade das rendas, e a maciez do veludo. Nossa gramática de estrutura colorida e refinada começava a esgarçar e perder o colorido.
Tentei certa vez entrosá-la com um grupo de artesanato, mas preferia fazer seu tricô, sozinha, na solidão da casa.
Muito tempo depois entendi que os bordados e a costura eram a única possibilidade de nosso reencontro.
Mas não houve tempo para refazermos a mágica tessitura de nossas artes. Não houve tempo de retornarmos à Casa Rolla e discutirmos o caimento dos tecidos, a beleza das cores da moda. Além disso com a chegada do prêt à porter , os armarinhos , como nós, se estreitavam, perdendo cada vez mais espaço .
Súbito ,a mocinha retornou,dizendo: "o sistema voltou, podemos continuar".
Fez mais algumas perguntas, entregando-me uns papéis.
A senhora tem aqui seus documentos, e seus papéis de inscrição. É só pagar no caixa, e esperar o boleto para o pagamento mensal.
Agradeci, levantei-me, enrolei os papéis da inscrição como um canudo, dizendo para mim mesma:
Mãe, agora sou artesã.
Ela respondeu sorrindo
"Era o diploma que faltava!"
Jorge Fernando dos Santos. Povos de todo o mundo
Belo Horizonte fez festa para comemorar seus 110 anos. Entre defeitos e virtudes, a cidade planejada e construída para ser a capital de Minas tem muito a agradecer aos imigrantes que aqui chegaram, trazendo na bagagem muito de sua cultura.
Como não reconhecer, por exemplo, a contribuição da colônia italiana, que aqui se fixou no início do século 20, formando os bairros do Prado e Barro Preto, fundando o clube Palestra Itália, o hoje consagrado Cruzeiro Esporte Clube?
Foram os italianos que inauguraram na cidade as primeiras grandes padarias, algumas delas depredadas durante a 2ª Guerra Mundial pela fúria de intolerantes que preferiam fazer a guerra longe dos campos de batalha. Foi também com eles que aprendemos o gosto pelas massas e pelo vinho, bem como a afinar os ouvidos para o bom-gosto musical. Também introduziram na cidade a arte da marmoraria, que resultou nas belas esculturas que fizeram do cemitério do Bonfim uma galeria de arte a céu aberto.
Tampouco podemos deixar de louvar contribuições de portugueses, alemães e muitos outros povos que marcaram presença na história da cidade. Com a comunidade sírio-libanesa, que abriu suas lojas na Lagoinha e na Rua dos Caetés, aprendemos a admirar os tecidos finos e coloridos e a saborear o quibe e a esfirra.
Com os judeus descobrimos o requinte da ourivesaria e a importância do comércio varejista. Povos do Oriente também contribuíram com a antiga Cidade de Minas, o que explica o sucesso de restaurantes de comida chinesa, japonesa e tailandesa em BH.
Por sua vez, os ingleses chegaram com a estrada-de-ferro e exploraram ouro na vizinha Nova Lima. Três gerações de proprietários da Mina de Morro Velho foram donos da fazenda Jagoara Velha, no município de Matozinhos, onde introduziram a raça de cães fila brasileiro.
Com os súditos da rainha aprendemos expressões que se tornariam tipicamente mineiras, como uai (derivada da interrogação why? = por quê?) e trem, de train, que se refere à locomotiva e seu conjunto de vagões. Mais que isso, aprendemos esse jeito aristocrático de ser, que nos faz desconfiar até mesmo do tempo.
Também não podemos esquecer a contribuição dos povos da África. Afinal, devido ao ciclo do ouro, Minas foi o estado que mais recebeu escravos negros. Apesar do cativeiro, essa gente trouxe alegria, sensualidade e muito tempero para a nossa cultura, influenciando inclusive nossa religiosidade e o próprio barroco mineiro. Basta dizer que mestre Aleijadinho era seu descendente direto.
Mas há que se louvar principalmente a sutil contribuição dos verdadeiros donos da Terra Brasilis, cujos nomes batizaram as ruas aimorés, guarani, guajajaras, tamoios, tapuias tupinambás e muitas outras por onde passamos.
Jorge Fernando dos Santos é jornalista, escritor e compositor. Sua obra mais conhecida é Palmeira seca, romance ganhador do Prêmio Guimarães Rosa e adaptado para teatro e minissérie da Rede Minas. Também é autor do livro Caiçara, lançado em agosto de 2008 pela coleção BH . A Cidade de Cada Um.
www.jorgefernandosantos.com.br
Lucia Helena Monteiro Machado. Dois Lugares que Deixaram Saudades
Belo Horizonte é famosa pela quantidade de barzinhos. É como se fosse a praia dos mineiros. Costumo dizer que é nisto que ela se parece com Paris. Também a chamada Cidade Luz tem um bistrô em cada esquina. É lá que os parisienses vão, para encontrar os amigos, beber um simples café ou ler o jornal. Penso que foram os franceses que inventaram o jornal de formato menor, muito prático porque, quem agüenta abrir um jornal do tamanho dos nossos numa mesa de café?
Bares abrem, bares fecham, outros mais tradicionais ficam. Alguns deixam saudades, outros não. Dois muito especiais ficaram nas minhas boas lembranças. De estilos completamente diferentes, mas ambos muito originais.
O primeiro deles foi o MARCELÃO. O nome foi consagrado pelo uso porque, na verdade, nunca teve uma placa, nunca foi %u201Cbatizado%u201D. Seu dono era um dentista chamado Marcelo Teixeira da Conta, vulgo Marcelão. Daí o nome. Bom cozinheiro, homem simpático, bom contador de casos, principalmente de sua terra, Santa Luzia, abriu o pequeno restaurante na Serra, em meados da década de 70. Era uma pequena sala, anexa à casa de Carminha, sua cunhada. Toda a família estava sempre lá, não só trabalhando, mas também se divertindo: Marcelo, Ieda, Carminha, filhas, genros, noras... Cheguei a sugerir o nome de %u201CBar, doce Bar%u201D.
O cardápio, reduzidíssimo, era de primeiríssima qualidade: Frango com catupiri, rosbife com batata no murro e o famoso cabrito ao molho de vinho. Marcelo, sempre por lá papeando com os fregueses ficava furioso quando pedíamos o rosbife bem passado: %u201CVocês odeiam carne, porque pedir este prato?%u201D Os clientes variavam pouco. Quando chegava um novo Marcelo não resistia. Ia volteando, se aproximava, puxava assunto e dali a 5 minutos sorria satisfeito: tinha achado um parente. Coisa de mineiro que adora puxar parentesco. Mais um caíra na rede e voltaria sempre.
Depois de algum tempo, a fama da comida tendo se espalhado, foi preciso mais espaço. Outra sala foi aberta e depois mais outra. Isto sem que a qualidade da comida caísse. Também o ambiente continuava a ter o mesmo aconchego sem nenhum luxo. As grandes atrações eram a comida e o papo do dono.
Muitos intelectuais, artistas e cantores que vinham a Belo Horizonte eram levados a provar a que era considerada, com razão, a melhor comida do lugar. Começaram a deixar, na parede, sua assinatura. Por lá tinham passado Gonzaguinha, Elis Regina, Vinicius de Morais, Caetano Veloso e não sei quantos mais. Eu mesma levei, certa feita, Affonso Romano de Sant%u2019Anna, Marina Colasanti e Ivan Ângelo que deixaram sua assinatura na parede da fama. Era um toque de charme extra.
Pois bem, um dia a faxineira habitual não pode ir e mandou uma substituta. Carminha recomendou que fizesse uma boa limpeza no restaurante. Com outros afazeres, custou a ir verificar o serviço. O restaurante continuava muito sujo, mas a parede limpinha.
A festa do aniversário de 70 anos do Marcelo, na casa onde ele morava, foi uma comemoração inédita: começou às 10 horas da manhã e foi até as 2 da madrugada. Os amigos não paravam de chegar, pois não tinham o menor compromisso com o horário. O aniversariante curtia cada minuto.
Marcelo morreria não muito tempo depois e, sem ele, o restaurante perdeu metade do seu encanto. Não era a mesma coisa ir lá e não encontrá-lo. Foi fechado, deixando um gosto de saudade nos nossos paladares.
O outro foi, sem dúvida, o melhor bar com musica ao vivo da cidade. O segredo também estava no dono Bob Tostes. Se chamava BUBBLE%u2019S. Também pequeno e aconchegante ficava na Savassi, na rua Antonio de Albuquerque.
Roberto, ou melhor Bob, conhecido pelo seu bom gosto musical, imprimiu no lugar a sua marca. Ele mesmo e sua irmã Suzana, ótimos cantores, se apresentavam acompanhados por um ótimo conjunto. Coisa importante: música na altura ideal que não interferia na conversa. Os tira-gostos eram excelentes, a cerveja sempre gelada e os freqüentadores gente educada, o que hoje se tornou um problema. Parece incrível dizer uma coisa dessas, o que parece ser o óbvio, mas não é. Os atuais bares de música ao vivo costumam ter repertório de péssima qualidade, um som ensurdecedor e platéia absolutamente indisciplinada e mal educada.
Ah! Que saudades do BUBBLE%u2019S. Meu marido e eu costumávamos freqüentar duas vezes na semana, no sábado quando Bob e Suzana se apresentavam e às quintas-feiras quando tocava um excelente conjunto chamado MG 4. Juarez Moreira começou sua carreira no BUBBLES. Os músicos visitantes compareciam quando estavam na cidade. Lá estiveram Ivan Lins, Victor de Assis Brasil entre outros. Acabavam dando uma %u201Ccanja%u201D. Enfim, era o ponto de encontro da boa música, tanto a brasileira quanto a americana, já que Bob sempre foi um apaixonado pelos filmes musicais.
Também o BUBBLE%u2019S tinha uma freqüência familiar. Helena, mulher do dono cuidava do caixa e os primos, sogra, tios etc... costumavam estar por lá. Podíamos ir sozinhos que teríamos certeza de encontrar um conhecido. Como no caso do Marcelo, o mesmo se podia dizer da simpatia do dono, sempre solícito e amigo de um bom papo, principalmente sobre música e cinema.
Parece (e é) coisa de mineiro esta história de ambiente %u201Cfamiliar%u201D, o gosto de estar junto a pessoas conhecidas, que partilham o mesmo gosto. Mas como era bom! A cidade cresceu demais. Dificilmente encontramos um amigo ou conhecido nas ruas, nos shoppings, no cinema, nos concertos... Temos a impressão de estar numa terra de ninguém. Atualmente prefiro chamar poucos amigos para bater papo na minha casa. Alguns tira-gostos e uma boa bebida fazem um ambiente perfeito para acompanhar uma conversa amena. Se o MARCELÃO e o BUBBLE%u2019S continuassem a existir certamente continuaria a freqüentá-los.
No entanto, falo de uma época que já me perece distante, os anos 70 e o começo dos 80, quando a troca de idéias era um habito saudável e comumente praticado entre amigos. Dizem que a música altíssima nos bares de hoje não incomoda porque a juventude atual está tão desinformada e alienada que não tem assunto, não precisa conversar. Não gostaria de acreditar nisto, mas...
Lucia Helena Monteiro Machado, mais conhecida como Duda, é formada em Psicologia. Tem vários livros publicados, como Paris para Brasileiros (Editora Ática), Conheça Barcelona (Ed. Nova Alexandria), Conheça Florença (Ed. Nova Alexandria), A filha da paciência - na época da Geração Complemento (Ed. BDMG) e Mulheres Incríveis e outros escritos (Ed. Armazém de Idéias). Colabora com matérias para o Caderno Pensar, do jornal Estado de Minas, e para a revista da Academia Mineira de Letras. Além disso, ministra cursos de História da Arte.
dudacd@terra.com.br
Elizabeth Fleury. Lembranças do Futuro (sobre José Maria Cançado)
Tenho uma lembrança muito delicada do Zé Maria Cançado freqüentando a república que tivemos ali na avenida do Contorno, pertinho da Igreja de Santo Antônio. A Wanda (que já era atriz e estudante de Francês da Fale-Ufmg) e o marido, Corélio (Marco Aurélio Cozzi, à época dono de um laboratório de análises clínicas em Contagem), eram nossos protetores e moravam na casa atrás da gente. Nossa república seria aquilo que a gente chamava de barracão, não fosse ser a casa principal, ainda que meio abandonada, no centro de um terreno arborizado. O Zé Maria era namorado de uma das amigas que dividia a república conosco, que me permito não dizer o nome visto ser uma questão pessoal. Ela fazia jornalismo na PUC-Minas.
Tudo isso foi em 1976 e eu havia há pouco sido convidada para me juntar à Elma Heloisa Almeida e ao Eustáquio Trindade Netto, que começavam a criar o protótipo do que seria o Jornal de Casa, do surpreendente e saudoso José Costa, proprietário do Diário do Comércio. A experiência marcante que vivemos ali ainda será relatada um dia. Com emprego como jornalista (ainda estudante na Fafich, o que a lei da época permitia), com carteira assinada e tudo o mais, pensei que poderia encontrar uma alternativa para morar com amigas que compartilhavam preocupações e inquietações dos nossos verdes 21 anos.
Então, juntamos um grupo e aluguei (tendo meu democrático e entristecido pai como avalista), uma pequena casa velha em um quintal com mangueira e tudo o mais, pertinho da Fafich de então, que funcionava na rua Carangola, no Santo Antônio.
Solidário e afetuoso, discreto, mas animado, assim me lembro do Zé Maria. Ele foi a primeira visita que recebemos na república. Chegou logo na tarde do sábado, no mesmo dia de nossa mudança. Querendo ajudar a namorada, apareceu justo na hora do chorinho na vitrola. Ainda me lembro de seu riso e do ar divertido quando nos flagrou dançando com as vassouras ao som de %u201CBrasileirinho%u201D, em plena faxina na casa velha de amplas janelas de madeira por onde se viam as árvores e as sombras do quintal. Ele ofereceu ajuda e celebrou conosco a idéia de nos unirmos em uma república meio campestre, bucólica, bem diferente dos %u201Capertamentos%u201D de estudantes da época.
Todas trabalhávamos e estudávamos. Vida dura. A Beth Cataldo já trabalhava na sucursal mineira da Folha de São Paulo, chefiada pelo Mauro Santayanna (que bravo e combativo chefe!). Fazia jornalismo na PUC-Minas à noite. A namorada do Zé Maria iniciava sua carreira na vida acadêmica, tal como ele. Naquela época já havíamos criado o jornal independente De Fato, ao lado de Durval Guimarães, Aloísio Morais, Fernando Assumpção, Mirian Crystus, Kenneth Albernaz, Flausina Márcia e um grupo grande.
Naquele dia de 1976, quando fazíamos a mudança de nossas pequenas coisas e grandes esperanças para a casinha velha da avenida do Contorno, o Zé Maria nos chegou como um anjo. Os ânimos estavam meio exaltados. Foi quando a Beatriz Afonso (que fazia jornalismo na Fafich e foi para a nossa equipe do Jornal de Casa) teve a idéia de ligar sua vitrolinha azul e branca e colocar um chorinho em comemoração ao primeiro dia de vida no novo "lar". Uma água furtada que depois revelou suas goteiras em uma noite de muita chuva e risos nervosos de quatro moças universitárias que queriam viver com independência.
A música colocada pela Beatriz Afonso foi a idéia luminosa para acalmar os ânimos. Eu havia tentado tudo para fazer a idéia da república vingar, mas a casa velha era o podíamos pagar. Consegui dos documentos para o aluguel ao velho fogão, doado por minha mãe, e alguns poucos móveis de lojas de usados onde poderíamos nos acomodar. Dava explicações às garotas, aplacando a ira e a insegurança de todas diante da falta de conforto e apontava as vantagens de uma vida autônoma e junto à natureza %u2013 o que, diante do horrível banheiro, externo ninguém pensava em encarar. Estávamos acostumadas a uma vida em família, mas minha urgência em sair do controle e do clima de discussões sobre a autonomia tantas vezes reivindicada, ganhavam de 10 x 0 dos evidentes problemas que a casa mostrava ter.
Dos amigos que freqüentavam nossa república, Zé Maria Cançado era sem dúvida o intelectual por excelência. Muito jovem, 24 anos, mas já exibindo o olhar rigoroso e ao mesmo tempo generoso, que revelaria em seus livros mais tarde. Ele nos informava sobre grandes autores da literatura e da teoria. Nós éramos um grupo interessado em tudo e que absorvia rapidamente as informações. Nas horas de lazer, nos finais de semana e à noite, passávamos estudando os teóricos, lendo os clássicos de literatura brasileira ou estrangeira, discutindo os grandes cineastas. Isso nos ajudava a compreender o que se passava na (difícil) vida política nacional, coisas que aconteciam mais nos bastidores do que na vida pública. Também nos ajudava a entender as opções (difíceis) feitas por conhecidos ou amigos, muitos clandestinos, exilados ou gente de quem ouvíamos falar e por quem fomos às ruas gritar por liberdade e justiça.
O tempo era escasso, mas achávamos hora para tudo, inclusive para celebrar a vida e a juventude. Já tínhamos criado o grupo feminista, em 75, num histórico debate organizado por Mirian Crystus, Beth Almeida, Beth Cataldo, e por mim, %u201CMulher Urgente%u201D (não tive criatividade para sugerir título melhor), que aconteceu num DCE-UFMG totalmente lotado %u2013 ali na rua Gonçalves Dias onde agora funciona o cine Bela Artes. Além dos compromissos com o grupo feminista, atendíamos também os apelos das mulheres do Movimento pela Anistia. Quando a crise política apertava e alguma coisa mais grave ocorria, Da. Helena Grecco liderava a turma para a rua, e lá íamos todas nós. Era o cotidiano %u201Csuave%u201D que a gente vivia na época. Por estas e outras era sempre bom ter por perto alguém como o lúcido Zé Maria Cançado, para ouvir suas boas palavras e absorver um pouco de sua sabedoria e sua calma.
Por aquela casinha quase em ruínas (hoje diríamos %u201Cpatrimônio histórico não restaurado%u201D) passaram muitos intelectuais, músicos, atores, jornalistas, ativistas políticos, escritores, amigos que vinham a Minas para reuniões reservadas e precisavam de abrigo. A maioria era muito jovem, mesmo os que exibiam ares de mais velhos pelo peso das responsabilidade ou preocupações. Tinham planos, esperanças e futuro.
As conversas do Zé Maria comigo %u2013 ele passava por lá todos os sábados para buscar a namorada %u2013, acabavam sempre em literatura, claro. Já tínhamos criado a Revista Silêncio, de literatura e cultura, outro periódico independente da época. A idéia toda foi da Lúcia Afonso, que fazia Psicologia na Fafich, em 1974. Tive a honra de assistir Lucinha criando o belo poema %u201CSilêncio%u201D %u2013 na penumbra da sala da casa de seus pais. O poema circulou na capa da revista no. 1, explicando a publicação aos leitores .
Quando a gente se mudou para aquela república, nós acabávamos de incorporar ao grupo de Silêncio um jovem e talentoso repórter da sucursal mineira do Jornal do Brasil, Luiz Fernando Emediato. Nosso amigo à época se chamava apenas Luiz, e não se importava em dormir nas duras acomodações de repúblicas de Ouro Preto para vender a revista de mão em mão. O estilo editorial e olhar profissional já mostravam quem seria Emediato tempos depois, à frente de sua editora Geração Editorial, em São Paulo. Eu disse depois? Bem, depois quer dizer no futuro, um futuro que é agora, no presente.
Foram estas coisas de que me lembrei ao receber a notícia da morte do querido Zé Maria Cançado. Lembranças de um tempo em que sonhávamos com o futuro. Ao retornar para Minas, mesmo perguntando muito por ele, a vida não nos reuniu para lembranças. Não pude dizer adeus pessoalmente ao amigo. Mas um dia o farei, Zé Maria, para nos lembrarmos do futuro.
Elizabeth Fleury é escritora e jornalista
elizabethf@cpqrr.fiocruz.br
Alcione Araújo. A Cidade que Resiste em Mim
Meu corpo, ainda bastante para uso diário, ancorou-se no Rio de Janeiro; meu coração erra pelo mundo, e nunca aprende; minhas três almas vivem em turbulência frenética. Arrasto-me pela vida, tentando colar as partes. Em vão. Sigo partido, feito de ausências mais que presenças, de perdas mais que ganhos. Dividido assim, impossível perceber o que sou não tivessem minhas almas como pouso esta cidade, entalhada na montanha, que aprendi a amar, mas não logrei entender. As almas se entendem em Belo Horizonte, que hoje faz aniversário; bom momento para discutir a nossa relação.
Embora pareça única e a mesma, a cidade é uma para cada habitante ou forasteiro. Por mais tempo e mais longe que se viva, não se apaga a terra que se ama. Ela nos segue e persegue, na memória, no coração na imaginação, entranhada nas nervuras. Uma Belo Horizonte pessoal, inconfundível e distinta da sua, existe, e resiste, viva em mim.
O Carlos Prates da infância atiçava à aventura. Da casa entre árvores, via-se o cemitério e ouvia-se a sirene anunciando enterros. Os vitrais de São Francisco encantavam o menino entediado com a missa. No terreno baldio, o campo de pelada avivava sonhos. Lá fiz amigos da vida inteira. A vizinha me vendou os olhos, e senti pela primeira vez a estranheza de outra língua movendo-se na minha boca. Restam comigo as enigmáticas palavras do bêbado após o trago: %u201CNada melhor do que a vida!%u201D Mas pressentia aflições. Olhava-se muito, espiava-se mais, vigiava-se sempre. Corpos ardiam sob camisas-de-força. Cochichos, mexericos, apreensões. Paixões se consumiam no pânico do pecado, conflitos surdos, loucura silenciosa. E nada deixava de acontecer.
A adolescência me encontrou no centro da cidade. Nessa fase, o centro era eu. Descubro uma cidade ondulada, montanhas acima e abaixo, e o mistério nos nomes das ruas: poetas cruzam com índios, estados vigiam e o limite os contorna. Bairros, que não distingo, têm nomes lindos: Renascença, de sabor italiano; a Concórdia, parisiense, e o mineiríssimo Sagrada Família. Mas a paixão é o Parque Municipal - merecia nome, a maravilha -, com 8 mil espécies e árvores de um século. Poucas quadras Rua da Bahia acima, a Biblioteca Pública. E o mundo se descortinou como varanda sobre o mar. As montanhas nadaram para longe em calmas braçadas. Mergulhei nas metáforas do mundo em páginas, volumes e estantes. BH era perfeita para se crescer. Habituè da biblioteca, a Praça da Liberdade virou meu quintal. Lendo entre árvores e passarinhos, aprendi que minhas viagens eram sozinho, não solitárias. Que não se escolhe as próprias dores e alegrias, nem a vida ou o nascimento. Não nasci em BH, se fiquei foi por amor. Ela acolheu o meu amor, e nos amamos como apaixonados. Ainda a amo, e ela a outros.
O tempo é um rio caudaloso; não se nota, mas passa. Com a idade, a cidade se entregou a mim. Vivia entre o São Lucas e a Cantina do Lucas, o teatro Marília e o Minas Tênis Clube. Anti-barroca, BH é jovem, planejada, geométrica, nua: mas %u2013 imperdoável! - não tem gaivotas para aliviar os gritos urgentes dos sonhos. Se ela cresce, o carro a encolhe. Não se vive num bairro, mas num prédio. Fala-se em pista, não em rua; de sinais, não de esquinas; de postos de gasolina, não de bares. Nos templos de mármore e fumê, nada mudou quando mudei do Gutierrez para o Sion. BH não é o doce lar que aparenta; sua paz congela desejos. Nos corações queima a chama que se recusa a apagar. As pessoas são gente boa, mas ninguém examinará com lente as cláusulas de prazer do seguro de vida. A poesia é comovente, mas não faz nada acontecer. No meu silêncio, aprendi a compaixão e a rebeldia. Há que amar esta cidade, mas há que partir.
Certo de que aprendera a ouvir o vento e dialogar com a pedra, enfrentei a dura descida à planície: lanhei-me nas escarpas e esfolei-me nas encostas. Viver de palavra é confabular com bustos de pedra e estátuas de mármore. Para o sonhador, o cume da montanha é mais seguro - a altura e as cavernas protegem de feras e intempéries, embora haja risco de a solidão criar olímpica arrogância. Na planície, não há como esconder, o duelo é no mesmo nível e as mesmas armas. Cada um amassa seu pão, cria seus peixes, tece seus sonhos e aprende a amar o ausente. Parabéns, Belo Horizonte, meu amor. Ser amada não é exclusividade das belas. Sei que não faço falta, mas perdoe a minha ausência.
Alcione Araújo é escritor e dramaturgo.
alcionaraujo@uol.com.br
Dina Maria de Souza. Cara de Índio
Na loja elétrica, recomendaram-me o Sr. Miguel. Anotaram o número do telefone do eletricista em um pedaço de papel, desses que se usa em balcão de comércio para embrulhar ruelas, parafusos e outras miudezas. Agradeci aliviada a indicação. Desta vez eu não precisaria incomodar irmão, pai ou cunhados com essas tarefas caseiras que sempre vou deixando para depois. Como não suporto banhos frios, tratei de ligar naquele dia mesmo para o Sr. Miguel. Descobrimos, morávamos na mesma rua. O Sr. Miguel chegou no horário combinado para instalar o novo chuveiro. Desfez o embrulho que eu entreguei a ele e manipulou com familiaridade o objeto. Muito sério, elogiou a qualidade da minha compra. Na verdade, eu tinha deixado para o rapaz do balcão a responsabilidade pela opção, já que eu não entendia mesmo nada sobre o assunto. Apenas certifiquei-me com o vendedor se as pecinhas que estavam no envelope de plástico lacrado eram suficientes para a instalação do chuveiro. O Sr. Miguel sacou o que precisava de uma caixinha de ferro com diversas repartições, contendo um arsenal de utensílios, para mim todos semelhantes. Morri de inveja do espírito prático do Sr. Miguel. Ele disse que conhecia boa parte dos meus vizinhos e que havia se mudado para a minha rua logo que se casou, isso há quarenta e poucos anos. Tentei imaginar a antiga cara da rua a partir dos detalhes que aquele senhor me descrevia. Perguntei se o pai dele também era eletricista. Ele parou um pouco o que estava fazendo, sorriu e falou com orgulho:
- Meu pai ? Ele ajudou na construção da cidade.
Senti inveja novamente. Desta vez, de um construtor que já havia morrido. E depois:
- Já reparou nos índios suspensos nas paredes externas do Edifício Acaiaca?
- Sim. Existe um abaixo assinado para tirá-los de lá.
O Senhor Miguel olhou-me sem entender.
- É, dizem que os índios surpreendem as pessoas cuspindo-lhes na cabeça. E olha que, durante um bom tempo, foram os pombos que levaram a má fama.
O homem soltou uma risada.
- Quando o edifício estava quase pronto, chamaram meu pai, que esteve no comando da obra, e pediram: %u201CPendure no alto o rosto de dois homens%u201D. Meu pai perguntou quais feições os rostos teriam. Disseram: %u201CNão sei... Faça as duas caras inspirado no rosto do homem mais feio de Belo Horizonte%u201D.
Nesse ponto da conversa o Sr. Miguel esperou pela minha curiosidade:
- E então? Eu quis saber.
- Ele inspirou-se no próprio rosto.
Dina Maria de Souza é bancária, formada em Letras pela UFMG.
dinadom@terra.com.br
Jaime Prado Gouvêa. A Barata e as Cigarras
Durante quase toda a segunda metade do século XX, um pequeno ser testemunhou, por acaso, o movimento oscilante de um microcosmo da mineiridade encerrada em uma caixa de 4mx15m. Terror milenar das mulheres, dotado das antenas nada poundianas da nossa raça, todo esse tempo ele assistiu aos acontecimentos da maneira mais baratinada possível: morto.
Tratava-se, coerentemente, de uma barata, que, certo dia, procurando o insondável que só as baratas procuram, encalacrou-se entre a treliça de plástico e palhinha que forrava o alto-falante de um rádio da época da Segunda Guerra, sendo torrada pelas vozes calientes de Francisco Alves, Orlando Silva e outros tantos trovadores e menestréis que, nos anos 50, encharcavam de lágrimas os corações dos primitivos freqüentadores da Petisqueira Munhoz, razão social da referida caixa, uma pirâmide de garrafas do alto da qual seu corpinho mumificado contemplou as quase cinco décadas que se seguiram.
E viu passar por ali, à sombra da igreja de Santo Antônio, uma fauna digna de Noé. No princípio foi o Sapo, que pontificava muito antes de seu primo Fernando Brant tentar a travessia, vindo a seguir o Peru, com um dedo torto como a própria vida. E o Bode, que certo dia sentou-se sobre o chapéu gelot do tio Abgar Renault. E o crooner Coelho, que no palco era aplaudido sob o estrelíssimo nome de Márcio José. E o Carrapato, que grudava nos atacantes adversários no futebol da Festa de Natal do Gambá Ausente. E o Ratão, roendo o patrimônio do sogro. E o macaquinho Borracha, gritando feito uma arara. E até mesmo alguns veadinhos %u2013 estrangeiros, é lógico %u2013 , que às vezes por ali flanavam, desgarrados de suas florestas e serras naturais, à procura de românticos jumentos.
Forçando mais a memória, eis lá na mesa dos fundos o fantástico Murilo Rubião e seu amigo João Dornas, o poeta Valdimir Diniz em sua fase de Maiacovski, integrando uma estirpe cultural que reunia desportistas como os atleticanos Mário de Souza, Lucas, Cabral e Haroldo, o americano Caiô e os cruzeirenses Guerino e Sabu, então escalados num time de pagodeiros que seria reforçado por Léo Bélico, o milongueiro cantor de Evita Perón. No mesmo prédio, formando uma vizinhança tão eclética quanto a turba de habituês, moravam o poeta e artista plástico Márcio Sampaio, o cantor Lumumba %u2013 do conjunto %u201CNilo Amaro e seus cantores de ébano%u201D -, o vestibulando Dalvo (que se fantasiava de Jesus Cristo e Tiradentes nas provas do Mineirão) e o craque Spencer, campeão brasileiro de futebol pelo Galo em 1971.
Ao crepúsculo, como que convocados pelo %u201CÂngelus%u201D, os bebuns de sempre se acotovelavam sobre o balcão da petisqueira. Uma democrática mistura de tipos da terra ia desde deputados %u2013 em anos eleitorais %u2013 até empresários dos ramos do aço, da madeira ou do computador, comentando os grandes negócios que fariam se um dia ganhassem na loteria, além de pedreiros, dentistas, especuladores, jornalistas e celebridades pioneiras como o presidente da Federação Mineira de Columbofilia, fazendo sua revoada vespertina atrás de uma pinga incauta ou de algum velório onde pudesse filar um cafezinho e consolar a viúva.
Um dia, como tudo na vida, o velho rádio e a finada baratinha foram substituídos por uma moderna caixinha de alumínio, cujos alto-falantes, espalhados sobre e dentro dos doloridos ouvidos dos fregueses, passaram a emitir, qual cigarras agonizantes, as estridentes melopéias caipiras, sempre cantadas em duplas no ato falho da cumplicidade, de acordo com o acórdão do ilustre advogado que sempre ia ali comer seu sanduíche de almoço, considerando aquilo tudo, aquele papo vagabundo, uma banalidade, sem se dar conta de que o sanduíche que ele comia era sua madeleine.
E o que lhe vinha à memória não eram esses aposentados das manhãs de segunda-feira, que consolavam com uma 51 a perda de seus 147, escondendo-se nas mesas dos fundos como os fantasmas do franquista Vale de los caídos, embora o ambiente lembrasse mais o Cemitério de elefantes onde Trevisan recolhe seus bêbados curitibanos. São os tempos em que aquele mesmo sanduíche era devorado pelos elegantes que voltavam das horas-dançantes do Iate ou do PIC altas madrugadas, quando só o Munhoz e o Rosário, na perigosa avenida Paraná, ainda estavam abertos. Era tudo que eles conseguiam comer, naquela época: o sanduíche do Munhoz, cuja receita, uma carne transparente à base de pancada e queijo, jamais foi revelada pelo maître Raimundo, primogênito de Seu João, o fundador da petisqueira e goleiro do Pé de Porco Futebol Clube.
Já não importa tanto que a velha barata não possa mais, com seus ressecados olhinhos kafkianos, acompanhar os passos incertos daquele final de século belo-horizontino. Minas Gerais é mesmo esse claro mistério circular e cabia todo dentro da petisqueira, ainda que um tanto bambo e trocando as pernas, lembrando mesmo o arrastar lerdo dos matutos das montanhas que sabem que chegarão lá, não interessa onde. As velhas cigarras cantando e as formigas, bem, isso é problema delas.
Jaime Prado Gouvêa, 60 anos, mora em Belo Horizonte desde que nasceu. É autor do romance O altar das montanhas de Minas.
jaimegouvea@uai.com.br
Tavinho Moura. Pássaros Urbanos
A cidade é moderna
Dizia o cego a seu filho
Os olhos cheios de terra
O bonde fora dos trilhos.
(Ronaldo Bastos/Milton Nascimento)
A nossa cidade está sendo tomada pelos passarinhos. No centro da cidade, em suas ruas e avenidas e pelos quintais que ainda restaram da Belo Horizonte Cidade Jardim, são comuns bem-te-vis, sabiás, rolinhas, bandos de melro, dó-ré-mí, bico de lacre. Seria o desmatamento indiscriminado? Aqui, junto do bicho-homem, é que eles encontrariam alimento e abrigo? Alguma coisa anda acontecendo, pois tem crescido muito o número de espécies que estão optando por viver nas cidades.
Algumas são tão discretas que acabam se tornando segredos, que vão se revelando aos poucos. São pássaros e aves migratórias que, em sua trajetória, incluíram a cidade para descanso, para repor as forças.
Um casal de águias chilenas, morador da Serra do Curral, no alto das Mangabeiras, vem com freqüência caçar pombos na Praça Sete. Peneiram suas asas sobre nossos arranha-céus e se deixam cair em golpe mortal sobre a presa. Observadores de pássaros costumam fazer plantão na praça Milton Campos, munidos de seus binóculos, para observar o retorno vitorioso da águia caçadora.
Caminhar no entorno da Lagoa da Pampulha tem sido gratificante. Garças, patos, mergulhões, marrecos, socós, frangos d%u2019água. Sempre tem novidade. Colhereiros, vindos do Pantanal, garça faceira, com sua técnica toda especial de apanhar insetos. Vibra o pescoço, e nesse movimento espanta sempre alguma coisa que vai satisfazer seu apetite.
Tem um maçarico que vem da Patagônia nos visitar. Um privilégio.
Mais ou menos cem variedades de passarinhos freqüentam o entorno da lagoa. Com algumas raridades: galo de campina, japacamin, verão, patativa boiadeira, coleirinha, estrelinha, caboclinho. Esses sempre nas touceiras de capim. Nos arbustos e árvores, saíras, sanhaços, suiriris, almas de gato, anus e tantos outros. Especial é ver, caminhando pela grama, o caminheiro zumbidor. Pequenininho, rajado, com seu assovio alto: tipíiiiu.
A saí andorinha chega no mês de abril aos bandos e toma conta das árvores de magnólias da rua Rio de Janeiro e adjacências. As fêmeas são verde-oliva, os machinhos azuis cobalto, peito salpicado branco e roxo com uma toquinha preta na cabeça. Uma maravilha! No Museu de História Natural, saíra sete cores. Só o nome já diz tudo.
Quero-quero, altas horas da noite, com seu chamado onomatopaico, cruza o céu da cidade se guiando pelas estrelas.
Tucano toco, ararinha maracanã, periquito rico e nem cheguei ao Parque das Mangabeiras e na mata do Hospital da Baleia. Listaríamos mais algumas dezenas de espécies.
Nas noites quentes de outubro ouço sempre o saci. Cantando sua insistência. Migrou para a cidade para cumprir a função que tinha na mata. Proteger os ninhos e os filhotes.
Minha vó Donana me contou que quando ela veio morar no bairro Floresta, nos anos trinta, um casal de pintassilgos fez o ninho junto ao lustre da varanda. Dizia que eles eram muito asseados e que no fim do dia, enquanto tecia seu crochê, o machinho cantava pousado no fio da luz até o anoitecer. Que assim seja ad aeternun.
Tavinho Moura é músico e compositor.
tavinhomoura@yahoo.com.br
Beto Vianna. A Fantástica Ameaça do Sionismo Feminino Belo-Horizontino que só Durou Quatro Anos
Vou contar, é claro, uma história de espionagem e romance. Espiávamos o quanto podíamos as nossas colegas judias da Escola Albert Einstein, na rua Pernambuco. A escola ainda funciona no prédio da União Israelita de Belo Horizonte e umas tantas vezes invadimos a biblioteca para roubar livros em hebraico. Um adolescente metido a intelectual rouba livros. Tudo bem. Mas roubar livros em hebraico é coisa de gente perturbada ao extremo, e nós éramos tudo isso. Para confessar uma modéstia perdida, eu sempre desconfiei que não éramos nada daquilo, mas mudei de idéia há alguns meses, na comemoração dos 70 anos da escola. A exposição de fotos mostrava desde relíquias amareladas dos anos 30 (Imaginem, do tempo da diáspora!), até as escaneadas do aqui-e-agora, mas nem uma só lembrança do nosso período %u2013 de 1980 a 1983. Antecipando em um ano o tema do livro de Orwell, a Mossad suprimiu a memória de nossa guerrilha escolar. Éramos uns vitoriosos e não sabíamos! E não foi à toa. Aquela foi a época mais conturbada de toda a história da humanidade: o governo embalava o Pró-álcool e John Lennon, que era mais popular que Jesus Cristo, acabara de ser assassinado. O sonho - e a era das discotecas - acabou. Os tempos eram ao mesmo tempo anacrônicos e incongruentes: o Pirulito ficava na Savassi, lugar onde nunca esteve antes e jamais iria ficar novamente.
Nosso jeito de perverter tudo e todos era bem especial: pela absoluta falta de propósito embrulhada em engajamento visual. Como nossos pais diziam-se de esquerda, andávamos na escola e pela Praça da Liberdade afora com camisas vermelhas e uma foice e um martelo enormes e amarelos no peito. De 80 a 83, ninguém sabia o que fazer com isso: nossos avançados pais e professores não decidiam se isso era louvável, perigoso ou idiota. E a polícia ou achava bonito ou não ligava (quem, na época, havia contado alguma coisa sobre comunismo para um PM nos seus vinte e poucos anos?), e a UMES-BH - dominada por simpáticos stalinistas filhos de peemedebistas da Faculdade de Medicina - nem sabia que a gente existia. Só os quase-extintos fascistas, resquícios da Tradicional Família Mineira (hoje muito informatizada para merecer esse nome), eram a nossa salvação, brindando-nos com muita cara feia nos ônibus, no Parque Municipal, no Palácio das Artes, no Mercado Central. Éramos hedonistas, está claro: máxima culpa de Belo Horizonte e das judias do Einstein.
Um parágrafo para nossa colega, saudosíssima Elena. Alunos, professores e rabinos do colégio Theodor Herzl foram à nossa escola para um jogo de bola amistoso (judeu contra judeu é amistoso) e Elena comandou a festa. Sob sua liderança, estampamos em nossas camisetas um chocante "Beguin retzaeh" (Menahem Beguin: o líder israelense que comandou o massacre de Sabra e Shatila; retzaeh: provavelmente "assassino" em hebraico castiço - nunca conferimos a pertinência do termo). Amistosidade abalada, é óbvio, e nunca mais nossos irmãos co-sionistas voltaram a pisar no nosso lado de Gaza.
Hoje olho para minha cidade e nem consigo imaginar que há apenas 25 anos Belo Horizonte era o epicentro de uma grande conspiração internacional. Como ficou o mundo depois disso? Uma de minhas filhas estuda no mesmo Einstein; os Estados Unidos continuam se achando donos do mundo; e meu deca-campeão América segue com os resultados de sempre. Até o Pirulito está onde sempre esteve, eterno na Praça Sete, como se sua temporada savassiana tivesse sido apagada da novolíngua belorizontina. E permanece suspirar por um Oriente de Médio pra melhor. Paz praqueles povos de nariz grande. Isso sim iria redimir nossa linda futilidade da Rua Pernambuco.
Beto Vianna foi campeão brasileiro de pára-quedismo pela equipe Avis Rara, de Belo Horizonte, e presidente da Federação Mineira de Pára-quedismo, a Paramig.
btvianna@terra.com.br
Gustavo Penna. Veveco Presente
Anjo moleque,
Dois meses, e você está tão perto que parece que a viagem vai ter volta.
Os golpes de realidade são os momentos de encontro: contemplar suas obras, o olhar atônito dos amigos, precisar do seu raríssimo senso de humor e, principalmente, Mariza, Mariana e Joana.
Como os sentimentos negativos não combinavam com seu espírito, fico pensando por onde você anda, em que se tornou sua clara energia criadora.
Acho eu, que os grandes mineiros, quando se vão, não viram estrelas; se transformam em montanhas.
E guardam para sempre as nossas riquezas, as nossas profundidades.
Quero lembrar de você assim, como uma grande serra cheia de verde e de história.
Alta e serena que protege as cidades, os rios e as pessoas:
a Serra da Gentileza.
Um lugar escolhido para o melhor de nós ir morar.
Ontem, o Parque Ecológico da Pampulha fez um ano, por isso, aproveito para te agradecer o privilégio de trabalhar junto.
Um beijo para você Veveco, filho da Ló, (seu preferido indicativo ético), um beijo saudoso do seu irmão, filho da Myriam,
Gustavo
23.05.05
Gustavo Penna Nascido em Belo Horizonte, é um dos arquitetos mais respeitados do país.
arquiteto@gustavopenna.com.br
Cláudia Otoni. Rua Tupis, Atrás da Igreja - Uma Crônica Urbana
Não se passava um dia da semana sem recebermos visita, esta era a vantagem e também a desvantagem de se morar no centro da cidade. Os parentes estavam sempre indo às Lojas Americanas ou Brasileiras, à Bemoreira, à Sears, à Caixa Econômica, ao Banco do Brasil ou à Igreja de São José. Morar no centro há 30 anos era muito legal e muito diferente de hoje, não havia tantos assaltos e as famílias se interagiam mais. Lembro do telefone tocando cada vez que eu me dependurava da janela do 20º andar. Era a vizinha do prédio em frente, avisando à minha mãe que eu poderia cair.
Era um tempo bom, onde a gente atravessava a Afonso Pena na diagonal, sem medo dos carros. Morei na Rua Tupis, atrás da Igreja São José na década de 70 e, já no primeiro ano, percebi que de lá poderia se ver tudo em primeira mão, pois era no centro que se fazia tudo. Vi e participei emocionada, com o meu pai, das comemorações da Copa do Mundo de 70, na Afonso Pena; vi também os desfiles de Carnaval; da minha janela via o movimento noturno do BarTip Top; e a paralisação durante anos das obras do prédio que seria mais tarde o Hotel Real, na Rua Espírito Santo.
Morar ali tinha suas vantagens. O ponto final de todos os ônibus de BH era no centro e no meu quarteirão era melhor ainda, pois na Tupis se concentravam os coletivos que levavam à zona sul, passando pela Savassi, que estava começando a chamar a atenção, principalmente para nós, adolescentes. Nos sábados íamos para a Sociedade Mineira dos Engenheiros, na Álvares Cabral, dançar ao som dos Bee Gees e da discoteca, numa vesperal que nunca tinha brigas ou confusões, e aos domingos a pedida era subir para a Praça da Liberdade e comprar brincos e pulseirinhas na feira hippie.
Só aos domingos, para ir à missa das 9, é que se entrava pelas portas normais da Igreja, pois o resto do tempo era muito mais divertido pular a grade dos fundos da casa paroquial e sair no meio do altar. A amizade entre os padres e a minha família cresceu muito nos anos que moramos no centro. Aos sábados à tarde sempre havia um lá em casa, conversando sobre política com meu pai, tomando Passaport e comendo azeitonas. Particularmente, eu gostava muito do Pe. José Augusto, mais alegre e amigo dos jovens; o Pe. Márcio era mais sério e os escoteiros que se encontravam lá eram gente certinha demais para se fazer amizade.
Ir ao cinema durante a semana também era uma vantagem para quem morava no centro: o cine Jacques e o Palladium estavam bem ali, coladinhos no meu prédio (assisti 25 vezes Nasce uma estrela, com Barbra Streisand, e virei fã). Depois íamos ao Tedds comer um sanduíche delicioso de presunto com abacaxi e, quando não se tinha dinheiro, íamos à Padaria Strombolli comer pão de queijo.
Nós, da turma careta, tínhamos um bom relacionamento com os que não eram caretas, que estavam sempre vestidos de preto e fazendo cara de mau. No centro, os que gostavam de %u201Cpuxar um fuminho%u201D não eram os hippies paz e amor, eram os filhinhos de papai, que gostavam de Pink Floyd e Rolling Stones, enquanto nós, as chamadas burguesinhas, gostávamos mesmo era de Michel Jackson e de música romântica das novelas com Marcos Paulo e Francisco Cuoco.
Estudei o primário numa excelente escola, no quarteirão abaixo do meu prédio, atrás da Igreja Metodista, e lembro minha mãe me alertando de como tudo era estranho, pois na igreja não havia uma imagem, %u201Cnem de Nossa Sra%u201D, dizia ela. Mas foi lá que, apesar dos pesares da ditadura militar, estudei Moral e Cívica, o que valeu para toda a minha vida, pois aprendi a amar a pátria, a bandeira e a organizar a minha mente com disciplina.
Mas não eram só as diferenças de religião que existiam. O quarteirão da Praça 7 e o parque Municipal eram lugares proibidos para nós, as meninas, principalmente nos fins-de-semana, pois ficavam lotados de gente .
No quarteirão das ruas Tupis, Espírito Santo e Rio de Janeiro havia sempre alguns Hare Khrisna vendendo incenso.Ficávamos paradas na rua de papo, no maior interesse por Buda e reencarnação. Mas, um dia, eles desapareceram, os moradores diziam que eles seduziam as adolescentes, uma injustiça, pois na verdade éramos nós que os paqueravam. Me arrependo de nunca ter ido àqueles jantares vegetarianos que nos convidavam.
Apesar de sentir um pouco de solidão nos fins-de-semana, morar na Tupis foi o máximo. Não havia pipas, bichos ou carrinho de rolimãs , mas ter acesso a tudo, num tempo onde não havia Internet e TV a cabo, era muito bom.
Ainda hoje não consigo ver o centro com outros olhos. Sempre vejo com os olhos do sentimento e me sinto em casa. Quando alguém fala mal do centro, eu saio na defesa; afinal, morei na Tupis, atrás da Igreja....
Cláudia Otoni Professora e historiadora. É autora, entre outros, de O que é história das Mentalidades, pela Editora Brasiliense.
claudiahist@ig.com.br
Ronaldo Guimarães. Prado, Pradaria e Padaria
Dia desses, numa tarde clara de abril, na calmaria do Prado, debrucei na janela e me debulhei em lembranças. Vi a vida passar. O Prado rivaliza com Santa Tereza em charme e tradição. Ruas arborizadas, paralelepípedos, bêbados e notívagos. Rivaliza também nas proparoxítonas.
Caiu a noite e a vida continuou a passar. Passou o moço batendo a matraca, vendendo sonhos. Naquela noite ninguém quis sonhar. Eu quis. Assoviei para ele, um assovio chocho e desafinado. Invejei o assovio de meu irmão: agudo e estridente. Ele até que tentava me ensinar: %u201CÉ só dobrar a língua pra cima, unir o mindinho e o indicador embaixo dela e soprar com força%u201D. Apesar da dedicação do meu querido e hoje ausente professor, só saía um %u201Cfiu-fiu%u201D insosso. Se me perguntarem se quero aprender a tocar piano com maestria, falar francês com fluência ou saber assoviar, optaria pela última hipótese.
O vendedor de sonhos, com sua matraca barulhenta, não ouviu meu assovio e, naquela noite, fiquei sem sonhar.
A vida continuava a passar na minha janela. Naquela noite, a rua calma estava barulhenta. Passou outra matraca, dessa vez com um coroinha na frente, ou ministro da eucaristia, sei lá, só sei que ele batia a matraca com harmonia e unia as pessoas. Procissão do encontro. Homens saindo da Rua Turfa e mulheres da Cura D%u2019ars, velas nas mãos, calos nos pés e o encontro. Pelo menos, uma vez no ano se encontrando.
E a vida passando pela minha janela. Noite no Prado. Latidos nostálgicos, miados sonolentos, briga do casal amigo na casa ao lado. Apurei os ouvidos e morri de preguiça de relacionamentos. Torci pelo homem, fui solidário com a mulher, mudei de time, torci por ela.
Folguei-me em pensar que, no outro dia, naturalmente, uma Quinta-feira santa, de um outono cheio de adjetivos, o casal, seguramente, iria bater na minha porta, portar-se como se nada tivesse acontecido e me chamar para uma birita no bar em frente. Procissão do encontro, remissão. Com humildade, depois de lavarem a roupa suja, iriam lavar a boca e os pés. Dia de %u201Clava-pés%u201D.
Noite alta. Um grupo de seresta, num bolero antigo, pediu que o relógio parasse as horas: %u201Cdetenha as horas relógio...%u201D
O relógio não deteve, continuou célere seu ofício e, por isso mesmo, o dia amanheceu. Serenamente.
Manhã no Prado cheira a pão quente, manteiga amarela e jornal saído da rotativa.
Feriado no Prado. Os pradenses sobem a Rua Esmeralda, cumprimentam as senhoras dos desencontros e na falta das antigas pradarias para vislumbrar, entram nas padarias, compram pão, jornal e lambuzam-se de manteiga e notícias.
Acham que a vida vale a pena e que Belo Horizonte ainda tem jeito.
Jeito de cidade do interior.
Ronaldo Guimarães Cronista e professor. É autor do livro de contos Retratos do Tempo, pela Dimensão e do romance Pretérito quase Perfeito, pela RHJ.
ronaldogui@uol.com.br
Fernando Brant. Veveco
Um punhal nos rasga fundo no peito, quando um amigo desse quilate é obrigado a nos deixar. Ficamos perplexos, desamparados, doídos. Que graça pode ter a vida sem a sua graça, seu humor constante, sua presença afetuosa? Que será de nós - mulher, filhas e amigos- diante da ausência que nos confunde e entorpece? Por que levá-lo de nós, se a vida anda tão difícil, se ele era perfume para a poluição dos dias, sol para a noite da existência, alegria para a tristeza do mundo? Se era bálsamo para as nossas feridas e permanente incentivador de nossos contentamentos?
Mariza, com voz serena, ao telefone, me acalma. Ela, que todos os motivos tem para se desesperar, demonstra firmeza, sobriedade. Que casal, meu Deus. Não sei quando o Veveco entrou na minha vida, parece que ele sempre esteve comigo. Muito tempo antes de nascermos, nossa amizade já se anunciava.
Talvez desde as encervejadas terras belgas, de onde vieram os Brant e os Hardy. Sei que um dia, lá se vão mais de trinta anos, em meio a um encontro que se iniciou no Mercado Central e foi terminar num restaurante japonês, ele apareceu com sua noiva, sua amiga, sua jóia rara. Desde então contemplei com admiração a parceria dos dois.
As iniciais dos nomes dos dois, ele Álvaro de batismo, formam as palavras amar e alma. Almas irmãs e amorosas, forjaram uma parceria exemplar em casa, no trabalho e na vida. A influência de um sobre o outro, mesmo levando em conta a individualidade de cada um, fazia com que surpreendêssemos nela características que pensávamos ser dele. Nele brilhavam dotes que, tínhamos certeza, eram próprios dela. Isso pode ser notado com clareza nos projetos arquitetônicos da dupla. Onde começa o Veveco, onde se inicia a Mariza? Impossível saber, pelo menos para nós. Eles se completavam. Eles se completam, pois a magia que eles criaram vai permanecer.
Amigo, parceiro, compadre ( ser padrinho da Joana me engrandece), Veveco confirma as minhas melhores expectativas com relação à vida e aos seres humanos. Em uma só pessoa, as qualidades todas que fazem alguém ser especial.
Inteligente, talentoso, criativo. Alegre, divertido, senhor de todas as festas, de todos os encontros.Trabalhador incansável, responsável. Pai de família amoroso, dedicado. Semeador de amizade em todas as classes sociais, em todos os ramos profissionais, em todas as oportunidades, todos os dias.
Delicado e generoso. Amava Belo Horizonte e sonhava soluções para os seus problemas. Solidário. Companheiro.
Alguém pode dizer que estou exagerando, mas eu sei, e todos que o conheceram sabem, que estou sendo fiel e justo. Ele é prova de que o artista pode e deve ter caráter.
Guardo tudo o que ele foi, para que eu possa prosseguir. Mas choro ao perceber que nunca mais ouvirei sua voz me chamando, carinhosamente: %u201C Ferdinando.%u201D
P.S.: beijos para Mariza, Mariana e Joana.
Fernando Brant Compositor e colunista. Escreve às quartas-feiras no jornal Estado de Minas.
fernandobrant@hotmail.com
Sílvia Rubião. Um Homem que Amava a Cidade
Belo Horizonte hoje entardeceu lindamente para se despedir de Veveco. Até as águas maltratadas da lagoa da Pampulha resplandeciam. Refletiam na orla o azul inesperado de março, para chorar um homem que partia. Partia muito antes da hora, para desespero de seus familiares e inúmeros amigos reunidos, não por acaso, na Casa do Baile, obra-prima de seu grande mestre e interlocutor, Oscar Niemeyer. Todos inconformados diante do que não se explica. Do mistério que questionamos, renegamos e, enfim, porque não nos é dado compreender, aceitamos. E o fazemos cantando, numa despedida emocionante. Pois vidas como as de Veveco são para ser celebradas - a qualquer hora.
Não vou aqui falar do amigo. Veveco transbordava amizades. Gente muito mais próxima do que eu, alvo de uma inveja inofensiva. Porque estavam sempre com ele na intimidade ou nas esquinas da vida, fruindo de sua alma generosa, dos seus gestos largos, do seu papo envolvente ou dos muitos sabores que emergiam de suas panelas. Se alguém já teve dificuldade para traduzir o "cool" dos americanos, deveria usar Veveco. Ele era isso: elegante e descontraído, leve sem ser superficial, sofisticado sem ser esnobe, engajado sem ser radical, contemporâneo, mas comprometido com o ontem e com o sempre. Não vou também falar do arquiteto. Seus colegas de ofício certamente o farão com muito mais propriedade. Vão falar do seu olhar, do seu traço, das suas formas, do seu pacto indissolúvel com o belo.
Quero falar de um outro aspecto muito caro ao projeto que este site abriga: BH. A Cidade de Cada Um. Quero falar de um homem que amava a sua cidade. Amava e praticava este amor. Veveco era onipresente em Belo Horizonte. Fosse para celebrá-la em sua beleza, fosse para defendê-la de agressões, fosse para lutar por suas causas, fosse para valorizar sua gente, sua cultura, sua história. Tivesse Belo Horizonte, ao longo de sua vida, algumas dezenas de Vevecos, certamente não teríamos muitas das nossas mazelas. Principalmente aquelas que nos cravam marcas impiedosas na memória. Não teríamos montanhas recortadas, não teríamos claros dolorosos no mapa da cidade, não teríamos os fícus arrancados, o parque municipal mutilado, os nomes das avenidas trocados, uma massa de prédios escondendo o poente. Teríamos com certeza mais monumentos, mais espaços públicos, mais cartões-postais intocados, mais arte, mais música, mais poesia, mais bem-estar. Como Paris para Hemingway, Belo Horizonte para Veveco era uma festa. Um lugar pulsante, uma confluência de possibilidades sempre impulsionadas pela sua crença e pela sua vontade. O homem que hoje se ausenta do nosso cotidiano deixa um imenso vazio e as pegadas de sua trilha feita de cordialidade, atenção e delicadeza. Ainda atônita e desconcertada, a cidade anoitece, clamando por seus seguidores. Onde estão?
Quando este projeto literário foi lançado, Veveco foi um entusiasta da primeira hora. Logo se dispôs a participar. Escreveria sobre os Quintais de Lourdes, território sagrado de sua infância e adolescência ou sobre a Pampulha, sua eterna paixão. Não foi possível. Este assim como outros projetos importantes foram subitamente interrompidos. Todos movidos pelo seu sonho de paz urbana e de bem-viver, o seu sonho de cidade. O adeus a Veveco foi marcado por muitas palmas. Vibrantes e intensas como ele. Palmas que ecoarão por Belo Horizonte indefinidamente. Pois sempre haverá um momento e uma razão para lembrar Veveco , um homem que amava a cidade.
Belo Horizonte, 22 de março de 2005
Sílvia Rubião nasceu e mora em Belo Horizonte. É jornalista, consultora de comunicação e escritora. Editora do BH . A Cidade de Cada Um, lançou em 2005 o livro de poesias Tangências, pela editora 7Letras.
silvia.conceito@terra.com.br
Márcio Borges. Amar Beagá é...
Jogar bente-altas com bola de meia e gritar licença pra dois! Acabadas pra dois! Na bola de meia, saber dar o famoso nó cu-de-pinto. Brincar de pegador da lata. Jogar pelada na rua sem se preocupar com os carros. Jogar pião em terreno baldio. Aplicar o lance subterrâneo no jogo de finca. Na bolinha de gude, levar a bolinha do adversário até o papão dando levas-erradas. Ao vencer a queda, não aceitar tibolosco, só as bolas pequenas! Subir os arcos do Viaduto Santa Tereza sem olhar para baixo. Pegar carona de bonde e saltar de costas na rua Mármore. A cada 5 minutos, exclamar nusga, ou nodoreba, ou putzgrila! Atravessar o córrego do Parque Municipal agarrado a um cipó. Estudar no Instituto de Educação com a diretora dona Áurea. Fazer o curso de admissão com o professor João Martins. Primeira comunhão na Igreja da Boa Viagem. Tirar retrato no lambe-lambe da Praça da Estação. Viajar de trem para Betim ou Caetano Furquim. Subir a Serra da Piedade aboletado nos ombros de um tio. Lá de cima, se emocionar com o verde, os penhascos e a neblina. Na Afonso Pena, sob as árvores, coçar-se cheio de amintinhas. Nadar no rio Arrudas ou na represa da Pampulha e pagar o preço da aventura com xistose, ameba e giárdia. Alugar bicicleta no Corino e só devolver no dia seguinte. Entrar no Cine Brasil na sessão das duas e só sair de noite. Brincar de faroeste e ser Tom Mix, Roy Rogers, Gene Autry, Hopalong Cassidy ou Charles Starret. Acompanhar fita em série, os perigos de Nyoka. Colecionar Cavaleiro Negro e chamá-lo pelo nome careta de Heron Robledo. Conhecer as identidades secretas de Flecha Ligeira, o vaqueiro Aloísio Cane. Capitão Marvel, o jornaleiro Billy Batson. Batman, o milionário Bruce Wayne. Super-Homem, o jornalista Clark Kent. Torcer para o Fantasma, aliás, mister Walker se casar com a Diana. Tarzan com Jane. Mandrake com o Lothar. Luluzinha com o Bolinha. Assinar manifesto para completa eliminação do Raposo. Torcer para o Gastão perder pelo menos uma para o Pato Donald e chorar de ciúmes da Margarida. Apaixonar-se pela Fada Sininho. Fazer concurso para o Colégio Militar, tomar bomba e virar líder estudantil no Colégio Estadual. Assistir show no Mata-Borrão. Participar de passeatas espalhando bolinhas de gude pelo chão, para derrubar cavalos da polícia. Tomar cafezinho no Café Nice. Jogar xadrez na praça Sete. Ver o Galo ser penta no Estádio do Independência e saber de cor a escalação: Sinval, Afonso, Oswaldo, Geraldino, Monte e Haroldo, Ubaldo, esqueci, Tomazinho, Gastão e Amorim. Saber de cor a escalação Loxa, Pentelho e Doença, Nas Gretas, Sarará e Zurana, Sunda, Mirunda, Corcunda, Noku e Nabunda. Freqüentar a Zezé, o Montanhês, a Nena, o 32, e terminar a noite encarando um tropeiro no Adão. Comer caol no Rei do Sanduíche ouvindo Paulinho Horta, Waltinho Batera e Chiquito Braga como quem ouve Ray Brown, Max Roach e Wes Montgomery. Pelo menos uma vez na vida, assistir ao Roteiro das Duas na Rádio Guarani e ver Aldair Pinto apresentar Isnard Simone. Gritar ao lado das macacas-de-auditório. Ouvir as transmissões esportivas de Cleto Filho pela tevê preto-e-branco e cantar junto: tevê Itacolomi, sempre na liderança, canal quatro, Belo Horizonte, Minas Gerais. Ou então: tá na hora de dormir, não espere mamãe mandar, um bom sono pra você e um alegre despertar. Participar das Gincanas Maizena com Bernardo Grimberg. Apaixonar-se pela Gladys e seus Bichinhos. Rir com Ubaldino Guimarães. Assistir Não: Poesia Para e achar José Aurélio o maior ator do mundo, o nosso Lawrence Olivier. Por falar em Olivier, orgulhar-se do vanguardismo do próprio e da Lucy Panicalli. Da Regininha e da Flau. Aprender lições de vida e de cinema com os Ronaldos (Brandão e Noronha). Ser sócio do Cemice e conviver com Carlos Alberto Prates Correia e Schubert Magalhães. Freqüentar o Maleta, o Art-Palácio e o CEC. Chorar de saudade do Cine Metrópole. Chorar de saudade da Boate Berimbau. Chorar de saudade do Cine Tupi e do Cine Arte. Jogar bombinha dentro do Cine Candelária. Comer bife de fígado com jiló no Mercadão. Olhar tudo com um olhar apaixonado. Chorar de saudade das Estâncias Califórnia e do carnaval com corso. Execrar o que fizeram com Sulacap e o Sulamérica. Olhar aquela rodoviária monstruosa e encher-se de saudade da Feira de Amostras. Chorar dessas saudades, pura e simplesmente.
Márcio Borges nasceu em Belo Horizonte. Letrista do Clube da Esquina e grande parceiro de Milton Nascimento, Márcio é autor do livro Os Sonhos Não Envelhecem %u2013 Histórias do Clube da Esquina, lançado pela Geração Editorial.
mhfborges@hotmail.com
Vera Correa. Rua da Bahia
Até a recente proliferação de faculdades pelo interior do estado, se quiséssemos continuar a estudar, tínhamos que ir para a Capital. Nos anos 50 e 60, meu caso, buscar outra vida significava sair de casa e morar em casa de parentes, pensionatos, formar repúblicas, alugar porões. Experimentei todas as modalidades de moradia, estive em ambientes opressivos, lugares divertidos, convivi com gente maluca, conheci pessoas generosas, daquele tempo ainda guardo amizades verdadeiras.
Primeiro fiz cursinho no charmoso Champagnat, especializado na preparação para Direito e humanas em geral, que na época funcionava na Timbiras, entre João Pinheiro e Alagoas. Depois fui fazer Letras, na então UMG, primeiro nos altos do Edifício Acaiaca, depois nos altos da rua Carangola. Um tanto por proximidade e conveniência, outro tanto provavelmente por aquilo a que chamam destino, acabei morando em diversos endereços nas imediações da rua da Bahia, nunca a mais de dois quarteirões de sua rive gauche ou de sua rive droite.
De início, morei com uma tia, na rua Goitacases, entre Espírito Santo e Bahia. Ali seria meu primeiro contato com a metrópole, aliás, o Cine Metrópole ficava a dois passos. A idéia era que eu ficasse provisoriamente nessa casa. Casa, não. Apartamento, um equipamento residencial inédito para mim. Até ali eu não conhecia elevador, porteiro, área de serviço, escada de incêndio. A tia, linda e elegante, amenizou o choque de minha chegada à Capital.
Morei, depois, ocupando vaga de uma menina que estava de férias, num pensionato de simpáticas freiras holandesas, alegres, trabalhadeiras, bem humoradas. De lá, lembro com especial carinho de um chá com biscoitos que serviam à noite, quando a conversa rolava solta, tranqüila. Apesar da altíssima densidade demográfica nos quartos, e do evidente desconforto daí resultante, era um ambiente agradável e descontraído. Saí de lá com pesar.
Fui para a casa de um casal sem filhos, outra vaga provisória, num sobradinho de estilo vagamente art nouveau. Quando a dona da vaga voltou, me instalaram num pequeno cômodo no térreo, perto da cozinha, no que seria um quarto de empregada. Nunca fui tão feliz com uma acomodação como com aquele quartinho. Pela primeira - e única - vez na vida tive um quarto só meu. Não sei por que não insisti para ficar ali. Eu deveria ter insistido. Eu não sabia o que estava perdendo.
De lá fui para o pensionato de uma uruguaia, na esquina de Bahia com Bias Fortes. A casa era um lindo palacete branco, com as varandas em curva. Dos seus toques de requinte, lembro-me do piso de madeira, com desenhos formados pelos tacos claros e escuros, e não me esqueço das janelas do banheiro, onde me encantavam garças e nenúfares no vidro jateado. Mas a dona do pensionato era totalmente maluca. De vez em quando, a propósito de nada, ou de muito pouco, talvez por uma roupa esquecida fora de lugar, um café fora de hora, ela nos reunia e nos passava descomposturas homéricas, gritando conosco num portunhol miserável, provocando em algumas de nós incontroláveis frouxos de riso que só pioravam a situação.
Morei em outros pensionatos, formamos repúblicas, desfizemos repúblicas. Na caderneta que ficava perto do telefone na minha casa no interior, minha mãe riscava um endereço e escrevia outro, numa interminável sucessão de rabiscos a testemunhar minha busca pelo lugar ideal, por um lar fora de casa. Até que me casei e saí da órbita da rua da Bahia. Por pouco tempo. Logo voltei. E um dia vim-me embora.
Daqui do planalto central, onde moro há 10 anos, volto os olhos para a rua da Bahia, e a vejo como imenso rio, cujas margens percorri por mais de 35 anos a procura de mim mesma. Não sei se me achei, mas com certeza aquela rua da Bahia não encontro mais.
Vera Guimarães Correa é de Sete Lagoas, mas viveu em Belo Horizonte por 35 anos. Formada em Letras, foi revisora da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Há dez anos, mora em Brasília.
vgcorrea@gmail.com
Sílvia Rubião. A Cidade Sem Fim
Não faz muito tempo cheguei do trabalho mais cedo e encontrei minha empregada Ivanete deixando o serviço. Ao me ver, seu rosto se iluminou. Será que eu poderia levá-la de carro até em casa, com um botijão de gás que havia ganhado? Concordei, satisfeita em poder ajudar. Ivanete ia se casar e estava montando um barraco ali na favela da Serra, onde morava com a mãe e os irmãos. O botijão era um presente do dono do armazém da esquina.
Ali na favela, para mim, era um lugar próximo de casa, que em outros tempos frequentara bastante: o Cafezal. Subia-se a rua Capivari até o final e entrava-se pelo emaranhado de becos com barracões de alvenaria parede-meia, alguns com lajes e puxados nos fundos. Um pouco à frente atravessava-se uma pinguela e as moradias iam se espaçando mais pela terra batida, com árvores e pequenas hortas cercadas. Ali moravam empregadas antigas da casa de meus pais, pessoas que ficaram anos conosco: Judith, Ana, Teresa, Maria, todas irmãs. Uma saía para casar, a outra logo ocupava o seu lugar. Não raro eu e meus irmãos íamos à casa delas. Fosse para dar um recado, para conhecer um novo sobrinho ou até mesmo para passar um domingo. Eram barracões de dois ou três cômodos, com tudo muito limpo e arrumado. Havia fotos nossas na parede e muitas coisas que lembravam nossa casa: uma vitrola e um sofá antigos, uma colcha de crochê que era da cama de meus pais e algumas crias de Ping e Pong , nossas cadelas pequineses.
Para esse lugar tão familiar é que parti com Ivanete, à bordo de minha Quantum 96, %u201Co possante%u201D como ela dizia. No caminho me lembrei também de D. Lourdes, uma lavadeira, cuja casa freqüentei durante anos, levando e buscando trouxas de roupa. Sua vizinha, D. Isolina, fazia empadinhas sob encomenda. Lembrei-me também de dois irmãos que eram nossos amigos. Um deles tocava violão na missa. Estudavam no Estadual da Serra e freqüentavam a nossa turma de rua. Definitivamente eram outros tempos. Hoje ninguém mais faz trouxa de roupa para lavadeira, nem freqüenta a favela com tranqüilidade. Tempos em que morro e asfalto eram mundos diferentes, sim. Mas se encontravam nas esquinas da vida e se entendiam.
Orientada por Ivanete, passei pela entrada que conhecia, contornei o Hospital Evangélico e fui subindo. Mas dá para entrar de carro aqui? Claro, olha quantos carros... Ela ia me mostrando fuscas e corcéis, bem diferentes e menores que a minha Quantum metálica. Fui subindo, já apreensiva com a estreiteza da viela, cada vez mais íngreme e esburacada, sacolejando morro acima. Ivanete falava dos planos do casamento e se interrompia, notando minha apreensão. Não preocupa não, é logo ali. E eu ia subindo, subindo, só pensando como ia fazer para manobrar aquela %u201Cbanheira%u201D e voltar. Àquela altura tentava também compreender como ela podia morar ali e subir e descer a pé, todos os dias, para trabalhar. Eu, que sempre preferi contratar pessoas que moravam %u201Cperto%u201D, para não ter que pagar vale-transporte. Não acreditava também na vastidão daquele território desconhecido. Ela ia desfiando o nome das vilas: Cafezal, Cabeça de Porco, Fátima etc.
Fui ficando angustiada, com aquela jornada sem fim; ela sempre dizendo que já estava chegando. Mal percebia o amontoado de barracos miseráveis, o mau cheiro, alguns jovens de olhar ameaçador na porta das biroscas. Ao meu lado, feliz da vida com o presente, Ivanete e seu sorriso pronto, ajeitando a saia curta e a toda hora arrumando o cabelo ainda molhado no espelho do retrovisor. De vez em quando, punha a cabeça para fora, cumprimentando algum conhecido. Pode ir subindo, é logo ali.
Chegou num ponto eu disse: chega, Ivanete. Daqui eu não passo. Isso aqui já está ficando arriscado demais, e está ficando tarde. Você desce com o botijão, deixa com alguém e pede ao seu noivo para te ajudar a carregar. Ah, eu queria tanto te mostrar meu barraco novo, ela respondeu, sem esconder o desapontamento. Mas deixa pra outro dia. A senhora já me ajudou demais. Prometi voltar no dia do casamento, sem aquele carro enorme. Você não acha perigoso eu descer sozinha, perguntei, revelando todo o pavor que ia tomando conta de mim. Pode ir sem medo, a essa hora só tem trabalhador. Desceu do carro, pegou o botijão com os braços fortes e o pôs nas costas, como um embrulho qualquer. E foi subindo. De vez em quando se virava e sorria, abanando a mão, enquanto eu suava para manobrar a minha station wagon, ainda sem direção hidráulica.
Fui dirigindo morro abaixo, o pé esmagando o freio, as mãos crispadas no volante. Era fim de tarde e uma multidão subia o morro em sentido contrário. Homens e mulheres voltando do trabalho, carregando sacolas, ferramentas, empurrando bicicletas, puxando crianças pelas mãos. Afastavam-se para o carro passar. Uns riam, faziam comentários que eu não ouvia com o vidro fechado, batiam de leve no carro ou lançavam-me um olhar curioso. E me davam passagem. Eu, %u201Co possante%u201D e minha constrangida posição social. Lá embaixo os últimos rasgos de luz afundavam no poente. Anoitecia em Belo Horizonte, uma cidade sem fim.
Sílvia Rubião nasceu e mora em Belo Horizonte. É jornalista, consultora de comunicação e escritora. Editora do BH . A Cidade de Cada Um, lançou em 2005 o livro de poesias Tangências, pela editora 7Letras.
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Dina Maria de Souza. Infância na Cidade Grande
Meu pai acomodou-me sobre a sela e pediu um sorriso para a foto. Para acabar de compor o quadro, foi buscar o João, que estava entretido com os Canários-Belga oferecidos pelo homem de suspensórios. A foto revelada ali mesmo flagrou os dois irmãos em uma das poucas ocasiões em que nos vestimos como gêmeos. Esse momento, revivido todas as vezes em que consigo arrancar da minha mãe a latinha de biscoitos colorida, onde ela guarda a sete chaves as fotos de família, aconteceu no Parque Municipal. Era lá que meu pai costumava levar os quatro filhos em algumas manhãs de Domingo, enquanto minha mãe preparava o almoço. Faço questão de esclarecer o horário, pois à tardinha tínhamos de estar arrumadinhos para assistirmos à missa na Igreja do Calafate.
Eu sabia que era Domingo porque os portões do depósito de material de construção ficavam cerrados. Morávamos em uma casa de janelas verdes, bem nos fundos do depósito, um paraíso misterioso e arborizado. Atrás da casa passava o trem. Há poucos metros da linha existia um córrego onde meu irmão iniciou sua vida de pescador, contentando-se com piabinhas magrelas.O filho do carroceiro, já rapazinho, desbravava o mato com um facão. Íamos seguindo as suas pegadas, com medo de cobra. Com o tempo, formaram-se as trilhas, cercadas dos dois lados por girassóis, que acabavam na linha do trem. Lembro-me de um girassol boiando sobre as águas de um prato esmaltado azul na escada da cozinha.
Fomos crescendo. O tronco da mexeriqueira pintado de joaninhas vermelhas, os chinelinhos de dedo perdidos para sempre no imenso monte de areia, as duas vizinhas -eram irmãs- , que tinham papo, o sapateiro que ganhou na loteria e sumiu, os coquinhos que caíam do coqueiro do depósito, vendidos às escondidas através da cerca que separava o depósito da rua Marcílio Dias. Com a receita das vendas, corríamos os quatro para o armazém da esquina. O Senhor Vicente fazia girar o baleiro lustroso de vidro para enchermos as mãozinhas.
Nas Sextas, meu pai buscava no Mercado Central legumes e verduras e trazia nas costas um saco contendo um cento de laranjas, que acabavam nem bem o final de semana havia chegado ao fim. Nos momentos de folga, ele colocava uma bacia de alumínio no colo e íamos recebendo as laranjas descascadas com direito à escolha do feitio das tampinhas.
Minha mãe fazia todo o trabalho doméstico, cortava os cabelos dos filhos, cosia ela mesma nossas roupas e exercia duas tarefas que para mim pareciam das mais complicadas: encapar os cadernos e marcar consulta no INPS.
Adorávamos a escola. Meu pai atravessáva-nos a rua Campos Sales e andávamos sem medo quarteirões compridos até o Sesi, onde cursamos o Pré-Primário, e, mais tarde, até o Maurício Murgel.
Aventura fascinante era ficarmos perdidos por alguns minutos, à noite, na Praça Raul Soares. Meus pais levava-nos para apreciarmos a fonte que esguichava longe a àgua e o chafariz. Ocupavam um dos bancos para aproveitarem %u201Ca fresca%u201D, como diziam, e soltavam as crianças. Um misto de prazer e pânico tomava conta de mim e de meus irmãos quando éramos sugados por aqueles labirintos verdes.
Com a adolescência vieram as matinês no Zezé Pulguento, apelido carinhoso que o bairro deu a um dos muitos cinemas de bairro da época, o Cine São José, localizado`a rua Platina. Recentemente, convidamos minha tia, que nos levava a cinemas e teatros, para retornar conosco àquele espaço. O cinema foi transformado em um teatro moderno e confortável, o Kleber Junqueira, onde assistimos ao %u201CDrácula%u201D. Ao lado de vizinhos de infância, lemos as reportagens afixadas no hall do teatro, que elogiavam a produção cultural e as novas instalações, além de tecerem comentários nostálgicos sobre o nosso querido Zezé.
Crescemos mais e a cidade também. Hoje meu pai não carrega o saco farto de laranjas nas costas, já que existe a comodidade do sacolão, mas filho dele nunca tem permissão de deixar a casa, em visita nos finais de semana, se não levar consigo uma penca de bananas e algumas laranjas. Já adultos, freqüentamos nós, os filhos, o Mercado Central pelo prazer de comermos fígado acebolado com jiló na chapa. E hoje tive notícias, através de um taxista, que existe o projeto de recuperação da Praça Raul Soares.
Dina Maria de Souza é bancária, formada em Letras pela UFMG.
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Rogério Miranzelo. A Araponga da Afonso Pena
Para Miguel Sanches, que celebrizou o canto de uma ave no conto Hóspede Secreto.
Martelo batendo na bigorna, o som cortante, metálico. Quem ouviu a araponga cantar, em plena avenida Afonso Pena? Local extraordinário para se ouvir o estridular do ferreiro! E quem me lembrou disso foi o Mauro. A araponga ficava perto da prefeitura, no centro da cidade, anos 1970. E causava grande alvoroço, devido à curiosidade que despertava. Que som era aquele? Pássaro? Como podia viver por ali? Mas o canto feio e estridente da araponga casava-se bem com o sufoco das marchas, das pernas apressadas, com o estorvo dos automóveis na avenida, as buzinas e o cinza dos dias.
Nenhuma ave marcou tanto nossa Belo Horizonte, embora haja outras histórias. A sogra do citado amigo nos conta a de uma ave polêmica, que também vivia na área central, anos 1960. Um pássaro-preto cantador, que ficava em um açougue do Barro Preto. Cantava tanto que a vizinhança enlouquecia, pois o bairro, ao contrário de hoje, era bastante residencial. Teve até polícia: fazer o que com o bichinho, leva pra lá, traz pra cá. E ele, o arranca-milho, indiferente à confusão dos homens, tranqüilo na gaiola, a exercer o dom que Deus lhe deu, o de cantar bonito.
No momento em que escrevia esta crônica, algo martelou na minha cabeça (téin!), e me lembrei da araponga da Afonso Pena. Houvera esquecimento porque, na época, eu não sabia identificar aquele estranho som. Só anos mais tarde, já na década de 1980, é que vim a saber desse canto, vindo de outra araponga, no bairro Nova Granada. Nada chama tanto a atenção dos transeuntes. É como se ela fracionasse o tempo, com suas fiéis batidas. Ela, que aparece nos versos da linda canção do Fagner: %u201CE já ouviram o canto triste da araponga, anunciando que na terra vai chover?%u201D.
Os pássaros da minha infância e adolescência, na Barroca, eram basicamente os pardais. Eram os que eu via e ouvia. Historicamente desprezados, os pardais é que faziam algazarra na porta de minha casa, no quintal e nos muros. Que me recebiam nas manhãs de sol, ao sair de casa. No fio, na lama, na pedra, eis o pardal a brincar feliz, contrastando com meu jeito meio calado de ser. Hoje vejo e reconheço muitos outros pássaros em nossa cidade. E prefiro BH assim, com essa democracia de cores e sons. Há espaço para canários, papa-capins, pássaros-pretos, rolinhas, andorinhas, sabiás, maritacas, bem-te-vis %u2013 que imperam por aqui %u2013 e até gaviões.
Quisera uma cidade assim, de pássaros e árvores. Cada rua, um bosque; cada enxurrada, um rio; cada ruído, um cantar. Não, não. As cidades imaginárias estão dentro de nós, e é nossa missão revelá-las, em meio aos ruídos, à fumaça e à solidão.
Rogério Miranzelo é cronista, contista e poeta, autor dos livros Belo e Lua diferente.
rogerio@miranzelo.com
www.miranzelo.com
Antonio Ribeiro de Almeida. Mestre Velloso, no Instituto de Educação e no Alpino
A 11 de fevereiro de 1986 faleceu em Belo Horizonte, depois de prolongada enfermidade, Arthur Versiani Velloso, catedrático de História da Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais e membro da Academia Mineira de Letras. Ele foi a própria Filosofia nos anos em que empolgou estudantes nas suas aulas no Colégio Marconi e na Faculdade de Filosofia da UFMG. Sua pessoa sempre foi multifacetada e como lhe assentava bem a divisa que Descartes adotara : %u201C Je me cache- Eu me oculto%u201D.
Conheci Mestre Velloso quando ainda fazia o Científico. Foi num Curso de Férias que ministrou, no inicio de 1952, no Instituto de Educação. Eu havia chegado a Belo Horizonte para trabalhar na Rádio Inconfidência, estudar e fazer o Exército. Da minha pensão de estudante pobre, em plena Avenida Amazonas quase esquina com a Praça 7, caminhava ao longo da Afonso Pena aspirando o doce aroma que vinha do Parque naquelas belas manhãs belorizontinas. O Instituto de Educação, imponente em suas colunas dóricas, foi para mim o que deve ter sido a ágora de Atenas para os amigos de Sócrates. Ali entrava experimentando grande felicidade e na expectativa que os problemas do sentido da vida, da verdade, do bem e do mal, estavam encontrando um encaminhamento. Era preciso chegar antes das sete horas. A sala estava sempre lotada e os melhores lugares disputados pelos alunos. No fundo, ocupando quase toda a mesa com o seu corpo gigantesco, Mestre Velloso impunha uma presença muito forte que nunca mais percebi em outros professores. O que logo se destacava era sua vasta cabeleira, algo desorganizada, revolta e a voz poderosa. A eloquência com que ministrava suas lições ia num crescendo para terminar num clímax que a todos encantava. Os seus olhos quase não eram vistos. Grossas lentes, marrons ou verdes, os ocultavam da nossa curiosidade. No rosto moreno, a boca e os lábios compunham uma máscara indecifrável. Nas palavras deixava transparecer uma ironia apenas sugerida. Assim procedendo ele nos fazia participar de um diálogo fantástico e nos fazia crer que éramos mais inteligentes e cultos do que realmente éramos. O tempo corria célere e o final da aula chegava para o desgosto de todos nós. O Mestre nos fizera conviver com Sócrates, Platão ou Aristóteles e despertara em nós toda antipatia do mundo pelas Xantipas que não entendem a missão do filósofo. O real, o que era afinal? Belo Horizonte era Belo Horizonte ou Belo Horizonte era Atenas? E com os passos medidos, olhos cheios do azul, eu voltava, sem pressa, para o meu dia a dia. À noite, no quarto acanhado que compartilhava com um camelô, abria, cioso, o meu Leonel Franca e tentava, pelo estudo, recuperar e fixar o que fora ensinado naquele dia. Mas como o estudo era árido. A informação objetiva, segura e fria de Franca não substituía todo o deslumbramento que Mestre Velloso havia criado em mim com sua exposição. Ali, no Instituto de Educação, bem antes de terminar o meu curso Científico, resolvi abraçar a Filosofia. Queria participar daquele grupo de homens que vieram ao mundo para tentar compreender o sentido da Vida e do Universo, e, aos quais, não seduzia a busca de riquezas, do poder ou viver para satisfazer suas paixões. A Filosofia seria o meu penacho.
Dois anos depois entrei, finalmente, no Curso de Filosofia da FAFI, ainda no edifício Acaiaca, para ser aluno de Mestre Velloso. Nas aulas percebi todo o espírito, toda a ironia, ora sutil ou sardônica, com que flagelava os apedeutas e aqueles que traiam o espírito do %u201Cclerc%u201D. Não era por acaso que um dos seus textos de leitura obrigatória era o Le Trahison des Clercs, de Julien Benda. Lecionava, preferencialmente, aos sábados, toda tarde. La pelas 18 horas íamos, a seu convite, bebericar um chope, comer batatas com queijo no Alpino, rua da Bahia, mesmo quarteirão do Maleta, numa situação descontraída e livre, quando então nos informava da política universitária e dos acontecimentos culturais de repercussão mundial.
Com sua temida ironia ele criticava políticos, membros da Congregação e aqueles que considerava como traidores do %u201Cclerc%u201D. Naqueles momentos sua gargalhada retumbante era ouvida em todo Alpino. Sentia-me como um pajem naquela confraria de cavaleiros já sagrados pelo estudo e dedicação ao Mestre e que eram Morse Belém Teixeira, da Sociologia; Amaro Xisto de Queiroz, da História e Luis Bicalho, filósofo e comunista histórico.
Nenhum professor foi mais próximo de nós. Acredito que dele herdei um grande e desinteressado amor à Cultura e à Filosofia. Herdei, finalmente, um espírito livre que só pode nascer da crítica. Como sua enfermidade foi longa e penosa a morte veio como uma libertação. Sei, finalmente, que na sua ironia, ele me pediria, num fantástico diálogo post mortem, que eu sacrifique por ele um galo a Esculápio. ( Ver o sentido deste pedido em Platão, Phedon, Ed. G. Budé). Minha fé católica me impõe o suave dever da oração e uma visita ao seu túmulo. Por tudo isto é que, a partir de agora, Belo Horizonte estará insistentemente sussurrando aos meus ouvidos:
%u201CPor que não vais a Belo Horizonte? Volta lá.
Anda! Volta lá, volta já.%u201C
(Carlos Drummond de Andrade, Triste Horizonte)
Antonio Ribeiro de Almeida nasceu em 1935, em Visconde do Rio Branco, Zona da Mata. Cursou filosofia na FAFI e atualmente mora em São José do Rio Preto. De vez em quando, vai a Belo Horizonte rever os amigos, parentes e tentar reconstruir na memória a bela cidade onde viveu, amou e que não existe mais.
almeida.35@uol.com.br
Márcio Rubens Prado. O Presépio
Todo dezembro acontece. Todas as amigas e amigos dele que vêm à cidade, seja para turismo, estudos ou negócios, não escapam de um programa inevitável: a visita ao presépio do Pipiripau.
Trata-se de velho golpe do sujeito. Aproveita-se dos visitantes para, sob o disfarce de dedicado cicerone, voltar à infância. O Pipiripau sempre o remete à meninice (esta palavra ainda existe?). Tempos em que brilhava na constelação dos moleques que infestava a periferia do futuro bairro do Sion. Área então conhecida como Acaba Mundo, um lugar muito lá longe, ancoradouro de furtivos e aflitos namorados para a celebração dos ardores do amor.
Morava numa ruela sem calçamento, mas possuidora de um encanto único: tinha o presépio mais bonito e profuso das redondezas.
Por obra e graça de uma adorável e viúva senhora. Dona Adelviva. Olhos claros, imensa, rechonchuda, um transatlântico de banhas e bondades, comandante-em-chefe da montagem do presépio e da distribuição de uma espantosa fauna pelas encostas e picos dos montanhas da Judéia.
Naqueles dezembros, Papai Noel era uma coisa muito distante. Até no segmento dos presentes. A noite de natal resumia-se à missa-do-galo e à subseqüente ceia. Gostosa, farta e nacional. Pois que, a falta de dinheiro, a desinformação e a razinzice do seu pai desprezavam, nas prateleiras, nas sacas e nas latas das mercearias de então, as nozes, as avelãs, as castanhas e o peru. Argumento irrespondível do senhor seu pai: %u201CA gente passa o ano inteiro sem encarar esse gluglu das quantas e, chega a ceia do natal, temos de comer o catrafecho? Por quem sois!%u201D. Além do mais, presentes só se recebiam no 6 de janeiro, Dia de Reis. Em suma, o Papai Noel não estava com nada.
Mal e mal ele tinha notícia de que o Velhinho morava na Lapônia. E saber onde ficava essa Lapônia era atributo exclusivo de um colega do grupo escolar, um tal de Cirilo. Zoiúdo, de óculos fundo-de-garrafa, primeiro aluno da sala. Por isso mesmo, o mais antipatizado da turma. Repelido, todo fim de ano, quando ele e outros tantos moleques iam às fraldas da Serra do Curral à procura de esmeril, musgos e líquens para o presépio de dona Adelviva.
Recolhidos esses inadiáveis materais, a patusca senhora reunia a meninada no terreiro de sua casa para, digamos, confeccionar a infra-estrutura do presépio. Coisas de simplicidades. Ela dispunha folhas de jornais velhos no chão do terreiro. Após a fabricação de paneladas de grude, espalhava-se a pegajosa cola nos jornais. E, sobre o grude ainda úmido, salpicava-se o esmeril. Daí ficavam prontas, após esmeradas e discutidas dobras, as ásperas montanhas que rodeavam Belém de Nazaré. O trabalho se completava quando todos, liderados pelas opulências de dona Adelviva, iam para a %u201Csala do presépio%u201D, um exato quadrilátero de seis metros por seis, um janelão dando para a rua. E sem grades, que tempos aqueles.
Nesse imenso salão, armava-se o presépio todo. As montanhas judaicas passavam a abrigar todos os bichos que navegaram na Arca de Noé. E até os que não enfrentaram a chuvosa viagem. Tigres, rinocerontes, carneiros, ursos, elefantes, camelos, girafas, cangurus, leões, ursos, antas, onças, capivaras, até bodes e tatus. Dentro da gruta, uma vaca malhada e um burro marrom faziam companhia ao atarantado carpinteiro, à suave Maria e ao rosado Guri, que batia as perninhas na manjedoura.
Num ano antigo daqueles, dona Adevilva encaixou um laguinho em frente à gruta: um caco de espelho, imitando água. Ali deslizavam, em idênticas e inconcebíveis proporções, um cisne branco e um barquinho, com a bandeira nacional na proa. Às margens do lago, o espanto: um inédito avião. Corretamente aterrissado. Teco-teco de celulóide, sim, mas avião mesmo.
O estupor que se abateu sobre os garotos, estudantes de catecismo em preparativos para a primeira comunhão, foi desfeito pelo irmão mais velho do nosso herói, digo, cicerone. Quando alguém ameaçou perguntar a dona Adelviva que absurdo o avião estava fazendo ali, o irmão informou: %u201CCambada de bocós. Não tão vendo? Mudou tudo. É pra Sagrada Família partir pro Egito. Ou cês acham que Eles ainda vão fugir pra lá em lombo de burro?%u201D.
Dito o que, voltemos ao Pipiripau. Outra vez.
Márcio Rubens Prado é jornalista, escritor e cronista esportivo (estigmatizado) nas três divisões: torce pelo América (MG), Grêmio Portoalegrense (RS) e Botafogo (RJ).
marcioprado@magix.inf.br
Carlos Perktold. Filho de Bicheiro
Seu nome era Éber, mas nós o chamávamos de Ebinho. Ele tinha a mesma idade de todos do nosso grupo de meninos, mas nele havia alguma coisa de triste, até mesmo nos raros sorrisos, que o fazia parecer mais velho. A tristeza da sua alma infantil, imperceptível pela turma, estava refletida no seu olhar e somente depois de adulto disso me lembrei e entendi. Seus cabelos ou estavam grandes demais ou apareciam, a cada três meses, cortados de forma estranha, cheios de %u201Ccaminhos de ratos%u201D como dizíamos naquela época. Nenhum de nós entendia que isso acontecia por falta de dinheiro para o cabeleireiro. O corte era feito em casa, pela mãe. Ela, desconhecendo a técnica, não se preocupava em tirar apenas uma parte dos cabelos que sobrava sobre as orelhas do filho. Cortava em excesso e, sem ferramenta adequada, fazia um serviço malfeito e o filho é quem passava vergonha e humilhações. Vendo seus cabelos picados daquela forma, a gozação entre os amigos era inevitável.
Ebinho era filho de bicheiro na rua onde morávamos quando crianças no bairro Carlos Prates, em B. Horizonte. A sua família morava num dos dois barracões construídos nos fundos de uma casa. A privacidade entre as duas famílias era mínima e, por isso, havia uma solidariedade inquestionável entre eles, em especial entre as duas mulheres. Às vezes, o pai de Ebinho ficava preso várias semanas e a vizinha mais próxima e as outras auxiliavam a família. Ao contrário de um outro morador das redondezas, comunista ativo, a cuja família, quando preso, o Partidão nunca deixava faltar nada, o banqueiro para o qual ele trabalhava nunca aparecia ou mandava um representante para ver como estava a família na ausência do pai. A atividade de bicheiro em meados de 1950 não tinha o glamour de hoje com banqueiros se declarando %u201Cempresários do ramo lotérico%u201D. A contravenção era combatida pela polícia e as prisões eram notícias nos jornais. Esse repressivo conjunto era o sofrimento de todos da família, em especial por Ebinho, que, sendo filho mais velho, se colocava no lugar de um pára-raios das dificuldades emocionais da família.
Lembro-me de que, algumas vezes, chegávamos perto da casa dele quando a polícia já havia levado seu pai preso. Encontrávamos a mulher olhando o infinito, representado por um ponto fixado no espaço, perplexa no portão de entrada do barraco, e Ebinho chorando um choro sofrido e calado. Em outras ocasiões víamos que era ele próprio quem, na ingenuidade de menino, tentava impedir que os policiais levassem o pai. À polícia ele pedia, implorava, gritava e, reconhecendo sua impotência e a inutilidade de seus esforços, gritava de ódio e xingava tudo que podia, enquanto seu pai era trancado na traseira da rádio-patrulha. A mãe olhava desesperada a luta do filho, com outro no colo, um terceiro segurando a barra da saia e o quarto na barriga. A lembrança que tenho é de que ela estava sempre grávida. Nunca soube nome dele, pois, para nós, ele era apenas %u201Co pai de Ebinho%u201D e para os nossos pais e os vizinhos, %u201Co bicheiro%u201D.
Ebinho era um bravo guerreiro lutando em defesa do pai, mesmo sabendo que o trabalho dele era ilegal. Acho que nunca ocorreu a ninguém da família que seria menos doloroso para todos se ele trabalhasse noutro segmento. O jogo-do-bicho não era escancarado como hoje, com lojinhas espalhadas pela cidade aceitando apostas o dia inteiro e todos fingindo que elas não existem. Nos idos de 1950, ser bicheiro era uma heróica atividade, reservada a quem fosse peitudo para enfrentar a polícia e a cadeia por curtas e sucessivas temporadas. Para quem era visto com esse aposto, significava também que ele era um soldado raso num regimento de contraventores, um cavador que, ao final do dia, seu exército havia conseguido transformar pequenas apostas numa substancial trincheira, despejando no caixa de um desconhecido banqueiro, todos os valores arrecadados às escondidas. Nada diferente de hoje, exceto o rigor de então com que eles eram combatidos. Tempos difíceis para Ebinho, seu pai, seus irmãos e para a maior guerreira da região, sua mãe. Naquela época ela não devia ter mais que 32 anos de idade, mas, me lembrando dela hoje, tenho a impressão de estar vendo uma senhora idosa, com o rosto marcado pelo sofrimento, pela tristeza e pelo olhar com que via o marido dentro do carro da polícia. Nunca esqueci os olhos do pai, a pedir desculpas pelo constrangimento provocado. Eles continham o lamento de ter sido preso, o mesmo olhar que prometia vida nova no futuro, observando a postura dela, que aceitava tudo e não acreditava em qualquer mudança na sua volta, quinze ou vinte dias depois. Quando ele aparecia havia uma festa na família, como se ele tivesse chegado de uma viagem de negócios com a mala cheia de presentes. Para a família o maior deles era a sua presença.
Apesar das dificuldades emocionais e financeiras que sua atividade profissional causava à família, percebo hoje que entre eles circulava amor. A miséria, a ausência periódica dele, o perigo oferecido pela profissão e as constantes dificuldades, tudo os unia. A última cena que me vem à lembrança é do pai chegando de uma dessas temporadas fora, correr para carregar o filho menor, andar abraçado ao Ebinho, que chorava de alegria de vê-lo, e ir ao encontro da mulher grávida.
Carlos Perktold é psicanalista em Belo Horizonte, integrante do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais e da Associação Brasileira de Críticos de Arte-ABCA.
perktold.bh@terra.com.br
Luís Carlos Silva Eiras. O Menor Bairro do Mundo
De 63 a 69 eu morei na Lagoinha %u2013 rua Rio Novo %u2013 e posso garantir que se tratava do menor bairro do mundo. Ninguém que morava lá, morava lá. Explico.
Conheci um sujeito que, muito decidido, me disse que morava no Centro da cidade. Descobri depois que ele morava no início da rua Itapecerica, um quarteirão da Praça Vaz de Melo, portanto em plena Lagoinha, mas que, na geografia das apresentações, foi esquecida.
As meninas que moravam na Álvares de Azevedo, Ponte Nova e Araxá moravam, claro, no Alto do Colégio Batista, um bairro que nunca existiu. Conheci uma, que morava na rua Francisco Soucasseux (está é pra programa do Sílvio Santos: onde fica a Francisco Soucasseux?), que não teve dúvidas:
- Moro na Floresta.
O que, convenhamos, é um certo exagero. Em tempo: nós dividíamos as meninas da Lagoinha em profissionais, amadoras e presas dentro de casa, mas isso é outra história.
Já as meninas da Resende Costa, Itatiaia, Jequeri, Turvo e início da Além Paraíba também não tinham dúvidas: moravam no Bonfim.
- No lado de dentro ou no lado fora? %u2013 perguntávamos sempre. (Para quem não entendeu: no bairro do Bonfim fica o cemitério do mesmo nome, daí a pergunta).
Quem morava no final da Além Paraíba, resolvia o problema de outro modo: morava na Praça 12, que descobri mais tarde, também nunca foi bairro.
Por outro lado (literalmente), quem morava na Antonio Carlos, Diamantina e Formiga, igualmente não se apertava:
- Moro na Concórdia %u2013 diziam as meninas.
Outras se saiam melhor: moravam num lugar que não era preciso citar o bairro:
- Moramos no Conjunto IAPI. Ou bairro São Cristóvão. (Outro que, como o santo, nunca existiu. O santo foi cassado pelo Paulo VI, mas hoje se encontra reabilitado).
Mas, quem, afinal, morava na Lagoinha? Pouca gente como nós da Rio Novo, o pessoal da Itapecerica (parte final) e da rua Caxambu que, não tendo outra alternativa, assumia orgulhosamente o bairro como um distintivo, uma filosofia, um atestado de experiência e malandragem. Às vezes, até com certo exagero. Um amigo meu, pacato morador da Pedro Leopoldo, dizia para as meninas que morava na Padre Lopes %u2013 era assim que nós chamávamos a Pedreira Prado Lopes, favela não tão perigosa quanto hoje.
Anos mais tarde, a praça da Savassi sofreu uma síndrome inversa: seus limites se estenderam pelo Santo Antônio, Centro, Lourdes, São Lucas, São Pedro, Anchieta e Cruzeiro, parecia que todos em Belo Horizonte moravam de alguma maneira na Savassi, transformando-a num dos maiores bairros do mundo. A Lagoinha, pelo que sei, continua um dos menores.
Luís Carlos Silva Eiras é analista de sistema e trabalha na Savassi. Mora no Alto do Colégio Batista e freqüenta o Floresta Tênis Clube - que fica na Lagoinha.
luiscarloseiras@terra.com.br
Alberto Villas. O Aviário Modelo
Quando o avião da Varig sobrevoou Belo Horizonte pela última vez, olhei acanhado por aquela janelinha redonda, lá embaixo. A cidade que estava deixando rumo a um exílio voluntário, não era tão cruel assim como eu bordei para amigos, dias antes de partir. Vi muito verde espalhado por suas ruas e avenidas, prédios que brotavam em bairros novos rasgando a periferia como massa de pizza, quando queremos fazê-la crescer. Enxergava, lá de cima, Corcéis, Pumas e Opalas circulando por suas veias, como se fossem minhas miniaturas de Matchbox que deixara guardadas na casa da minha mãe, na rua Rio Verde, 648. Visto assim do alto, era um belo horizonte.
Não sei se chorei mas, já instalado no sétimo andar do número 4 da rua Paillet vi, da janela embaçada pelo suor do vidro, uma outra cidade. Era uma Paris cheia de neblina no auge do seu inverno de 1974. As árvores não tinham folhas e uma camada fina de gelo cobria os gramados. Era um triste horizonte para quem acabara de chegar com o objetivo de ficar. No meu quartinho, instalei o quartel-general de memórias. Em cadernos Avante!, aqueles que traziam na capa um escoteiro empunhando uma bandeira brasileira, anotava o que não queria esquecer.
A avenida Afonso Pena com suas árvores cheias de amitinhas. A Sociedade Mineira de Engenheiros, onde passei grandes carnavais, a Igreja do Carmo. O Colégio Dom Silvério onde dona Maria Augusta Toscano me ensinou a ler, a rua Grão Mogol onde ficava a Padaria La Fornarina e o Bar Maron. O Sobrado do Torra onde, subindo a escada, percebi que já sabia ler: "Em cada degrau, 1 cruzeiro de economia." O Mundo Colegial, onde comprei minha primeira sunga Big para participar de um campeonato de futebol no bairro. O Armazém Colombo, no coração da Savassi, as Estâncias Califórnia, onde meu pai comprava aquelas caixinhas vermelhas de uva-passa, vindas lá da América do Norte. As Lojas Gomes, onde comprei o Domingo, primeiro disco de Caetano Veloso. O Posto Fraternia, onde meu pai enchia o tanque do Land-Rover todos os sábados, antes de ir para o mercado.
Era no caderno Avante que anotava também os nomes das pessoas que não queria ver desaparecer na minha memória. Valdivino, o tintureiro. Geraldo Savassi, o dono da padaria. Chain, o dono do botequim. Licurgo, um velho que usava uns óculos verdes e que me dava muito medo. Doutor Asplênio, o engenheiro. Irmão Xavier, o diretor do colégio. Valter, o marido de Cindalva. Doutor Aldo, o médico. Hormínio, o farmacêutico. E Nelson Thibau, o louco que queria trazer o mar para Minas.
Naquele meu exílio em Paris, Belo Horizonte não havia mais. A livraria Van Damme onde comprava a Rolling Stone. A banca de jornal onde namorava os fascículos dos Gênios da Pintura. A Confeitaria Bosch, onde comia com o meu pai o melhor sanduíche de pernil do mundo. A Loja Peps na rua da Bahia, onde minha mãe namorava os eletro-domésticos de última geração. O Mineirão, novinho em folha, onde assistia os jogos do meu América, mesmo nas quartas-feiras de chuva em que enfrentava o Democrata.
Paris era uma festa e Belo Horizonte um retrato dependurado na parede, que doía. Procurava desesperadamente os poemas de Drummond na Joie de Lire, uma livraria no coração Quartier Latin. Era neles que me agarrava nas horas de muito frio e solidão. "Vai, Hotel Avenida, vai convocar teus hóspedes no plano de outra vida". Na procura da vida passada a limpo, encontrava uma parte da minha Belo Horizonte. A outra, continuava procurando pelas ruas de Paris.
Foi numa manhã de domingo, andando pela feira da rue Mouftard, entre cerejas e framboezas, coelhos e carneiros, camemberts e bries, que me veio na cabeça o Mercado Central. O bar que ficava no corredor de passagem, onde meu pai tomava a primeira Brahma Chopp do dia, acompanhada de iscas de fígado. A barraca onde minha mãe se deliciava com os doces de leite, com a mangada, a pessegadas, a figada e com aquela goiabada cascão cem por cento goiaba. A barraca de bananas, a de laranja e a de legumes, que vendia até taioba.
Tarde da noite, já no quarto onde morava, depois de um chá acompanhado de pão preto com geléia de laranja amarga, peguei o meu caderno Avante decidido a descrever, com todos os detalhes, a loja que mais me impressionava no Mercado Central de Belo Horizonte. Ela vendia frangos vivos ou mortos, à escolha do freguês. Era só apontar e, em poucos minutos, ele estava nas suas mãos, morto e limpo, ainda quente. Mas você tinha também a opção de levá-lo vivo para casa. Depois de escolhido, um barbante juntava seus pés e ele era enrolado num exemplar do Diário de Minas, ficando de fora, só a cabeça. Era assim que meu pai levava para casa, todos os domingos, um frango vivo que seria abatido no quintal da minha casa. Ele queria o sangue fresco para o molho pardo. O bicho chegava em casa com o bico aberto e muita sede de viver, pobre coitado. Abri o caderno Avante! na primeira página, inteiramente branca, e escrevi um título bem caprichado: O Aviário Modelo.
Alberto Villas é mineiro e tem, até o momento, sua vida dividida em três etapas. vinte anos em Belo Horizonte, uma década em Paris, e vinte anos em São Paulo, onde atualmente trabalha na Rede Globo. tem quatro filhos, dois franceses e duas paulistanas, além de uma neta, mineira.
apvillas@uol.com.br
Arthur Vianna. Praça das Liberdades
Na Praça Raul Soares os homens circulavam no sentido do relógio e as mulheres no sentido inverso. Quando os olhares se encontravam e diziam quero mais, o casal seguia para o interior da praça. Assim funcionava a paquera na época dos nossos pais.
Das muitas praças que conheci nenhuma me conta mais do que a Praça da Liberdade. Mesmo hoje, ela tem sempre alguma coisa para me dizer. Também pudera. Se ela me viu de calça curta, eu a conheci menina-moça. Não conheço todos, mas sei alguns de seus segredos. Seu maior pecado era a sua postura elitista e até mesmo racista. Castro Alves escreveu certo dia que "a praça é do povo, como o sol é do condor". Não era o que acontecia na Praça da Liberdade de então. A praça era dividida. De um lado, os pobres. Do outro, o lado do coreto e da fonte luminosa, os tidos como bem nascidos. Mas, dizem, o melhor dos lados era o lado dos soldados e das domésticas. Menos iluminada, o namoro era mais seguro. Talvez daí tenha surgido, a boca pequena, o nome de Praça das Liberdades.
Nos anos sessenta, o Gastão e a Maristela Tristão dedicavam-se, na prefeitura de BH, à promoção da cultura e do turismo. Da cabeça dos dois nasceu, para gáudio dos artistas consagrados e emergentes, a Feira Hippie da Praça da Liberdade. Nos primeiros dias, artistas e artesãos apresentavam seus trabalhos em torno do coreto. E, nada acanhado, lá estava eu com os meus bonequinhos de fios sobre um couro de vaca. Hoje, a Feira ganhou a avenida e espraiou-se pela cidade afora.
Mas foi na década de 80 que consegui entrar no coração da Praça da Liberdade. Tancredo, Milton Nascimento e Fernando Brant foram a minha inspiração para, como vereador, dar nome à sua belíssima alameda central: Alameda Travessia. Uma lâmina de vidro próxima ao Coreto revela a letra e conta a história.
No entorno da Liberdade, nasci, cresci e conheci a minha primeira namorada. Da Rua Thomé de Souza 1018, fui nadar e dançar no Minas Tênis, assistir cinema no Pathé, comprar pão na Padaria Savassi, remédio na Drogaria São Félix, ver as novidades na Loja Stella Maris do %u201Cseu%u201D Nezinho e conviver com os amigos na Turma do ServBem.
Arthur Vianna publicitário, jornalista e ex-vereador de Belo Horizonte. Nasceu em julho de 1945 na região da Savassi.
www.escritosdoarthur.blogspot.com
Carlos Alenquer. O Manual de Sociologia do Professor Morse (Da série Recuerdos da Filosofia. ou FAFI. ou FAFICh)
Todas as segundas e quartas-feiras %u2013se não me embaraça a péssima memória%u2013 por volta das sete horas da madrugada, o professor Morse Belém Teixeira ouvia tocar a campainha de sua casa, no bairro do Santo Antônio. Eram os alunos das Ciências Sociais da Filosofia (também FAFI e só depois FAFICh) que chegavam mais cedo à Faculdade, deixavam seus livros e pastas sobre as carteiras e subiam até a São João Evangelista para acordar o mestre.
Os alunos dos outros cursos achavam que era algum fingimento explícito daqueles falsos cê-dê-efes. Como diziam os biólogos do quarto andar e as psicólogas do segundo, não podia ser sincera uma atitude que partia de malucos que gastavam seu tempo bebendo vinho de garrafão de dia, fazendo serenatas de noite e pregando o amor-livre no murinho do pátio da escola nas manhãs de aula.
Opinião a ser levada a sério. Para quem havia se determinado, como função primordial na vida, a reclamar das injustiças, das instituições, da virgindade, dos professores de uma maneira geral %u2013e do que ensinava Estatística de uma maneira particular%u2013 buscar um professor para dar aula era um contra-senso.
Mas com o professor Morse essas rebeldias eram vãs. Sabíamos que por trás daqueles óculos estava uma pessoa acima de qualquer mau humor. E amávamos seu jeito displicente de falar da Sociologia, e admirávamos da sua paciência com a burrice, e nos deleitávamos com o seu modo de contar causos (o que mais fazia sucesso, do tanto que se repetia, falava da perda constante de seu Chevrolet %u2013era um Chevrolet?%u2013 sempre que o professor saía para encontrar os amigos e voltava de táxi, esquecendo o carro em alguma rua incerta e não sabida perto da Gruta Metrópole, provavelmente).
O motivo da paixão era simples: a forma como ele resolvera nos iniciar na arte da Sociologia. Às sete em ponto de alguma segunda-feira perdida no tempo, ele sentou-se na cadeira que lhe cabia, deu uma panorâmica naqueles trinta e poucos gatos pingados que acabavam de entrar para a universidade %u2013alguns de cabelos compridos, outros bem-comportados, as meninas quase todas de mini-saia e sem sutiã%u2013 e perguntou se a Sociologia interessava mesmo aos presentes. Antes que alguém respondesse, ele foi ao quadro e escreveu Ferenc Molnar e, logo a seguir, Os Meninos da Rua Paulo.
Virou-se novamente para a platéia um tanto desentendida e disse para os que tinham dinheiro comprar o livro, para os que não tinham pedir emprestado, ou ir à biblioteca pública. E finalizou: tudo o que se sabe sobre a sociedade está aí: conflitos, acordos, solidariedade, traição. E foi-se embora.
Como na quarta-feira seguinte ele não apareceu (talvez o professor ache que a gente ainda não leu o livro, alguém contemporizou), uma rápida assembléia resolveu radicalizar: se ele não vem, então nós vamos até ele.
A partir daí, todas as segundas e quartas, um grupo (que se revezava, ninguém é de ferro) subia cedinho até o último quarteirão da Carangola, dobrava à esquerda, e na primeira portaria apertava a campainha do apartamento do professor Morse. Lá dentro, o sociólogo sorria para o espelho enquanto fazia a barba %u2013quando fazia. Depois, descia pelo passeio do Demae conversando suas crenças com pirralhos ainda adolescidos, o paletó ao vento, as palavras exatas, os olhos atentos.
Deve ser por isso que meninas e meninos do sub-solo acreditavam, alegres, que o mundo começava a mudar de rumo com aquelas caminhadas em que as manhãs sempre pareciam ser banhadas de sol, muito sol. Mas aí veio o AI-5.
Glossário básico
Amor-livre: teoria francesa com influências de Marx, Marcuse, Freud e Mary Quant, que pode ser resumida nos versos de um bolero da década de 50 que antecipava a década hippie: %u201CNinguém é de ninguém/ na vida tudo passa./ Ninguém é de ninguém/ até quem nos abraça%u201D.
Murinho: lugar estratégico, na área externa do térreo da Filosofia, onde se conversava potoca e se tomava conta da cantina, do DA (Diretório Acadêmico) e ainda da movimentação no subsolo, onde funcionava o curso de Ciências Sociais.
Gruta Metrópole: o boteco mais chique da cidade, freqüentado pelos antigões do Estado de Minas (o jornal da rua Goiás, não o Governo), intelectuais consagrados, alguns ricaços, e praticamente proibido %u2013pelos preços que praticava%u2013 para os alunos da Filosofia.
Filosofia: nome da Faculdade que era também FAFI, unidade da UFMG na Carangola, 288, onde ficavam os cursos de Filosofia propriamente dita, no oitavo andar, e descendo: Letras, Geografia, Pedagogia, História Natural, História e Psicologia. Mais tarde virou FAFICh.
Demae: sigla do Departamento Municipal de Águas e Esgotos, depois encampada, ou vendida, ou trocada por alguma coisa entre a Prefeitura e o Governo do Estado. Hoje é Copasa, que todo mundo sabe o que é.
AI-5: chamado pelos juristas de instrumento de exceção era na verdade um Ato Institucional (mas não Constitucional) que obrigava você a fazer tudo o que o mestre mandava. Os que não concordavam, vocês sabem o que acontecia com eles.
Carlos Alenquer é publicitário, mas também meio jornalista, talvez poeta bissexto (Anúncios, 1983, Achiamé, Rio, e 21 Poemas, 1998, Mazza, BH). Nascido em Fortaleza, é belo-horizontino porque quer, não por Cidadania Honorária.
alenquer@dreamland.inf.br
Ana Vasco. Estrangeira Dentro de Casa
Sempre me perguntaram por que vim parar em BH. Quando era criança, me sentia indisposta com a pergunta. Era como, mesmo sem ter raízes bem firmadas no solo, esta terra já adubasse meus sonhos desde que me vi e senti menina. Belo Horizonte era minha e disso já tinha certeza. Mais minha do que o meu berço ou que a primeira bicicleta. Com o tempo, enfim, aprendi a ter a coragem de confirmar que era uma estrangeira aqui. Estrangeira como a que vem de fora e não como aquela que não é capaz de se integrar ao novo chão.
Talvez tenha vindo parar em Minas apenas por obra do acaso. Depois de muitos anos vivendo na África e voltando a inspirar os ares lusitanos sem grande prazer, meus pais só quisessem sentir novamente o calor do povo dos trópicos, provar o alívio das montanhas e saborear o tal pão de queijo que só aqui se sabia enrolar e assar com perfeição. Tão menina e só com uma mala de poesia nos braços, eu acreditava que essa não era uma escolha, era a sina inevitável, a correção da história.
E se não nasci na Praça da Savassi, foi lá que construi meu castelo. Descendo a Lavras, subindo a Contorno, fui desenhando meu próprio mapa. Aqui e ali fiz amigos, plantei minhas árvores, beijei meus amores, inventei despedidas, espalhei promessas. E guardei saudáveis lembranças das ressacas curadas com uma última dose no Bar do Lulu; das risadas que guiavam as lentas caminhadas pela rua Uruguai; dos domingos quentes e coloridos nas trilhas apertadas da feira da Praça da Liberdade; dos passeios vazios, margeados de amigos, na Cidade Nova; das luzes foscas que provocavam mágicas sombras na Afonso Pena, de madrugada, em cada volta para casa.
Se a certidão de nascimento foi a principal testemunha de acusação - denunciando sempre meu estado de eterna estrangeira -, as ruas, os muros, os prédios, os postes são provas do amor incontido que eu %u2013 semente pronta para explodir em broto %u2013 escondi em diferentes quintais desta terra.
Talvez minha história possa ser um dia usada como uma garantia de minha mineirice, mas ainda me falta mais. Preciso ter a certeza de que esta terra também irá me acolher depois de perder minhas flores, recolher cada galho. Sorte tiveram meus pais que souberam escolher o lugar em que iriam morrer...
Um dia, quem sabe, vou poder responder à pergunta que tantas vezes me fizeram com menos desconforto. Não foi por pura sorte que vim parar aqui. Algumas pessoas nascem em uma cidade pois não têm outra escolha, outras são encantadas e atraídas pela terra que as quer cultivar e fazer delas o fértil adubo quando o outono chegar. Vim para ficar e ser daqui, para sempre estrangeira dentro de sua própria casa.
Ana Vasco Jornalista formada pela PUC-Minas, filha de portugueses que adoravam viajar pelo mundo. Nasceu em Harare (Zimbabwe) e vive em Belo Horizonte desde 1979.
amvasco@gmail.com
Júnia Carvalho. Para Sempre, no Rio da Minha Aldeia
O Carmo, para quem não sabe, é um retângulo perfeito entre a avenida Nossa Senhora do Carmo %u2013 para a qual dá vista a igreja, de mesmo nome e que, segundo dizem, tem o maior número de sinos da capital %u2013 e a rua Pium-í, também chamada de Piu-í, cuja continuação é a rua Piauí, no bairro Funcionários. Nos outros lados do retângulo ficam a avenida do Contorno %u2013 que abraça o traçado original da primeira capital planejada do País, de leste a oeste e norte a sul %u2013 mais a avenida Uruguai, antigo rio, embora alguns digam que o Carmo termina mesmo é na Rio Verde e que dali pra cima é Sion.
Nasci nesse bairro de tímidas proporções. Minha casa era um sobrado no iniciozinho da rua Grão Mogol, onde a Contorno esbanjava no centro amplo canteiro, escoltado por árvores gigantes, de sombra profunda. A casa sumiu e sobrou uma papelaria de nome estranho e placas enormes. Ali perto, a Mercearia Colombo abria a Savassi, desde sempre coração da cidade. Dá pra imaginar se o armazém fosse hoje um café-livraria bem bacana, onde a gente pudesse encontrar e beijar na boca quem se quer, numa tarde de sol e primavera? Todos aqueles balcões recheados de arroz, feijão, canjiquinha, milho, tudo a granel, nossos dedos correndo entre os grãos sem parar. Do meu sobrado pra cima, mais sobrados %u2013 o da costureira, o da amiga que fornecia marmitas %u2013; casas de gente rica %u2013 uma delas abrigou a Casa Cor este ano %u2013; padaria; farmácia; a igreja; feira livre no domingo de manhã; bar; sorveteria; e a loteria, onde meu pai tentou a sorte anos a fio.
Então. Foi no Carmo que morei até os 15 anos quando, após rápida incursão pelo Anchieta, me mudei para o Sion. E de lá parti pro Santa Lúcia, do outro lado da antiga BR, onde levei dez anos pra entender que as coisas estavam erradas. Fui e voltei: Lagoa Santa, Colégio Batista, Sion, um oásis no Carmo, Serra, Sion de novo e depois, como todo bom filho à casa torna, desembarquei na aldeia, encantada de ouvir outra vez a canção dos sinos que me chama de volta pra tribo. Melodia que o barulho das ruas não conseguiu sufocar. Não moro mais em frente à igreja, nem num sobrado. Mas reconheço na rua o relojoeiro, a senhora que perdeu a filha, a dona da cerâmica e da primeira casa onde minha irmã morou, o barbeiro, a ex-modelo, meu tio se apoiando na bengala, mas sem perder aquele seu ar de distinção. Sei que onde há um prédio era a clínica Rio Verde, cujos doentes, na sua loucura, temíamos e admirávamos. E onde tem outro prédio existia uma vila parecida com a da rua Guajajaras, cheia de casinhas de dois quartos, onde vivi em absoluta alegria, depois que minha mãe alugou duas casas e ganhamos a primeira televisão, porque até então a gente via a Jovem Guarda de cima do muro vizinho.
Mas como nem tudo são flores ou árvores %u2013 o Carmo é muito arborizado e tem jardins lindíssimos %u2013 há gente que o chama de Sion. Vai responder em que bairro fica a rua Outono: Sion. Onde é o Albano´s? No Sion. Onde você mora? Sion. E a pessoa mora na rua Montes Claros, esquina com Boa Esperança! Perplexa, já ouvi falarem Carmo-Sion, como se o segundo acrescentasse nobreza ao primeiro. Como se todo mundo não soubesse que a origem da dobradinha era uma linha de ônibus que vinha do centro e ligava os dois bairros. Fico me perguntando que diabos alguns têm contra este nome: Carmo. Tudo bem que muita gente não conhece o bairro, mesmo morando na cidade. Mas se a gente parar de falar, daqui a pouco ninguém mais vai se lembrar. Nem o catálogo. E o Carmo será engolido pelo Sion. Isso sem falar na ameaça do Anchieta e do Cruzeiro, separados só por uma rua, o contrário do São Pedro e Santo Antônio, que estão isolados por uma avenida quase intransponível, cujo nome parece garantir a identidade do Carmo como quem guarda o título de uma dama antiga. Os bares, brechós, salões de beleza, farmácias, padarias, escritórios, casas e apartamentos perderiam para sempre a chance de contar, entre outras exclusividades, que um dos três únicos jequitibás vermelhos da Região Metropolitana de Belo Horizonte está plantado ali, na rua Campanha, pelas mãos de Clóvis Salgado, o mesmo que dá nome à Fundação. Campanha? Que rua é essa? A rua mais linda do mundo. E fica no Carmo, faz favor.
Júnia Carvalho é jornalista e professora da PUC Minas. Em 2004, lançou seu primeiro livro de poemas, Dora Ventania, pela Mazza Edições.
junia.claudia@terra.com.br
Fernando Fabbrini. Sábado Depois da Aula
Toninho era o nosso Presidente democraticamente eleito. Ah, sim, explico, tínhamos pelo menos um presidente em 1967, o Presidente do Diretório Estudantil do Colégio Estadual. Comparecer à aula sábado de manhã servia apenas como desculpa para a gente se encontrar com o Presidente, Tiza, Paulinho, Xexéu e o resto da turma antes de partir, rumo ao Centro, em solenes incursões etílico-culturais. Ou então - ó povo unido que jamais será vencido %u2013 na missão arriscada de engrossar fileiras de uma nova passeata contra qualquer coisa. Incluindo a Guerra do Vietnã, ali tão próxima, ou o famigerado Acordo MEC-Usaid, lembram-se? Movidos pela fome de liberdade, de cultura ou de pastel com cerveja descíamos em bandos pela Praça da Liberdade até a galeria da rua Espírito Santo com Tupis, onde se erguia nosso impávido baluarte contra a Ditadura - a Livraria do Estudante.
Foi lá que, um dia, Zé Márcio e eu pintamos a guache um grande mural abstrato sobre papel kraft %u2013 uma merda! - e ganhamos nossos primeiros trocados com a arte. Pediram um cenário moderno para um lançamento de livro %u2013 coisa freqüente na Livraria do Estudante, porque naquela época os estudantes liam livros, sabiam? Terminamos em cima da hora, já que o Zé inventou de carregar no tom do vermelho. Tá louco, Zé? Chega de cor vermelha. E se passar por aqui um Agente do DOPS?
Pois era o lançamento de um livro de um cara que desenhava charges. Charges - era assim que se chamavam os desenhos daquele tempo, nada de cartoon, vê lá se isso existia. Era um sujeito magrelo, divertido e tinha olhos elétricos, espertos. O livro se chamava Hiroshima Meu Humor e o cara que desenhava as charges era irmão do Chico e se chamava Henriquinho. Depois ele virou Henfil e só voltei a vê-lo na TV, barbudo.
Bebemos algumas caipirinhas ligeiramente mornas com bolinhos de feijão nem tanto. E tal mistura, aí pelas duas da tarde, deu-nos combustível para percorrer o caminho inverso, sempre a pé, depois que alguém convidou: %u201CTem uma roda de violão na Católica, um cara de fora. Quem vai?%u201D
Fomos. A Católica era na Praça, recanto das universitárias de Belo Horizonte com as quais sonhávamos - porque eram lindas, liam Sartre e entendiam Godard, usavam imensos óculos escuros e eram todas, como se suspeitava vagamente, adeptas do amor livre. Mísero secundarista, quantas vezes desejei perder-me em amores livres por uma universitária da Católica nem um pouco cristã? Estiquei o pescoço por cima de um coque-banana para ver o pedaço de um violão e seu dono, no pátio, cercado por moças extasiadas. Puxei conversa com uma estudante de Direito.
- Quem é? %u2013perguntei.
- Da PUC de São Paulo. Chama-se Francisco Buarque de Holanda.
E isso é nome de cantor? Fui embora. Sábado depois da aula ainda dava tempo de pegar a matinê do Pathé, ali pertinho. Na boca, o resto do gosto azedo da caipirinha era deliciosamente doce aos meus dezessete anos.
Fernando Fabbrini é profissional da área de Comunicação, cronista, autor do livro Almanaque das Coisas %u2013 Edições CLA. Nasceu em Belo Horizonte em 1949 e depois de rodar muito por aí, resolveu e voltou.
fabbrini@gmail.com
Lindolfo Paoliello. Horizonte em Ocaso
Há uma opção afetiva que a gente pode fazer na vida e que, por um motivo ou outro, não é possível na escolha de parentes, sócios, vizinhos e mesmo, às vezes, do marido ou da esposa: é a escolha da cidade onde se quer morar.
Não é uma escolha fácil e seria equivocado tratá-la a partir da visão de que haveria uma parte pró-ativa, o imigrante, e outra passiva, a cidade que o recebe e acolhe. Não é assim. A cidade é um organismo vivo que tem sua força, recursos, encantos e seus tentáculos e, assim, seus instrumentos próprios para atrair e segurar seus habitantes. Por outro lado, podem lhe faltar recursos e atrações que tiram dos seus moradores a vibração e, não raro, os expulsa.
Belo Horizonte não é exceção e tem seu ritmo de vida ditado por esse movimento de sístole e diástole. Nasceu funcionária pública, instalando próxima à igreja da Boa Viagem a burocracia vinda de Ouro Preto; acolheu uma italianada alegre, trabalhadora e ruidosa que temperou o espírito nostálgico do mineiro; cresceu com a migração dos jovens do interior, em busca de seus excelentes colégios e faculdades; desenvolveu-se com a capacidade dos empreendedores e o esforço dos trabalhadores. Estes vieram em busca de um horizonte mais amplo do que o das montanhas que impediam a mecanização; das minerações esgotadas ou dos sertões pisoteados onde se sobrevivia apenas.
BH acolheu e expulsou. Sobretudo, não tem sido capaz de impedir a drenagem de cérebros exercida pela capacidade polarizadora de outros centros. Agravada por uma indolência jeca que mina suas forças e a inibe de criar, ousar, competir.
Tomando apenas como amostragem o pequeno, mas pleno de pulsação e vida, universo dos cronistas, convém pensar porque Fernando Sabino apagou sua luz, outro dia, sem que nossos filhos tenham tido a oportunidade de conhecê-lo, bater com ele um papo na Savassi. O mais fértil e popular cronista brasileiro exerceu o seu poder de escolha quanto à cidade em que queria morar. E trocou Belo Horizonte pelo Rio no final dos anos 40, com outros mágicos, como Paulo Mendes Campos, Otto Lara Rezende, Hélio Pellegrino e o mineiro de Cachoeiro de Itapemirim Rubem Braga. Por que os cronistas se mudaram de BH?
Um dia perguntei a Paulo Mendes Campos o que eu poderia dizer, em uma breve saudação, que mexesse com Otto e ele respondeu, de pronto: %u201CPergunte-lhe se mineiro bom é o que saiu de Minas%u201D. Isto é verdade ou mais um dos %u201Cdesatinos da rapaziada?%u201D
Mas o que eu queria dizer é que optei por Belo Horizonte quando colegas e grandes amigos escolheram São Paulo e foram criar o novo jornalismo brasileiro no Jornal da Tarde, %u201CEstadão%u201D e Veja, na década de 60.
Desde então, BH virou cidade grande, quadruplicou sua população, mas eu me pergunto: existe hoje em BH um ambiente em que germinaria o grupo de cronistas que se extingue com Fernando Sabino? Ou de artistas que se uniram em torno de Capanema e Carlos Drummond de Andrade? E as instituições financeiras modelares? O que de fato existe e é referência mundial, o corpo médico de Belo Horizonte: a população sabe da sua excelência e tem acesso a esses craques?
Belo Horizonte foi, neste vasto mundo, a cidade que escolhi. Mas sinto um nó na garganta quando pronuncio o nome de minha cidade. Ela se perdeu em algum ponto, há algum tempo que não sei qual ou quando. Só sei que me dá uma dorzinha triste quando percebo que mineiro realizado é mineiro federal.
Lindolfo Paoliello é cronista, autor dos livros O País das Gambiarras (Editora Record) e O Melhor das Crônicas (Editora Del-Rei). Nasceu em Ubá - MG, e vive em Belo Horizonte desde 1959.
lindolfo@paoliello.com.br